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Falta de pressa com o telhado

Sociedade aproveitará os dias de sol tentar dar um jeito no telhado logo depois de uma violenta tempestade?

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2016 | 05h00

Há quem diga que, no Brasil, em vez de consertar o telhado nos dias do sol, a preferência é por ir à praia. Mas a grande questão atual pode ser formulada de uma maneira um pouco diferente: será que a sociedade brasileira, apesar de gostar tanto de praia, aproveitará os dias do sol para pelo menos tentar dar um jeito no telhado, logo depois que uma violenta tempestade fez enormes estragos?

Os “dias de sol” são a extrema liquidez do mercado financeiro internacional, que há vários meses vem fortalecendo moedas, bolsas e outros ativos financeiros de países emergentes. Há crescente tolerância em relação a desequilíbrios como os do Brasil. Quem transformou dólares em reais em 21 de janeiro deste ano, para comprar ações que correspondam ao índice Ibovespa, está auferindo hoje um ganho de quase 85% na moeda americana.

Sorte do Brasil, do presidente em exercício Michel Temer e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Eles estão ganhando o tempo necessário à estratégia gradualista de ajuste fiscal, que deixa as rédeas relativamente frouxas no curto prazo – permitindo atender clientelas importantes para consolidar o cacife político –, em troca de sinalizar com mudanças duras que devem melhorar as contas públicas no médio e longo prazos, como o teto para os gastos e a reforma da Previdência.

Só que muitos analistas temem que a complacência internacional esteja empurrando o Brasil na direção de um gradualismo excessivo. Nas contas de Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora de recursos JGP, a dívida pública bruta deve chegar em alguns anos a 90% do PIB e o Brasil só voltará a ter superávits primários (isto é, descontando os juros) após 2020.

“No momento, o mundo está mandando um sinal que está de acordo com essa trajetória”, diz. O problema, porém, é que os apetites do investidor internacional são volúveis.

Rocha nota que, nos últimos dez anos, a diferença entre o juro real de um ano americano e o equivalente brasileiro quase sempre ficou acima de cinco pontos porcentuais. A exceção foi um período entre 2011 a 2013, em que o Banco Central tentou baixar os juros “na marra”, estratégia que redundou em fracasso. Hoje, o juro real dos EUA de um ano é negativo em 1%, o que até permitiria em teoria que o juro real brasileiro caísse gradualmente até 4% (está acima de 7%), mantendo os cinco pontos porcentuais de diferença ante o americano que Rocha considera um certo piso (sem baixar juros na marra), dado o retrospecto histórico.

Se dentro de alguns anos a política monetária americana se normalizar, porém, o juro real do país pode ir para 1%, o que equivaleria a um piso de 6% para o Brasil – nível perigoso para a trajetória da dívida pública brasileira. Em outras palavras, se há um momento propício para estancar o ciclo vicioso pelo qual o juro real é alto por causa (em parte) do risco da dívida pública e a dívida sobe por causa do juro real, este seria agora. Por causa das taxas negativas americanas e no mundo rico, o Brasil poderia praticar juros reais mais baixos se rapidamente resolvesse o problema fiscal, reduzindo o risco que se reflete em taxas mais altas. Com juro real menor, a trajetória da dívida também melhoraria, o que poderia ajudar a derrubá-los ainda mais, mudando o círculo de vicioso para virtuoso.

Mas é exatamente a grande liquidez internacional, que leva aos juros negativos e à maior complacência internacional, que também impele o Executivo e o Legislativo no Brasil na direção de maior gradualismo. O perigo, como resume Rocha, é que “quando a coisa virar”, isto é, quando o juro real americano se mover para território positivo, “o Brasil pode ser pego ainda com dívida alta, e com o superávit primário próximo de zero”. E o telhado estaria muito mal preparado para a próxima tempestade.

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FERNANDO DANTAS

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