Ayrton Vignola/AE-19/1/2011
Ayrton Vignola/AE-19/1/2011

Falta de mão de obra reduz exigências nas contratações

Até quem não sabia ler e escrever conseguiu uma vaga formal em 2010, aponta estudo da MCM Consultores

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

A escassez de mão de obra qualificada levou as empresas a reduzirem o grau de exigência nas contratações em 2010, ano em que o emprego formal bateu recorde e atingiu 2,5 milhões de vagas. Foram admitidos trabalhadores com menor nível de escolaridade e até quem não sabe ler e escrever conseguiu emprego formal, revela um estudo da MCM Consultores, feito com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados.

Quase um quarto das contratações líquidas até outubro de 2010 foi de pessoas com ensino fundamental completo, perto de 500 mil trabalhadores. Já em 2009, quando a economia não estava aquecida, o saldo de contratações foi negativo para o perfil de trabalhador menos qualificado. Isto é, o total de demissões superou o de admissões.

"Por causa da escassez de mão de obra em 2010, a dinâmica do emprego mudou", afirma o economista Marcos da Costa Fantinatti, responsável pelo estudo. Entre 2004 e 2009, mais de 90% do saldo médio das contratações formais se concentrava nos trabalhadores com ensino médio incompleto para cima. No caso das contratações com ensino médio incompleto e de analfabetos, o saldo era negativo. E a parcela de trabalhadores com ensino fundamental completo nas contratações era reduzida.

Em 2010 houve uma interrupção dessa tendência, observa Fantinatti. Apesar de a maioria das contratações (77,8%) formais ocorrer entre os trabalhadores com ensino médio incompleto para cima, houve aumento da fatia da admissão de pessoas com ensino fundamental, principalmente incompleto (12,7%), e até de analfabetos (0,4%). Ele ressalta que a mudança de tendência ocorreu em todos os setores, exceto nas contratações da administração pública.

"Diminuímos o tamanho da régua", admite Waldomiro Sesso Filho, gerente de Treinamento da Brasanitas, especializada em serviços de limpeza. Ele conta que flexibilizou o quesito nível de escolaridade. Até 2009 era exigido que o candidato à vaga de servente de limpeza tivesse cursado até 7.ª série do ensino fundamental. Em 2010, a exigência caiu para a 3.ª ou 4.ª série.

Sesso Filho explica que a escassez de mão de obra ocorreu no seu setor porque a construção civil "roubou" muitos trabalhadores para desempenhar funções que exigem pouca qualificação. Prova disso é que a rotatividade de empregados cresceu. "Começamos 2010 contratando 600 trabalhadores por mês. Ultimamente esse número chegou a mil."

Haruo Ishikawa, vice-presidente de Capital Trabalho do Sinduscon-SP, diz que a escassez de mão de obra na construção civil é generalizada. Nas suas contas, perto de 30% das admissões feitas pelas construtoras no Estado de São Paulo em 2010 foram de pessoas sem qualificação.

A dificuldade para recrutar profissionais com formação técnica faz com que muitas empresas passem hoje por uma situação totalmente atípica: tenham vagas e não consigam profissionais para preenchê-las. Esse é o caso da Cast, especializada em desenvolvimento de programas de computador para vários setores. José Calazans da Rocha, presidente da companhia, conta que há hoje 400 vagas abertas para profissionais de tecnologia de informação nas fábricas de São Paulo, Rio, Fortaleza e Brasília. "No nosso caso é mais difícil. Não podemos mudar o requisito mínimo para contratação. Não podemos flexibilizar."

A Johnson Controls, maior fabricante de baterias do mundo, é outra que enfrenta escassez de mão de obra com formação técnica na fábrica de Sorocaba (SP). "Faltam mecânicos eletricistas", exemplifica o diretor de Recursos Humanos da divisão Power Solutions, Daniel Luz.

Para resolver o problema, a empresa ficou mais flexível nas admissões. No lugar de contratar técnicos, começou a admitir trabalhadores com o ensino médio completo. "Hoje levo cinco meses para preencher uma vaga e 80% dos contratados têm de receber treinamento", diz Luz.

Dois lados. Fantinatti, da MCM, diz que a mudança do perfil das contratações tem impacto positivo porque trabalhadores menos qualificados conseguem uma vaga formal. Mas, por outro lado, há reflexos no custo e na produtividade. O custo da mão de obra não qualificada foi o que mais subiu entre 2004 e 2010, com aumento real de 30% dos salários.

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