Falta de planejamento trava projetos no meio do caminho

Muitas obras começam sem um projeto executivo de qualidade; estudos são feitos durante a construção

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2016 | 05h00

Há pelo menos seis meses, quem passa pela tradicional Rua do Gasômetro, no centro de São Paulo, vê a mesma cena: uma área de 20 mil metros quadrados com materiais de construção abandonados, um prédio pela metade e apenas vigias para garantir a integridade do local e evitar invasões. Ali, era para estar funcionando o Museu da História de São Paulo, orçado originalmente, em R$ 61 milhões, segundo a placa de anúncio da obra.

Mas, com 75% dos serviços concluídos, o projeto parou e não tem previsão para ser retomado. A Secretaria da Cultura de São Paulo afirma que “durante a execução da obra foi constatada contaminação do solo, demandando a tomada de medidas prioritárias para a solução do problema”. A questão é que agora a secretaria argumenta que não tem mais dinheiro para continuar o empreendimento, que deveria ter sido concluído há três anos. A reportagem procurou a construtora responsável pela obra, mas não teve retorno.

A paralisação das obras do museu de São Paulo é um exemplo de como as obras não têm planejamento adequado no Brasil antes de serem iniciadas. Segundo especialistas, os governos licitam os projetos sem saber de onde virá o dinheiro e o que exatamente precisará ser feito. Aí, no meio do caminho, descobrem que o solo está contaminado e que o projeto ficará mais caro. A solução mais simples – e também mais cara para os cofres públicos – é a paralisação da obra. 

A cada desmobilização de canteiro de obra, o projeto fica mais caro. “Um empreendimento é contratado para ser feito em X anos. Se esse prazo é ampliado, o custo fixo sobe e o contrato terá de passar por reajustes, já que o preço dos insumos também aumenta”, afirma o presidente da Confederação Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins.

No Brasil inteiro, há uma coleção de empreendimentos que pararam no meio do caminho por erros de projeto. Foi o que ocorreu com o corredor do sistema de BRT na BR-101 (PE), onde descobriram um gasoduto no trajeto do ônibus, diz o auditor Alfredo Montezuma, do Núcleo de Engenharia do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco. “Eles acabaram usando os recursos para recuperar o trecho da rodovia, mas o projeto original não será executado. Ou seja, houve uma mudança no projeto que não é mais o mesmo.”

No Espírito Santo, os produtores rurais aguardam há mais de dez anos a conclusão da Barragem Pinheiros - Boa Esperança, localizada no Rio Itauninhas. A obra está praticamente concluída. Faltam apenas o fechamento da represa, a delimitação e recuperação das áreas de preservação permanente e a limpeza e preparação da área que será alagada. 

A demora na inauguração também é resultado de falhas no projeto de execução. Os responsáveis pela obra só perceberam que precisavam fazer a desapropriação de alguns moradores quando foram encher a represa. O governo atual garante que o projeto será concluído em 240 dias. 

“Uma obra parada, mesmo que seja retomada, causa prejuízo por causa da desmobilização. Além disso, os materiais que foram usados no empreendimento sofrem com a deterioração do tempo, alguns até precisam ser trocados”, afirma Montezuma.

O especialista em infraestrutura, Claudio Frischtak, da consultoria Inter.B, destaca ainda que há projetos que são essenciais para a saúde da população, como é o caso das obras de saneamento básico. Além de ser um setor com pouco investimento, comparado à necessidade, muitas obras são constantemente paralisadas. “O custo disso é que se enterrou bilhões de reais numa obra que não foi concluída e que podiam ser usados para outra finalidade. É um desperdício de dinheiro.”

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