Falta de poupança pública cria dependência externa

O Brasil chegou a um nível de desenvolvimento que lhe permite dispensar qualquer investimento estrangeiro que possa pôr em perigo a soberania nacional, ou que não aceite a participação de empresas implantadas no Brasil capazes de criar novos postos de trabalho. Não se trata de atitude nacionalista radical, mas da preservação de interesses nacionais legítimos. Infelizmente, por falta de poupança pública suficiente, nem sempre estamos em condição de preservá-los.

, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

Duas notícias divulgadas anteontem merecem a atenção das autoridades brasileiras. A primeira é relativa à compra por uma estatal chinesa de sete concessionárias de transmissão de energia no Brasil; e a segunda diz respeito à construção do trem-bala entre Rio de Janeiro e São Paulo.

A construção de linha de transporte e distribuição de energia, por representar um investimento importante, ficou a cargo de empresas privadas, em regime de concessão, tratando-se de um serviço público. A compra de sete concessionárias pela estatal chinesa State Grid, por R$ 3,09 bilhões, apesar de representar o maior investimento chinês no Brasil, tem de ser recebida com cuidado.

Trata-se de um investimento na infraestrutura de um serviço público que passa a ser realizado por uma empresa estatal estrangeira que domina a distribuição no seu país de origem. Isso significa que, se o serviço prestado pela empresa no Brasil cair de qualidade, teremos de negociar não com uma empresa privada estrangeira, mas com o governo chinês, numa situação assimétrica. Diferente de uma empresa privada estrangeira que se une a um investidor brasileiro para produzir aço, por exemplo.

O projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV) levanta também problemas. Não há dúvida de que os gastos previstos (R$ 34,6 bilhões) exigem não apenas uma participação técnica estrangeira, como um aporte de capital estimado em torno de R$ 7 bilhões, sem falar dos financiamentos do BNDES e da participação dos fundos de pensão. Essas exigências poderão dar uma vantagem às empresas estatais da China, que já têm uma grande experiência na construção de ferrovia desse tipo.

Nosso atraso tecnológico nos leva a depender bastante do capital estrangeiro. No entanto, na medida em que as obras civis representam 71% dos gastos previstos, devemos reservar a maior parte delas para empresas privadas brasileiras que, com alta tecnologia nesse tipo de empreendimento, podem perfeitamente se incumbir da tarefa.

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