Edmar Barros/Estadão
Na fábrica da Caloi, em Manaus (AM), linha de produção tem sido parada por falta de peças Edmar Barros/Estadão

Falta de peças afeta a produção de bicicletas no País

Com demanda em alta por causa da pandemia, faltam componentes para as bikes; previsão é que a normalização só venha em um ano

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

Usadas como meio de transporte para escapar de aglomerações nos ônibus e metrô, em serviços de entregas, no lazer e na prática de esportes por quem quer evitar a academia, as bicicletas viraram símbolo de mobilidade e ganharam espaço na pandemia. As vendas de bikes no mundo experimentam um boom desde março do ano passado e no Brasil não tem sido diferente.

O volume comercializado de bicicletas fabricadas aqui, importadas e montadas localmente atingiu 6 milhões de unidades em 2020. O crescimento foi de 50% em relação ao ano anterior, segundo a Aliança Bike, associação que reúne 75% do mercado. A estimativa mais recente da entidade é que a venda e a montagem de bikes movimentem R$ 10 bilhões por ano no País.

Esse forte crescimento, porém, fez surgir um problema (também enfrentado por outros setores): a falta global de peças, componentes e matérias-primas para produção, boa parte deles importados. Em épocas normais, a indústria nacional trabalhava com dois meses de estoques de insumos e de produtos acabados. Mas, atualmente, os volumes de ambos são para duas semanas, diz Cyro Gazola, vice-presidente para o segmento de bicicletas da Abraciclo e presidente da Caloi, a maior fabricante do País. “Qualquer atraso de um fornecedor complica tudo.”

Nos últimos três a quatro meses, tem sido comum a indústria interromper a linha de produção de dois a três dias no mês por falta de peças, diz Gazola. “Não posso produzir uma bicicleta sem roda, sem guidão.” Segundo ele, a demanda por bikes está entre 15% a 20% acima da oferta, porque a cadeia de produção está travada. O executivo acredita que demore entre nove meses e um ano para que o ritmo de produção se regularize.

Isacco Douek, sócio da Isapa, uma das maiores distribuidoras de peças, componentes e acessórios nacionais e importados, com mais de dez mil clientes no País, e também fabricante de bikes com a marca Oggi na Zona Franca de Manaus, conta que normalmente trabalhava com 90 dias de estoques na distribuidora. Mas, desde julho do ano passado, quando as vendas dispararam, os estoques sumiram. Atualmente a distribuidora opera “da mão para boca”: as peças chegam e acabam.

“Temos feito pedidos hoje de peças que serão embarcadas em outubro e novembro e só vão chegar ao País no ano que vem”, diz. Por isso, ele não acredita que a oferta se normalize até o início do próximo ano. 

Descompasso. Segundo Daniel Guth, diretor da Aliança Bike, o descompasso entre a oferta e a demanda por bicicletas é global, porém mais acentuado no Brasil por duas razões. Uma delas é que, pressionados pela forte demanda mundial, os países asiáticos, os grandes fornecedores, estão priorizando os pedidos de mercados consolidados e que pagam mais. O segundo ponto é que, além da alta da matéria-prima cotada em dólar e também valorizada pela alta do câmbio, como o aço e o alumínio, o preço do frete marítimo quintuplicou no último ano.

O resultado concreto desse descompasso bateu no bolso do consumidor. Nos últimos 12 meses até abril, o preço da bicicleta subiu quase 20% e os gastos com conserto de bikes, 16,2%, enquanto o IPCA, a inflação oficial do País, foi de 6,76%.

Mesmo mais caras, a procura pelas bikes segue firme. Guth diz que recente pesquisa feita pela entidade com varejistas revela que, para contornar a falta de produto, as lojas começaram a vender bicicletas de segunda mão e fazer lista de espera para atender a demanda.

A varejista Decathlon, por exemplo, confirma que há fila de espera, algo que não era comum. O diretor de produto Marcello Toshio explica que a demanda por bicicletas está tão forte que não é possível manter estoque de segurança.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Serviços para as bikes também têm crescimento

Estimativa aponta que só seguros movimentaram cerca de R $45 milhões em prêmios em 2020

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

A grande procura pelas bicicletas também alavancou o mercado de produtos e serviços relacionados, como artigos de vestuário, acessórios, oficinas mecânicas, instrutores e serviços financeiros. Só em seguros, a estimativa é que tenham sido movimentados cerca de R $45 milhões em prêmios em 2020 com 60 mil contratos fechados, calcula Rodrigo Del Claro, sócio e CEO da plataforma Clube Santuu, de serviços financeiros para ciclistas.

Del Claro conta que montou a plataforma em 2018, mas o grande salto nas vendas de seguros ocorreu no ano passado. “Em julho bati o meu recorde de vendas, em agosto dobrei julho e em setembro dobrei agosto”, conta. No momento, ele não consegue ampliar os negócios porque não há novas bicicletas nas ruas. Atualmente a plataforma tem 5 mil segurados e mais de 20 mil associados.

Essa também é a constatação de Daniel Camargo, coordenador de bikes da Argo Seguros, um dos pioneiros em bikes. De 2019 para 2020, a seguradora ampliou entre 30% e 35% as vendas e fechou o ano passado com uma carteira entre 70 mil e 80 mil bicicletas seguradas.

De olho nos novos ciclistas que estão comprando bicicletas para prática de esportes, lazer, trabalho e procuram equipamentos mais em conta – entre R$ 800 e R$ 1.800, segundo pesquisas da Aliança Bike –, quem vende seguros adaptou os produtos.

“Antes só fazíamos seguros para bicicletas acima de R$ 3 mil”, diz Del Claro. Com a abertura, ele ampliou o mercado potencial para a venda do produto.

Camargo conta que no ano passado a sua empresa criou seguro voltado para mulher e outro básico, entre 40% e 50% mais em conta do que o tradicional, justamente para atender aos profissionais que usam as bikes para trabalhar ou aqueles que adotaram as bicicletas para curtos deslocamentos. “A intenção é mostrar que tem seguro para bicicleta e ele é acessível.”

Além dos seguros, Del Claro que trocou o mercado financeiro pela plataforma de serviços voltada à bicicleta, enxerga potencial para outros produtos. Ele conta que vai lançar um consórcio para bikes em parceria com uma grande empresa do setor. Ainda neste trimestre vai oferecer um financiamento, junto com um grande banco, para a compra de bicicletas.

Oficinas. Também o movimento das oficinas mecânicas sentiu os efeitos positivos do boom das vendas de bicicletas. “A escassez de novas bicicletas fez aumentar a demanda por manutenção”, afirma Marcello Toshio, diretor de produto da Decathlon. A varejista com 41 lojas oferece serviços completos de oficina em 8 pontos de venda. Segundo o diretor, expandir essa prestação de serviços para mais unidades já estava no radar da companhia, mas o boom apressou o cumprimento dessa meta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mudança no estilo de vida vem para ficar

Quem começou a pedalar por conta da pandemia diz que bike não deve mais sair da rotina diária

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

A mudança de estilo de vida imposta pela pandemia fez muitos brasileiros descobrirem a bicicleta e encaixarem o ciclismo na sua rotina. Acostumado a usar o ônibus e metrô, o estudante de Direito Pedro de Almeida Nogueira Chaves, de 25 anos, por exemplo, resolveu fazer da bike o seu meio de transporte. Em dezembro, comprou uma bicicleta mountain bike por R$ 1.100 e gastou mais de R$ 400 com acessórios – lanterna, capacete, bermuda e bolsa. Seguro da bike ainda não fez, mas está avaliando. “Um amigo teve a bicicleta roubada”, lembra.

Mesmo em home office e com aulas remotas na faculdade, o estudante decidiu trocar o transporte coletivo pela bicicleta quando precisa se deslocar pela cidade de São Paulo para ir ao Fórum e aos cartórios, por conta do estágio que faz num escritório de advocacia, ou à casa da namorada. O objetivo é evitar a aglomeração no transporte coletivo. “De bicicleta você se desloca ao ar livre, conhece a cidade e o risco de contágio de covid-19 é menor”, argumenta.

Além desses, ele vê outros benefícios no uso regular da “magrela”. O tempo de deslocamento é bem menor. “Outro dia fui da minha casa, no Brooklin, até o dentista, em Pinheiros, – uma distância de 7 quilômetros – e gastei 30 minutos pedalando.” Nas contas de Chaves, levaria um pouco mais de uma hora, se fosse de ônibus.

Já a executiva Pamela Perla, 34 anos, mãe de gêmeos, começou no ciclismo “sentando na janelinha”, como ela mesmo diz.

Seguindo a orientação de uma amiga ciclista, em meados de março deste ano ela comprou uma bike de segunda mão, mas de alto padrão.

Pela bicicleta, todos os acessórios – capacete, luzes, luvas, sapatilha – e a assessoria de um treinador, desembolsou inicialmente cerca de R$ 20 mil. “Foi acima do planejado.” Ela também gastou com um serviço especial de regulagem da bike às características de quem a pilota. Ainda não fez seguro, mas admite que a contratação do serviço “está no radar”.

“Peguei um treinador para aprender a técnica, saber como funciona a bicicleta e ter segurança”, explica, comparando o aprendizado na bike com o de uma autoescola. Resultado: hoje ela já pedala 45 quilômetros duas vezes na semana. Aos domingos faz um percurso maior, de 60 quilômetros na orla do Rio de Janeiro, onde mora.

“Sempre gostei de malhar, mas, com a pandemia, a academia fechou”, conta, lembrando da rotina atribulada logo no início do home office. Dois meses após ter posto a bike na sua rotina, ela diz que já conseguiu. “Estou adorando cada centavo desse investimento.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.