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Falta do plano estratégico

A crise de 2008 marcada pela quebra do quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, o Lehman Brothers, em setembro de 2008, derrubou o mito da soberania do mercado, ou seja, de sua capacidade de se autorregular face à crise. Como nas demais crises do capitalismo o Estado teve que intervir para salvar o mercado do colapso.

AMIR KHAIR, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h13

Como a crise foi de origem financeira (hipotecas subprimes americanas), foi necessário injetar centenas de bilhões de dólares para dar liquidez à economia dos Estados Unidos, Europa e Japão, principalmente, para evitar a quebra de novas instituições financeiras de porte.

Passados cinco anos do início da crise, o risco de outra quebra que pudesse abalar o sistema financeiro parece afastado e, além disso, os Estados Unidos iniciam nova fase de crescimento com tendência à redução do ainda elevado índice de desemprego.

Importante fio condutor dessa reação americana se situa a poucos metros do solo: o xisto betuminoso do qual se extrai o gás para uso como fonte de energia e matéria prima para a indústria petroquímica. Empresas procuram aproveitar a proximidade da nova fonte trazida pelo xisto e vai-se formando novo arranjo geopolítico com perda em perspectiva para as regiões produtoras de petróleo.

Face a essa realidade, os países e empresas procuram adaptar sua estratégia visando diminuir riscos e elevar o potencial da economia para tirar o melhor proveito da mudança geopolítica em curso.

Ameaça. O Brasil está diante dessa nova realidade e o futuro promissor do petróleo das camadas do pré-sal pode estar ameaçado. O governo não parece preparado para enfrentar a ameaça e agrava a posição do País ao enfraquecer a situação financeira da Petrobrás, causando atraso no cronograma: a) de exploração e produção de petróleo e; b) para o aumento da capacidade de refino para eliminar a dependência da importação de derivados do petróleo.

Infelizmente o governo, vítima da política curto-prazista de vassalo do medo do fantasma da inflação usou e, ainda usa a Petrobrás como biombo da inflação, comprometendo a autossuficiência do País nos derivados e lançando dúvida sobre o futuro do pré-sal diante da rápida evolução do xisto.

Isso coloca em foco o papel do Estado na economia. Ou o Estado: a) usa sua estatal para intervir na economia com foco na inflação, mantendo o preço de combustíveis subsidiados pela empresa ou; b) permite à sua empresa realizar seu plano estratégico, previamente aprovado, com premissas de metas físicas, econômicas e financeiras.

Patrimônio. A realidade é de ação desastrosa e desastrada do governo em relação à sua principal empresa. Fora os danos causados à mobilidade urbana pelo estímulo ao transporte individual com o subsídio ao consumo de gasolina, cuja importação cresce exponencialmente, há o dano ao País, pela fantástica perda patrimonial da Petrobrás.

Em março de 2011,do da empresa foi de R$ 392 bilhões. Em março deste ano, caiu para R$ 228 bilhões e em junho caiu para R$ 200 bilhões. A perda atingiu R$ 192 bilhões, ou seja, metade foi perdida. Mas a perda patrimonial continuou depois de junho, pois as ações continuaram caindo.

A União como maior acionista da empresa amarga perda bilionária com sua política populista. É o governo federal dando tiro no próprio pé.

Mas, não é só no caso da Petrobrás que o governo dá tiro no próprio pé. É na política fiscal, monetária e cambial que o dano é também violento.

Dano fiscal. O dano fiscal vem por três condutos: a) pela perda de arrecadação devido ao baixo crescimento econômico; b) pela precária gestão das despesas e; c) pelo excesso de despesas com juros devido à Selic desnecessariamente elevada.

Para acabar com a perda de arrecadação é necessária política firme de crescimento econômico, que envolveria a derrubada: a) do alto custo do financiamento ao consumo, que rouba metade do poder de compra dos que usam o crediário e; b) dos preços dos insumos básicos da indústria, agindo sobre o início das cadeias produtivas.

Algumas análises já começam a levantar problemas de contaminação de preços formados no início das cadeias produtivas, onde empresas monopolistas e oligopolistas impõem preços elevados, protegidas que são por tarifas de importação elevadas. Voltarei a essa questão proximamente, pois parece ser central e estratégico ao País ter insumos competitivos internacionalmente e isso envolve fundamentalmente a política tarifária do comércio exterior.

Não vou tratar das questões da gestão fiscal, abordada em artigos anteriores, nem do impacto fiscal da política monetária que causa o dano fiscal de 5% do PIB a cada ano.

Dano cambial. O câmbio, como demonstrado em artigo anterior está completamente fora de lugar, que seria ao redor de R$3,00 para devolver a competitividade retirada pelo governo federal das empresas sediadas no País, pois usa a âncora cambial como política de controle inflacionário. Perde-se empregos e renda no País ao deixar de atender pela oferta local a demanda por bens e serviços.

A balança comercial (exportação menos importação) pode registrar déficit neste ano, caso o governo persista em segurar o caminho natural do câmbio rumo aos R$ 3,00 e o rombo nas contas externas caminha para US$ 80 bilhões neste ano.

É necessário fortalecer os fundamentos macroeconômicos com a redução da taxa básica de juros e a tributação do IOF sobre as aplicações especulativas do capital internacional, que suga anualmente US$ 10 bilhões em média nos últimos doze anos. O governo padece diante do dano patrimonial, fiscal e cambial e parece sem rumo, atirando para todo lado com políticas pontuais de desoneração, sem resultados para a queda de preços ou de estímulo ao crescimento.

Deveria repensar sua política econômica e traçar um plano estratégico, antes de mais nada, se pretende continuar após 2014. Caso contrário corre sério risco de ser atropelado pelos fatos e pela onda de insatisfação manifestada nas marchas e concentrações populares de junho. Elas podem retornar, pois: a) não falta combustível como demonstra diariamente o comportamento da classe política; b) não são vistos resultados para melhorar a vida nas cidades e; c) o ano eleitoral estimula reações contra a falta de resultados.

Há que considerar que o rebaixamento de tarifas ocorrido a partir de junho no transporte começa a gerar reações das empresas operadoras, que ameaçam com paralisação. O cenário em perspectiva é de crescente tensão social advinda da redução do ritmo de crescimento do emprego.

O governo não teria essa situação incômoda se tivesse feito desde seu início um plano estratégico. Como continua não tendo, corre risco de perder a oportunidade de novo mandato. A conferir.

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