Fóruns Estadão Saúde: Falta fazer a lição de casa no combate ao câncer

Programas contra a doença não são postos em prática e doença mata cada vez mais

O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2016 | 08h47

As críticas ao Sistema Único de Saúde (SUS) são muitas e bem conhecidas. Atendimento precário, falta desde médicos a medicamentos básicos. No caso do câncer, em particular, a demora de meses e até anos à espera de atendimento resulta em mortes que poderiam ser evitadas com tratamento adequado. Políticas e programas de saúde anunciados para melhorar o atendimento oncológico não têm conseguido conter o crescente número de ocorrências e de óbitos.

Especialistas das redes pública e privada da saúde, reunidos na quarta-feira em São Paulo, em mais um evento da série Fóruns Estadão, realizado pelo Grupo Estado, concordaram que, antes mesmo de novas iniciativas, é necessária uma mobilização para pôr em prática as medidas já aprovadas. “Nosso compromisso deve ser o de melhorar a gestão na saúde para usar bem no que já temos. Existem centenas de serviços e equipamentos prontos, mas que não estão em funcionamento. Enquanto não estivermos usando bem o que já temos, não tenho moral para pedir mais recursos”, declarou o ministro da saúde, Ricardo Barros, presente ao encontro.

A oncologista Maira Caleffi, presidente da Femama, ONG voltada ao combate do câncer de mama, ressaltou as falhas na aplicação da Portaria 874, de 2013, que instituiu a política nacional para prevenção e controle do câncer. “Essa portaria é um primor, inclui tudo o que a gente gostaria de ter. Mas precisa ser executada.” 

Oncologista clínico do Hospital Albert Einstein e diretor científico do Instituto Oncoguia, Rafael Kaliks foi enfático ao sustentar que, para ele, a única forma de melhorar o atendimento oncológico à população é “a interação entre o SUS e a medicina suplementar. A estrutura do SUS é pobre. Deveríamos usar o parque instalado da medicina suplementar”.

Para Kaliks, “decisões erradas de governo têm levado a mortes evitáveis”. “O Ministério (da Saúde) tem de assumir a responsabilidade de pôr as pessoas certas no lugar certo. Por exemplo, quem determina qual medicamento ou tratamento deve ser incorporado ao SUS?”

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Saúde sofre por má gestão e falta de infraestrutura

Ainda não foram adotados muitos programas, políticas e portarias criados há anos para dar à população um melhor atendimento

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2016 | 09h02

Que o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa melhorar sua infraestrutura e ofertar tratamentos inovadores para o câncer de forma mais rápida, não há dúvidas. Mas a qualidade da assistência oncológica teria um salto de qualidade se os gestores públicos colocassem em prática políticas já existentes e utilizassem melhor os recursos disponíveis. Essa foi a avaliação de especialistas que participaram do Fóruns Estadão Saúde, realizado na quarta-feira, em São Paulo, pelo Grupo Estado.

Programas, políticas e portarias criadas há anos e ainda não implementados integralmente foram citados como exemplos pelos palestrantes para mostrar que muito pode ser aprimorado com uma gestão mais eficiente do sistema.

Presidente da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), Maira Caleffi ressaltou as falhas na aplicação da Portaria 874, de 2013, que instituiu a política nacional para prevenção e controle do câncer. “Essa portaria é um primor, inclui tudo o que a gente gostaria. Mas precisa ser executada. Como vamos ter acesso a um diagnóstico rápido, por exemplo, se as pessoas não têm como fazer endoscopia, colonoscopia, biópsia?”, questionou.

Os problemas na implementação de políticas de prevenção, diagnóstico e tratamento de câncer foram admitidos pelo ministro da Saúde, Ricardo Barros, também presente no evento. Ele afirmou que, enquanto o sistema não for mais bem administrado, não será possível aumentar o orçamento da saúde. “Nosso compromisso tem de ser melhorar a gestão na saúde para gastar bem o que já temos. Existem centenas de serviços e equipamentos prontos, mas que não estão em funcionamento. Enquanto não estivermos gastando bem o que já temos, não tenho moral para pedir mais recursos”, declarou.

Um exemplo de projeto criado e não implementado citado pelo próprio ministro foi o plano de expansão dos serviços de radioterapia. “Em 2012, houve o anúncio do plano de compra de 80 novos aceleradores lineares para radioterapia, mas até hoje nenhum está em funcionamento”, declarou.

Segundo o ministro, o atraso ocorreu por vários problemas na aplicação do programa. “A dificuldade foi na disponibilidade dos terrenos, na execução do projeto e na compra do aparelho em si”, disse.

O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Gustavo Fernandes, afirmou que a comunidade médica e os pacientes precisam cobrar os governos para que esses programas sejam colocados em prática de forma mais rápida. “O plano de expansão de radioterapia é belíssimo, mas precisa ser executado. Não dá mais para falarmos desse plano com orgulho, temos de falar com um certo grau de vergonha”, afirmou.

Para Merula Steagall, boa gestão e planejamento poderiam também ajudar a acelerar os processos de análise de registro e incorporação de novas terapias oncológicas no SUS. “O processo de incorporação tem vários gargalos. O tempo de demora para registro da Anvisa é de cerca de 18 meses. E depois disso ainda precisa ir para análise da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) para que eles avaliem o que será incorporado nos planos de saúde e na rede pública. Existem medicamentos com registro há dez anos que ainda não foram incorporados no SUS.”

Integração. Oncologista clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e diretor científico do Instituto Oncoguia, Rafael Kaliks defendeu maior integração entre as redes pública e privada de saúde para melhorar a assistência ao paciente com câncer e reduzir os gargalos. “A estrutura do SUS é insuficiente, então por que não usar o parque instalado da rede privada? Tem 40% de pessoas precisando fazer radioterapia sem conseguir. Os casos de câncer colorretal estão aumentando, mas podem ser prevenidos, só que falta o exame de colonoscopia na rede pública. Por que não utilizar a estrutura da rede particular nesses casos?”, questionou.

Ele ressaltou ainda que a expertise de serviços particulares de excelência poderia ser utilizada pela rede pública para o diagnóstico correto de diferentes tipos de câncer. “Os tumores têm de ser subclassificados por técnicas sofisticadas. Que se use a rede privada para fazer esse diagnóstico apropriado. Sem isso, o paciente terá tratamento inadequado e o governo, um gasto inútil com um medicamento que pode não ter eficiência para aquele paciente.”

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    Sem prevenção, câncer será maior causa de mortes

    Se não houver melhora nas políticas públicas, em 2029 a mortalidade pela doença será maior do que por problemas cardiovasculares

    Fabiana Cambrioli, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 09h19

    Se as políticas públicas de prevenção, detecção e tratamento do câncer não forem aprimoradas, a doença se tornará, em 2029, a principal causa de mortalidade no Brasil, superando as doenças cardiovasculares, como enfarte e AVC. Essa é a conclusão de um estudo feito pelo Observatório de Oncologia, plataforma de análise de dados criada pelo movimento Todos Juntos Contra o Câncer, liderado pela Associação Brasileira de Leucemia e Linfoma (Abrale).

    Com base nas taxas de mortalidade por câncer e problemas cardiovasculares do período entre 2000 e 2013 e nos dados de projeção da população do Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística (IBGE), os pesquisadores fizeram uma estimativa do número de óbitos pelos dois grupos de doenças. “Observamos que a curva de crescimento das mortes por câncer estava mais inclinada do que a das doenças cardiovasculares e isso indica que, provavelmente, em algum momento, elas vão se cruzar. Fizemos análise preditiva do período até 2040 e chegamos ao dado de que, em 2029, o câncer passará a ser a maior causa de mortalidade”, explica Hellen Matarazzo, gerente de ensino e pesquisa da Abrale.

    De acordo com a estimativa, naquele ano, a taxa de mortalidade por tumores será de 115 por 100 mil habitantes, enquanto o índice de óbitos por doenças cardiovasculares será de 113 por 100 mil habitantes. Hoje, o câncer é responsável por 106,3 mortes por 100 mil brasileiros e os problemas do aparelho circulatório, por 168,9 óbitos por 100 mil. Juntas, as duas doenças matam por ano cerca de 542 mil pessoas no País, segundo dados mais recentes do Datasus.

    Diferenças. Embora o câncer possa se tornar a maior causa de óbitos num futuro próximo, a incidência e mortalidade pela doença será extremamente diversa de acordo com o tipo de tumor, o sexo e a região do País. Alguns cânceres provocarão menos mortes, enquanto outros farão muito mais vítimas.

    Segundo o estudo, entre as mulheres, a mortalidade por câncer de mama deverá se manter estável no Sul e Sudeste, onde os serviços de detecção e tratamento estão mais bem estruturados, e aumentará nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Pela mesma razão, os óbitos por câncer de colo de útero deverão cair nas duas regiões mais ricas do País e continuar crescendo ou ficar estável nas demais.

    “Todo esse cenário pode mudar se as políticas públicas forem eficientes. Desde 2014, por exemplo, temos a vacinação de meninas contra o HPV, o que previne o câncer de colo de útero. Se isso for implementado com sucesso, as mortes por esse tipo de tumor vão cair em todo o País. E é isso que a gente quer, que nossos dados se mostrem errados porque a política interveio antes”, diz Hellen.

    Outra má notícia para as mulheres é que as mortes por câncer de pulmão aumentarão em todas as regiões. “As mulheres adotaram o hábito de fumar muitos anos depois dos homens e isso terá reflexo na incidência de câncer daqui a algum tempo. Como eles fumam mais e há mais tempo, acabaram sendo mais impactados pelas propagandas antifumo”, diz o oncologista Fernando Cotait Maluf, fundador do Instituto Vencer o Câncer e chefe da oncologia clínica do centro oncológico Antonio Ermírio de Moraes.

    Entre os homens, as mortes por câncer de próstata cairão no Sul e Sudeste e aumentarão nas outras regiões. O mesmo ocorrerá com o câncer de pulmão. Os tumores de intestino deverão crescer em ambos os sexos e em todo o País. “Abandonar o cigarro, evitar o álcool de maneira excessiva, combater a obesidade desde a infância, tudo isso ajudaria a reduzir o número de casos de câncer em 30% a 40%”, diz Maluf.

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    Este ano, mais de 10 mil brasileiros terão linfoma

    Doença atinge sistema linfático, estrutura do corpo que tem como uma de suas principais funções a produção de células de defesa

    Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 09h31

    Outro tipo de câncer que deverá crescer com o envelhecimento da população é o linfoma, tumor que atinge o sistema linfático, estrutura do corpo que tem como uma de suas principais funções a produção de células de defesa.

    A doença se divide em dois grupos: Hodgkin e não-Hodgkin. O primeiro é menos comum, atinge jovens entre 15 e 30 anos, e tem maior chance de cura. O segundo é mais prevalente, correspondendo a cerca de 80% de todos os casos da doença, e está mais relacionado ao avanço da idade.

    A doença ganhou os holofotes no mês de junho, quando o ator Edson Celulari revelou estar lutando contra um linfoma não-Hodgkin. Outras personalidades já receberam o mesmo diagnóstico, como a presidente afastada Dilma Rousseff, o também ator Reynaldo Gianecchini e Luiz Fernando Pezão, governador do Rio. A estimativa é de que 10.240 brasileiros tenham a doença em 2016.

    “São mais de 40 tipos de linfoma. Sabemos que alguns casos podem estar relacionados com determinados tipos de vírus ou bactérias, mas, na maioria das vezes, não se sabe exatamente o gatilho. O que sabemos é que o envelhecimento é um dos principais fatores de risco”, explica Nelson Hamerschlak, coordenador médico do setor de hematologia do Hospital Israelita Albert Einstein e membro do comitê médico da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale).

    Como não há forma de prevenção para a maior parte dos linfomas, o médico alerta para a importância da detecção precoce. “Os principais sintomas são aumento de ínguas, febre, emagrecimento e sudorese noturna. Alguns pacientes também apresentam tosse. O quanto antes o tratamento for iniciado, menos intenso ele será e melhores resultados serão alcançados”, diz o especialista. / F.C.

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    Opinião: Câncer - o desafio do SUS no século 21

    Apesar dos avanços, recursos são insuficientes, não há em todo País estrutura de tratamento e faltam profissionais capacitados

    Paulo M. Hoff*, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 11h14

    Uma das grandes missões da sociedade brasileira no século 21 será a de como garantir um tratamento de saúde realmente digno e eficiente a todos. Quando o assunto é câncer, esse desafio tem uma relevância ainda maior. No mundo, quase 15 milhões de pessoas serão diagnosticadas este ano e mais de 8 milhões morrerão em decorrência da doença. Considerando apenas o Brasil, ao redor de 600 mil casos serão identificados no próximo ano, e a tendência é de aumento nesses dados.

    Podemos identificar muitas razões para isso. A população envelhece rapidamente, paramos de morrer por doenças infecto-parasitárias, e começamos a controlar mais e melhor as doenças cardiovasculares. O estilo de vida mudou com a urbanização dos últimos 50 anos, levando a alterações nem sempre saudáveis na alimentação e nos níveis de atividade física. A obesidade também é um problema e avança como causa potencialmente evitável de câncer, sem esquecermos ainda dos tumores associados a excesso de exposição ao sol, cada vez mais comuns. 

    Tumores causados por vírus encontraram terreno fértil em uma sociedade mais tolerante em relação a condutas que facilitam sua disseminação, além do tabaco, que continua sendo a principal causa de mortes por câncer. Os médicos passaram a ter instrumentos muito mais sensíveis para o diagnóstico e casos previamente não diagnosticados passam a engrossar as estatísticas. 

    A medicina contra-ataca utilizando-se da pesquisa e da proliferação de informação pelo ensino. O diagnóstico está mais acurado e incorpora tecnologias como a biópsia líquida e testes de imagem funcional. A cirurgia está cada vez melhor e menos invasiva, e conta com auxílio robótico em muitas situações. A radioterapia torna-se mais segura e eficiente. A quimioterapia tradicional abre espaço ao tratamento molecular, dirigido contra alvos presentes apenas nas células tumorais, diminuindo efeitos colaterais e melhorando as chances de cura. Mesmo pacientes com tumores muito avançados já podem ter esperança de que os tratamentos modernos lhes trarão uma vida mais longa e com melhor qualidade.

    A imprensa tem sido generosa ao noticiar esses avanços. Pessoas ilustres colaboraram expondo suas lutas contra esse mal, reduzindo o tabu em relação ao diagnóstico e mostrando que, em muitos casos, a cura é possível sim. Cada vez mais vemos os pacientes enfrentando a doença com esperança e cabeça erguida. Mas esses avanços trouxeram novos desafios ao SUS, incluindo a necessidade de educação e capacitação de pessoal para utilização adequada dessas novas tecnologias, dependência da importação de insumos, equipamentos e medicamentos e o alto custo. Infelizmente, nem sempre esse novo e animado cenário é, de fato, uma realidade palpável a todos. 

    A questão da pesquisa clínica no País tem gerado uma discussão muito saudável e produtiva, com praticamente todos os interessados concordando que nosso sistema atual foi importante e inovador, mas que se tornou lento e burocratizado com o tempo e precisa de ajustes, sem, claro, sacrificar os preceitos éticos que protegem os pacientes.

    O número de médicos também é um assunto polêmico. O Brasil tem a quinta maior população do mundo e quase meio milhão de médicos, mas certas áreas geográficas ainda padecem com a falta de um profissional da saúde no local. Obviamente, um aumento no número de médicos graduados seria parte da solução, associado à disponibilidade de infraestrutura adequada e bons salários. O Brasil, que possuía ao redor de 100 escolas de medicina, saltou para mais de 240 instituições em pouco mais de uma década. Apenas a China e a Índia têm mais escolas que o Brasil. E o que questionamos nesse caso é a qualidade das mesmas. Quantas escolas têm bibliotecas, laboratórios e hospitais de ensino que possam treinar o profissional do século 21? Qual a capacitação e conhecimento esperados de nossos médicos em um momento em que o custo e a complexidade dos tratamentos não param de aumentar? 

    Segundo dados do Cremesp, apenas 45% dos jovens que realizam a prova do Conselho Regional de Medicina são aprovados. Mas todos estão legalmente autorizados a clinicar. Na Medicina um erro pode ser fatal, além de aumentar os custos do tratamento. É evidente que o País precisa de mais médicos, mas não podemos sacrificar a qualidade pela quantidade. Quanto melhor o médico na assistência primária, maior a chance de reconhecer os sinais do câncer e encaminhar o paciente de maneira correta para o tratamento.

    Apesar dos avanços nas últimas décadas, ainda estamos longe do ideal. O financiamento é insuficiente, o acesso ao diagnóstico inicial demora muito, as estruturas de tratamento não estão disponíveis em todo o território nacional, e há falta de profissionais capacitados. O alto custo torna imprescindível que a sociedade discuta quais parâmetros serão utilizados na adoção de protocolos de tratamento. Com recursos limitados, as escolhas precisam ser feitas com bom senso. Trabalhar nos pilares de ensino, pesquisa e assistência, em todos os níveis, é fundamental para termos sucesso no combate ao câncer. 

    *É PROFESSOR TITULAR DE ONCOLOGIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP E DIRETOR-GERAL DO INSTITUTO DO CÂNCER DO ESTADO DE SÃO PAULO (ICESP)

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    Em cinco anos, gasto com tratamento contra câncer cresceu 66%

    Segundo estudo, valor passou de R$ 2,1 bilhões para R$ 3,5 bilhões em 2015; casos de pacientes com a doença também aumentaram

    Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 09h42

    O gasto do Ministério da Saúde com tratamentos contra câncer cresceu 66% nos últimos cinco anos, saltando de R$ 2,1 bilhões em 2010 para R$ 3,5 bilhões em 2015, segundo levantamento da pasta feito a pedido do Estado. O montante inclui recursos para procedimentos como cirurgias oncológicas, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia e cuidados paliativos.

    Também cresceu, no período analisado, o número de pacientes com câncer atendidos no Sistema Único de Saúde (SUS). Nos últimos cinco anos, o volume de doentes em tratamento na rede pública passou de 292 mil para 393 mil.

    Os números são reflexos do aumento de casos de câncer no País nos últimos anos e do lançamento de novas terapias e medicamentos de alto custo contra a doença. Eles indicam um desafio para os gestores do sistema: com o envelhecimento da população, a tendência é que os casos da doença cresçam ainda mais e exijam um investimento maior nas áreas de prevenção, detecção e tratamento.

    “As causas do câncer são divididas em preveníveis e não preveníveis. Entre as não preveníveis está o envelhecimento da população. A expectativa de vida no Brasil aumentou por causa das melhores condições sanitárias, de acesso aos serviços da saúde, prevenção e educação. A célula normal, com o envelhecimento, vai reduzindo o poder de vigilância e reparo contra as agressões. O processo de defesa passa a ser mais lento e a célula maligna ganha esta corrida”, explica Maria Paula Curado, coordenadora do grupo de epidemiologia do A.C. Camargo Cancer Center.

    Isso explica por que a incidência de câncer é maior em pessoas mais velhas. “Vários cânceres aumentam com a idade, como o de mama, os tumores gastrointestinais, alguns hematológicos”, diz Auro del Giglio, coordenador do HCor Onco e da oncologia clínica do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC) e professor titular de hematologia e oncologia da Faculdade de Medicina do ABC.

    Segundo os especialistas, mesmo entre os cânceres preveníveis, a idade avançada acaba aumentando o risco de desenvolvimento da doença, porque o tempo de exposição a fatores cancerígenos, como tabaco, é maior. “O câncer é uma doença com período de latência longo, ou seja, a carcinogênese ocorre pelo menos dez anos antes do aparecimento do tumor. Portanto, a prevenção e redução dos fatores de risco podem reverter as chances de desenvolvimento da doença”, afirma Maria Paula.

    Políticas. Para tentar reduzir o impacto do câncer sobre a população e sobre o orçamento público, os governos devem investir em políticas de diagnóstico precoce e promoção da saúde, dizem os especialistas.

    “Tem de falar sobre a doença, estimular a educação para a saúde, reduzir a obesidade, fazer leis que restrinjam ainda mais o tabagismo, colocar a prevenção do câncer ao alcance da população e dar vazão aos casos detectados. Não adianta diagnosticar precocemente e não ter como tratar rapidamente”, diz Giglio.

    Para Maria Paula, o sistema de saúde deve buscar maior eficiência. “Uma rede pública eficiente de saúde deve ter indicadores de avaliação periódicos, como a sobrevida dos pacientes tratados, a mortalidade e a tendência de incidência. Avaliar o sistema quanto ao número de casos iniciais tratados e a sobrevida desses casos dá a fotografia da saúde do paciente com câncer”, opina.

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    Medicamentos contra câncer estão mais eficazes, mas menos acessíveis

    Em alguns casos, o tratamento de um único paciente chega a custar R$ 600 mil

    Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 09h50

    Um dos principais desafios no financiamento da assistência oncológica na rede pública é o alto preço cobrado pelas drogas mais inovadoras contra a doença. Em alguns casos, o tratamento de um único paciente chega a custar R$ 600 mil.

    As novas tecnologias e medicamentos tornaram-se mais efetivas contra cada determinado tipo de tumor, mas o processo de descoberta dessas terapias encarece o produto final. “O que aconteceu na última década é que a biologia molecular e o estudo genético ficaram baratos o suficiente para detectarmos alterações nas células tumorais a ponto de definirmos o tratamento específico. Conseguimos olhar o alvo e quase que desenhar uma molécula capaz de destruir a célula tumoral. Só que essas drogas chegam caras ao mercado, primeiro porque elas são muito específicas, então não têm venda em larga escala, e segundo porque a indústria argumenta que teve as despesas de várias pesquisas até chegar a uma molécula eficaz”, explica Riad Younes, diretor do centro de oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

    O especialista explica que, tanto no aspecto terapêutico quanto no financeiro, é preciso ter certeza de quais pacientes, de fato, terão benefício com esses medicamentos. “Essas drogas são extremamente caras e não funcionam para todo o mundo. É importante investigar caso a caso para selecionar o doente que vai se beneficiar. Caso contrário, vamos usar armas muito poderosas em uma situação desnecessária”, diz.

    Não por acaso, as drogas mais modernas - e caras - demoram anos para serem incorporadas no Sistema Único de Saúde (SUS). Nos últimos anos, a situação tem aumentado o número de demandas judiciais por medicamentos contra órgãos governamentais.

    No Estado de São Paulo, por exemplo, a estimativa é que seja gasto R$ 1,2 bilhão neste ano para atender aos pedidos de tratamentos feitos via Justiça. Segundo o secretário da Saúde, David Uip, cerca de 70% desse valor será gasto com imunobiológicos usados no tratamento oncológico. “Isso é uma das coisas com que tenho enorme preocupação. O que ocorre é que o tratamento contra o câncer está mudando e avançando, mas essas drogas custam muito caro e nem a medicina pública nem a privada têm recursos para isso. Vamos ter de repensar o sistema e buscar outras formas de financiamento.”

    Desespero. Ingressar com uma ação judicial foi a única saída encontrada pela autônoma Letícia Fernandes Campos, de 22 anos, para buscar uma nova opção de tratamento para sua doença, um linfoma de Hodgkin.

    Diagnosticada em 2013, a jovem já havia passado por diferentes tipos de quimioterapia, radioterapia e autotransplante de medula, mas, em todas as vezes, o câncer voltou a aparecer após alguns meses.

    “Sempre fiz tratamento pelo SUS, tentei todas as opções, mas, em agosto de 2015, o câncer voltou de novo e eu não tinha mais o que fazer. Só tinha um medicamento que podia me ajudar, mas ele não estava disponível no SUS. As 16 aplicações do remédio custam de R$ 500 mil a R$ 600 mil. Foi aí que decidi entrar na Justiça”, conta ela.

    A ação foi movida em janeiro, mas a aplicação do remédio só foi iniciada no mês passado, após decisão judicial favorável. “Foram momentos de desespero, você vê todas as portas fechando, as possibilidades se esgotando, e parece que o sistema público não está nem aí. Se eu não tivesse corrido atrás, nada seria feito. Tive amigos que nem tiveram tempo para isso, morreram antes”, afirma.

    Para Riad Younes, o Brasil deve investir em estratégias de prevenção e detecção precoce para evitar casos de câncer mais avançados, justamente os que precisam de tratamentos mais caros. “Aqui no Brasil, além de termos pouco dinheiro, a gente gerencia mal. A prevenção não é levada muito a sério. É muito mais barato prevenir um câncer de pulmão do que tratá-lo, por exemplo”, afirma. 

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    SUS é lento na detecção do câncer de mama

    Diagnóstico no estado inicial da doença é duas vezes maior nas instituições privadas

    Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 10h00

    O número de diagnósticos de câncer de mama nos estágios mais iniciais é duas vezes maior na rede privada do que na pública, segundo estudos apresentados no Fórum Estadão Saúde, realizado na quarta-feira, em São Paulo. Segundo especialistas, a diferença está relacionada a dificuldades de acesso a exames de detecção e demora no início do tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

    Presidente da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), Maira Caleffi apresentou no fórum dois estudos que avaliaram os estágios da doença em pacientes do Hospital Estadual Pérola Byington, unidade pública em São Paulo, e do Hospital Moinhos de Vento, serviço particular da cidade de Porto Alegre.

    No Pérola Byington, referência no atendimento à mulher que recebe doentes encaminhadas de todo o País, 25,3% das pacientes tiveram a doença classificada nos estágios 0 ou 1, os mais iniciais. No Hospital Moinhos de Vento, o mesmo índice foi de 61,5%.

    Nos dois primeiros estágios, o tumor de mama mede até 2 centímetros, com nenhuma ou pouca disseminação pela região afetada. Nessas condições, a chance de cura ultrapassa os 90%. “É difícil fazer a detecção precoce da doença no SUS por causa da demora na realização de exames. Só que a doença não espera. Ela precisa ser tratada rapidamente e adequadamente”, afirmou Maira.

    Os estudos apresentados pela Femama mostram diferença significativa também no índice de pacientes com doença avançada, classificadas como estágios 3 e 4. Nesses casos, o tumor já comprometeu os linfonodos das axilas ou se espalhou para outros órgãos do corpo. No Pérola Byington, 31,6% das pacientes estavam nessa situação. No Moinhos de Vento, o índice foi de 13,5%.

    Segundo Marcelo Calil, diretor clínico do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), também presente no evento, muitas regiões do Brasil não têm nem sequer aparelhos de detecção da doença. “Viajamos por várias localidades e encontramos mamógrafos quebrados. A questão é que é muito mais barato para o governo e menos danoso ao paciente tratar o câncer no início do que deixá-lo evoluir para um quadro avançado”, afirmou.

    Maira ressaltou que o tratamento precoce do câncer de mama também diminuiria as demandas judiciais por medicamentos inovadores, geralmente indicados para os casos mais graves. “A maioria dos casos de judicialização é de pacientes com cânceres avançados, que precisam de medicamentos mais caros e têm menos chances de cura. E aí fica impagável”, afirmou.

    Desigualdades. Os especialistas também reclamaram das desigualdades nos tratamentos disponíveis na rede privada em comparação com a pública.

    Terapias inovadoras indicadas para pacientes com câncer de mama avançado já estão disponíveis para pacientes de planos de saúde, mas não para usuários do SUS. 

    “A estimativa é que 768 pacientes tenham morrido no Brasil por falta de acesso a essas terapias, que inclusive estão na lista de medicamentos básicos da Organização Mundial da Saúde, mas que não foram incorporados pelo SUS”, declarou.

    Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Gustavo Fernandes defendeu que é preciso que o governo faça o acompanhamento dos pacientes com acesso a diferentes tratamentos oncológicos para definir o que vale a pena custear. “Temos de ter métrica financeira, mas também de qualidade. Saber quanto um tratamento ajudou, se determinado investimento aumentou a sobrevida. É muito importante colocar qualificação nesses números. Somente com esses dados de eficiência a gente vai saber qual é a melhor forma de usar o dinheiro. A verba em saúde pode se transformar em um saco sem fundo se for usada de forma desmedida”, afirmou

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    Assistência à esclerose múltipla é mais efetiva no SUS que na rede particular

    Tratamento, que custa entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês, também é acessível a pacientes da rede privada

    Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 10h15

    Se o tratamento contra o câncer costuma ser mais moderno e completo para os clientes de planos de saúde, no caso da esclerose múltipla é o Sistema Único de Saúde (SUS) o responsável por oferecer assistência a todos os pacientes com a doença, sejam eles usuários da rede pública ou privada.

    Isso porque os tratamentos para esclerose não estão no rol de cobertura mínima da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que define o que deve ser custeado pelos convênios médicos.

    “A grande vantagem do SUS no caso da esclerose múltipla é que ele é, hoje, o grande pagador do tratamento, já que a gente não consegue absolutamente nada pela ANS. Se o paciente tivesse de comprar os medicamentos, ele gastaria de R$ 5 mil a R$ 10 mil todo mês, ou seja, seria inviável. Nesse aspecto, o SUS é excelente porque ele fornece o tratamento e a gente não tem uma dificuldade muito grande de conseguir”, disse Jefferson Becker, presidente do Comitê Brasileiro de Tratamento e Pesquisa em Esclerose Múltipla, também presente no Fórum Estadão Saúde.

    Apesar de o tratamento ser acessível a todos, o especialista explica que os protocolos do SUS dão pouca autonomia ao médico para tratar de forma individualizada pacientes com diferentes quadros da doença. 

    “A parte ruim é que o tratamento no SUS é engessado. O protocolo define que o paciente tem de começar obrigatoriamente com determinadas classes de medicamento e só pode migrar para outro se o primeiro não estiver funcionando. Mas, às vezes, o paciente é grave e dar aquele tratamento inicial é condená-lo a ter sequelas grandes num futuro próximo”, afirma. A estimativa do médico é que cerca de 30 mil pessoas tenham esclerose múltipla no País.

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    Demora no SUS complica tratamento contra câncer

    Na rede pública, há dificuldade no diagnóstico precoce da doença, que reduziria o índice de mortalidade; na rede privada, o gargalo é bem menor

    Paula Felix, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 10h27

    As diferenças no tratamento para o câncer podem não depender apenas dos aspectos específicos da doença e das variações entre pacientes. Tempo de espera por consultas com especialistas, facilidade para realização de exames, diagnóstico precoce e disponibilidade de tratamentos modernos não são iguais nas redes pública e privada. 

    O pai da analista de sistemas Monica Xavier Fonseca, de 45 anos, fazia o acompanhamento em São Paulo até se mudar para Extrema (MG). Após seis meses de espera, ele conseguiu uma consulta de rotina e fez o exame de PSA, cujo resultado foi considerado alto. Foi em novembro do ano passado. Como ele estava encontrando dificuldade para ser consultado rapidamente com um urologista, a família resolveu se unir para trazê-lo de volta para São Paulo para a realização de consultas e tratamento.

    Mas os prazos longos que eram dados na rede pública fizeram com que as etapas necessárias para fechar o diagnóstico fossem feitas na rede particular. “Fizemos uma vaquinha e o levamos a um médico particular, que fez o exame de toque e viu que ele estava com o problema de câncer de próstata. Ele não conseguiu fazer os exames na rede pública, todos eram muito demorados. Tomografia, cintilografia e raio X do tórax para ver se tinha dado metástase. Acabamos fazendo tudo particular. Só fez a biópsia em Diadema, porque conseguimos um encaixe”, disse Monica.

    Nessa fase, a família do aposentado Leoncio Xavier Rodrigues, de 74 anos, pagou R$ 1.080, mas Monica diz que não se arrepende de ter feito a mobilização para conseguir ajuda. “É horrível saber que seu pai está morrendo e pode não ter chance de ser atendido, porque há várias pessoas na mesma situação. Só um exame, a tomografia, estava marcado no hospital público e era só para abril. Fomos, então, nos lugares mais baratos e pedimos descontos.”

    Com os resultados em mãos, o aposentado conseguiu encaminhamento para ser atendido no Hospital São Paulo, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde fez cirurgia para remoção do tumor em março. “Ele foi operado, refez o exame pelo Hospital São Paulo e começou a fazer hormonioterapia. E começou a luta para fazer o tratamento. O remédio estava em falta e fizemos outra vaquinha para comprá-lo. Custava R$ 2.500. Depois, trocaram a medicação dele. Não sei se tem o mesmo resultado.”

    Monica diz que, agora, a nova saga é para pegar a medicação. “A gente precisa ficar ligando quase todos os dias para saber se já chegou. Quando chega, minha irmã, que mora mais perto, vai lá buscar. A gente tem medo que ele fique sem, ele precisa desse remédio.” 

    Apesar das dificuldades enfrentadas, ela comemora o atual estado de saúde do pai. “Ele ficou com incontinência urinária, mas está ótimo. Está bem, animado e com disposição. Consegue dirigir e fazer algumas coisas em casa.”

    Em nota, o Hospital São Paulo informou que os dois medicamentos prescritos para o paciente “são indicados e receitados igualmente”. Disse ainda que o contato telefônico “é necessário para confirmar a disponibilidade, já que a entrega dos medicamentos é feita parceladamente”.

    Acompanhamento. Paciente da rede privada, o aeronauta Marino S. Filho, de 58 anos, teve indícios de que estaria desenvolvendo um câncer de próstata no começo de 2013, mas seu caminho foi muito diferente do de Rodrigues. O resultado do PSA foi considerado baixo e o exame de toque não revelou presença de tumor. Mesmo assim, o médico que o atendeu deu início a uma varredura para verificar se a saúde dele realmente estava bem.

    “Por causa do histórico familiar, meu tio morreu de câncer de próstata, o médico pediu uma biópsia e um dos fragmentos deu positivo. Ele me encaminhou para um especialista, que pediu mais exames, uma biópsia em dez pontos, mapeamento total, ressonância magnética. Foi tudo muito rápido.”

    Os resultados mostraram que não seria necessário fazer intervenção cirúrgica imediata e o aeronauta, que é paciente do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, ficou sendo acompanhado durante um ano. “Na segunda ressonância, o médico viu que a lesão estava chegando perto do osso. Fiz uma cirurgia robótica não invasiva, não precisei de nenhuma medicação depois. Tive uma ótima recuperação. Estou vivendo uma rotina normal, faço exames a cada seis meses.”

    O aeronauta diz que fez toda a diferença ter recebido um tratamento rápido e de ponta. “Sei que é duro para a maioria da população ter acesso ao tratamento. Há pessoas que levam anos para conseguir fazer a cirurgia. Por isso, o principal caminho ainda é a prevenção. Esse tipo de manifestação não dá sintomas. Quando dá, o homem já está condenado à morte. Os homens não devem ter preconceito”, diz.

    Ele diz que o apoio da família foi fundamental ao longo do monitoramento do tumor e nos períodos antes e depois da cirurgia, mas que a força dada pelo médico também foi decisiva para que ele se mantivesse equilibrado. “Ele disse que foi um privilégio ter descoberto em fase inicial e, mesmo que tivesse alguma consequência, eu tenho minha família, minha mulher e teria minha vida. Depois disso, eu não via a hora de tirar a bomba-relógio que havia em mim.”

    Diferenças. Oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein e supervisor técnico do serviço de oncologia do Hospital Heliópolis, ligado à Secretaria Estadual da saúde, Artur Malzyner diz que as dificuldades e diferenças podem ser encontradas tanto na rede pública quanto na privada.

    “O tratamento dos pacientes que têm câncer com acesso à medicina privada não é uniforme. Também não é no SUS. Temos um atendimento que pode ser primário e pouco atualizado assim como uma gama imensa de recursos tecnológicos e farmacêuticos, mas isso é variado tanto no serviço privado quanto no público.”

    Mesmo assim, ele afirma que há diferenças quando os sistemas são comparados. “É menor a probabilidade de o paciente receber o mesmo tratamento atualizado que há na rede privada, porque há menos atualizações no SUS.”

    Malzyner explica, no entanto, que mais importante do que o tratamento de primeira linha é o diagnóstico precoce. “O sucesso do atendimento não está só em submeter o paciente a um bom tratamento, mas em ter o diagnóstico. Esse é o gargalo”, afirma.

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    Lei dos 60 dias: direito do paciente que nem sempre é cumprido

    Segundo o Ministério da Saúde, metade dos casos de câncer registrados até abril obteve atendimento dentro do prazo

    Paula Felix, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 10h34

    Em vigor há mais de três anos, a Lei dos 60 dias, que determina um prazo de até 60 dias a partir do diagnóstico para que pacientes com câncer iniciem o tratamento, ainda não está plenamente implementada no País. Atualmente, 57% dos pacientes tiveram acesso a esse direito.

    Segundo o Ministério da Saúde, dos 27.248 casos registrados no Sistema de Informação do Câncer (Siscan) até abril deste ano, pouco mais da metade recebeu atendimento dentro do prazo previsto por lei. Outros 17% esperaram até 90 dias e 25% tiveram mais de três meses de espera. No Brasil, estima-se que 596 mil novos casos serão contabilizados neste ano, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

    A microempreendedora Sherlei Esmeraldino Braz, de 45 anos, conta que o tempo de espera do diagnóstico até o início do tratamento foi de quatro meses no Hospital Federal Cardoso Fontes, no Rio de Janeiro. Ela recebeu o diagnóstico em fevereiro, teve consulta em abril e a cirurgia só foi realizada em junho.

    “Só fiquei sabendo da lei em junho. Liguei para a ouvidoria e minha cirurgia foi marcada em sete dias. Tirei o quadrante da mama esquerda, esvaziei a axila e fiz a reconstrução mamária.”

    Sherlei conta que a luta para combater o câncer começou antes mesmo de receber o diagnóstico. Ao perceber o nódulo, começou a marcar consultas e até fez a mamografia na rede privada para ter o diagnóstico precoce. A biópsia, cujo resultado recebeu em fevereiro, foi realizada no penúltimo dia de dezembro do ano passado. Ela acredita que a lei foi fundamental para agilizar a cirurgia e sempre que conversa com outras pessoas com câncer faz questão de passar adiante informações sobre a determinação.

    “Essa lei me ajudou, porque solucionou meu problema. Tem gente que está na fila há um ano e eu sabia que minha vida estava em jogo. Por isso, sempre falo da lei, falo para ligar na ouvidoria e citar a lei, porque é um direito nosso.”

    Em nota, a diretoria do hospital informou que a paciente “recebeu o devido atendimento, no prazo estabelecido em lei” ao iniciar o tratamento na unidade. “Foram feitos os exames necessários e a revisão do diagnóstico histopatológico da doença, sendo prestados, assim, todos os cuidados assistenciais da equipe do hospital.”

    O Ministério da Saúde informou que tem como meta aprimorar o Siscan e fazer a ampliação dos serviços oncológicos junto a gestores estaduais e municipais.

    Prazo. Presidente da Oncoguia, ONG que oferece apoio e orientação para pacientes com câncer, Luciana Holtz diz que o fato de o prazo não ser cumprido pode afetar o paciente não só no que diz respeito ao avanço da doença, mas também na parte emocional.

    “É um mix de sentimentos: frustração, medo, impotência. Por mais que se eduque, o paciente tem receio de reclamar e alguns precisam do apoio da família para batalhar por esse direito. Se o paciente está fragilizado, o parente pode ajudar, porque o câncer não espera.”

    Ela diz que já é possível afirmar que houve um avanço na aplicação da lei, tendo em vista que hospitais tentam cumprir o prazo, mas ainda há muito a ser feito para melhorar essa situação.

    “Na prática, continuamos a ver esse prazo estourado. Talvez, a lei precisasse vir com um acréscimo para os hospitais, que precisam de mais centros cirúrgicos, oncologistas e infraestrutura para tratar a doença”, afirma. 

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    SUS tem tratamento de ponta para algumas doenças

    Diferentemente do câncer, rede pública fornece medicamentos para esclerose múltipla, aids e hepatite C não disponíveis nos planos de saúde

    Paula Felix, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 10h45

    Fazer o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é um caminho natural para qualquer brasileiro portador do HIV ou que sofre de esclerose múltipla. A rede pública também está se tornando referência para a hepatite C. Pelo SUS, os pacientes conseguem encontrar medicamentos que não estão disponíveis pelos planos de saúde, mas que são adotados em vários países do mundo e reconhecidos por serem de primeira linha.

    Esse cenário, no entanto, ainda não é realidade para a oncologia, área onde medicamentos inovadores chegam mais rapidamente à rede privada do que à pública.

    Com diversas especificidades e pesquisas simultâneas apresentando novas opções de tratamento, o câncer acaba ficando para trás no que diz respeito à inclusão de novas tecnologias e medicamentos, quando comparado a outras doenças.

    Neurologista da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem), Liliana Russo diz que o SUS tem ganhado reconhecimento no tratamento da doença por oferecer alguns dos medicamentos mais modernos que estão disponíveis no mercado. “O tratamento está bem equalizado com o que tem no mundo, podemos considerar o tratamento de primeira linha no Brasil. Para esclerose múltipla, temos nove medicações e seis já estão disponíveis (no SUS). Três aguardam liberação.”

    A oferta na rede pública é fundamental, de acordo com Liliana. “É um tratamento de alto custo. As medicações giram em torno de R$ 5 mil por mês. É uma doença que faz com que a pessoa se aposente precocemente, então, o custo é menor com a droga do que com a problemática individual e social.”

    Segundo a neurologista, estima-se que a doença atinja, em média, 15 pessoas em cada 100 mil habitantes. A esclerose múltipla afeta principalmente as mulheres, e os pacientes costumam ter entre 20 e 40 anos, fase em que estão no auge da produtividade. Se não for tratada, pode ser incapacitante. “Estão listados 86 sintomas, como perda visual de um olho, desequilíbrio, perda de força, descontrole de urina, fadiga. O tratamento modifica a evolução da doença. A pessoa passa a ter qualidade de vida maior com menos incapacidade.”

    Apesar da oferta de medicamentos mais avançados, Liliana diz que o diagnóstico ainda é um gargalo. “Algumas pessoas procuram ajuda e encontram dificuldade de acesso a serviços neurológicos especializados. Isso limita o diagnóstico e o início do tratamento. Sabemos que quanto mais precoce, melhor a resposta terapêutica”, afirma.

    Karina Juliete do Nascimento, de 28 anos, convive com a doença há cinco anos e foi acompanhada pelo SUS desde o diagnóstico. Ela começou a sentir um formigamento no braço direito que passou, mas procurou um médico quando acordou com a visão turva. “Estava estrábica e fui ao posto de saúde. O médico já me conhecia, viu que tinha algo errado e me mandou para o Hospital (Estadual) Sapopemba. Fiz tomografia e já fiquei internada. Foi muito rápido”, relembra. Em menos de 15 dias, passou por uma bateria de exames e recebeu o diagnóstico. Após algumas consultas com uma neurologista, foi encaminhada para tratamento no Hospital das Clínicas.

    “Não tenho do que reclamar, o tratamento é muito bom e nunca mais tive surtos. Quando tinha, ficava com problemas na visão, andava descoordenada, as pernas falhavam. Quando estou bem, parece que não tenho esclerose múltipla.”

    HIV. A aids pode ser considerada o melhor exemplo de oferta de tratamento de forma universal e gratuita, como previsto na Constituição, segundo Mario Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

    “A resposta à aids é peculiar. Houve uma coincidência entre o início da epidemia e o fortalecimento do SUS. Além disso, a resposta governamental foi rápida com programas, corpo técnico, e teve a mobilização vigorosa das pessoas afetadas, porque era uma doença que não tinha tratamento.”

    Scheffer diz que, desde a década de 90, o Brasil oferece os melhores tratamentos disponíveis para os pacientes e um grande corpo de especialistas sempre discute quando há novos medicamentos para verificar a necessidade de incorporação. “Mas, há muitos anos, não temos uma grande novidade para a aids. É diferente do câncer, que sempre tem inovações.”

    Segundo o professor, outra doença que passou a se destacar no SUS foi a hepatite. “É mais recente. A inclusão de tratamentos de primeira linha é de 2015. Não tinha muita tecnologia a ser incorporada.”

    Scheffer avalia que, por serem problemas de saúde mais delimitados, aids e hepatite C têm mais potencial para conseguir tratamentos de primeira linha na rede pública do que o câncer. “É uma classe única de medicamentos, o que aumenta o poder de compra e negociação. A oncologia é um campo à parte. Há uma imensa prevalência e os tratamentos são complexos e caros”, explica.

    Complexidade. Coordenadora da oncologia clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), Maria Del Pilar Estevez Diz afirma que a incorporação de novos tratamentos na área do câncer é mais complexa e precisa ser feita após discussões. “É difícil fazer comparações entre o câncer e outras doenças. Mas, para fazer qualquer inclusão, é preciso saber qual é o benefício para o paciente e qual é o impacto econômico. Tem uma demora na incorporação e temos muitas coisas para discutir para definir o que é incorporado, mas a discussão precisa ser feita de forma clara e transparente.”

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    Países ricos gastam com saúde até quatro vezes mais que o Brasil

    Mas, como no sistema brasileiro, o aumento dos casos de câncer e a adoção de terapias caras são alvo de preocupação

    Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 10h54

    Países com sistemas de saúde universais como o SUS também vêm enfrentando, nos últimos anos, o crescimento da incidência de câncer e o desafio do aumento das despesas com o tratamento da doença. Assim como no Brasil, a incorporação de terapias inovadoras e muito caras é alvo de discussões nas nações mais ricas do mundo. A principal diferença é que o valor investido por esses países na saúde chega a ser quatro vezes maior que o gasto brasileiro.

    No Canadá, o investimento em saúde por habitante chega a US$ 4.641, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. O valor corresponde a 10,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Na França, outro país com sistema universal e gratuito para toda a população, o gasto per capita é de US$ 4.508, o que equivale a 11,5% do PIB.

    No Brasil, os números são bem inferiores. O gasto por habitante é de cerca de US$ 1.318, apenas 8,3% da riqueza produzida no País.

    “Os recursos são finitos em qualquer lugar do mundo, mas existem formas de racionalizar o que você faz. No Brasil, o recurso que existe é relativamente mal utilizado porque as pessoas demoram para fazer o diagnóstico e, quando elas vão para intervenções terapêuticas, o câncer já está relativamente avançado”, diz Ana Maria Malik, professora da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

    Sobre o debate da incorporação de medicamentos e terapias caras, a especialista explica que, na maioria dos países com sistemas universais, o governo faz uma análise mais aprofundada do que incorporar sob aspectos da economia da saúde. “Esses países têm critérios mais claros. Na Inglaterra, por exemplo, só é incorporado o que houver evidência e para os pacientes que serão beneficiados. Não tem tanta judicialização quanto aqui porque essa análise feita pelo sistema é levada mais a sério”, diz ela. “Uma coisa é pensar em uma questão individual, outra é pensar no coletivo”, afirma Ana Maria.

    Modelo. O National Health Service (NHS), sistema de saúde britânico citado pela especialista, foi um dos modelos usados pelo Brasil para a criação do SUS, em 1988. Ele investe cerca de US$ 3.377 por habitante, equivalente a 9,1% do PIB.

    De acordo com a assessoria de imprensa do NHS, o crescimento do câncer também é um desafio por lá, com estimativa de que metade da população do Reino Unido desenvolva algum tipo de tumor ao longo da vida.

    Para enfrentar o cenário, o NHS diz estar “desenvolvendo uma medicina líder mundial em precisão, utilizando a ciência genômica, modernas drogas contra o câncer e inovações em radioterapia”. O órgão ressalta que, para evitar desperdícios de recursos, faz uma medicina personalizada. “Tratar cada indivíduo de forma apropriada está no centro de qualquer serviço oncológico de qualidade”, afirma, em nota.

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    Entrevista: 'O câncer não é caro, cara é a má gestão'

    Para diretor-geral do Hospital do Câncer de Barretos, com uma política eficaz de prevenção e detecção precoce da doença, País reduziria custos com tratamento

    Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2016 | 11h08

    No momento em que a maioria dos hospitais filantrópicos reclama da falta de recursos e da queda na qualidade do atendimento, o Hospital de Câncer de Barretos recebe reconhecimento internacional e dá seguimento a planos de expansão do serviço para outros Estados, incluindo um centro de câncer na Amazônia com inauguração prevista para 2017. À frente da diretoria-geral do hospital está Henrique Prata, de 63 anos, homem apaixonado pelo campo que concluiu apenas o ensino médio, mas transformou o pequeno hospital do interior no maior centro oncológico do País, responsável por 4.100 atendimentos diários, todos pelo SUS. Em entrevista ao Estado, ele revela suas estratégias para driblar o subfinanciamento e critica as políticas governamentais da área. 

    Como o Hospital de Barretos se especializou em câncer?

    A história começou em 1962, quando meu pai e minha mãe, formados na USP, vieram para o interior para trazer uma medicina de ponta. Como meus avós moravam em Barretos, meus pais decidiram fundar aqui o Hospital Geral São Judas Tadeu. Só que meu pai viu que mais da metade das pessoas detectadas com câncer naquele tempo era encaminhada para a capital e voltava sem tratamento, seja por medo de ficar em São Paulo ou por falta de dinheiro para se manter lá. A maioria era gente simples, homem do campo. Meu pai, então, se compadeceu disso e transformou, em 1967, o São Judas Tadeu no primeiro serviço de oncologia do interior.

    E como esse pequeno centro acabou se tornando um dos maiores centros de oncologia do País?

    Meu pai criou um hospital com uma virtude considerada excepcional até hoje: equipe de médicos em período integral e com dedicação exclusiva que tomam as decisões de forma multidisciplinar. O grande diferencial é esse nosso formato de gestão, que dá condições para fazer uma medicina mais humanizada. O trabalho com dedicação exclusiva e o tratamento em equipe faz com que o médico não precise sair correndo para outro consultório. É um atendimento mais humanizado e com um acerto muito maior. Nós somos um hospital de referência não porque temos os melhores equipamentos ou os melhores médicos, somos de excelência porque é um hospital que pratica a medicina de protocolos de primeira linha, mas com humanização.

    Como conseguem manter os médicos com dedicação exclusiva?

    Primeiro, a gente paga bem, em média R$ 35 mil por mês para um médico que está há cinco anos aqui. Tem todo o campo de pesquisa também.

    Houve um momento em que o sr. pensou em fechar o hospital, certo?

    Pelo fato de meu pai ter um hospital altamente deficitário por atender o equivalente ao SUS na época, ele pegava dinheiro da minha mãe, que era filha de um fazendeiro, para cobrir a verba que faltava. Foi até o ponto de esvaziar o bolso da minha mãe e, mesmo esvaziando, ele ainda ficou insolvente, não conseguia mais pagar as contas nem com os médicos nem com os fornecedores. E é aí, em 1988, que eu entro na história. Entrei para fechar o hospital, mas acabei surpreendido numa noite que era a minha última reunião com a equipe médica. Depois da reunião, um médico me levou a uma sala e falou que se eu trocasse a luz de uma sala de curativo por um foco, ela poderia ser transformada em uma sala de cirurgia e eu salvaria mais vidas que ele e meu pai juntos, como médicos. Aquilo foi uma sentença na minha cabeça. No dia seguinte, acordei com certeza absoluta que eu também tinha uma missão de salvar vidas. O sonho do meu pai era construir um polo completo de câncer em Barretos, com 35 mil metros quadrados. Voltei na casa do meu pai e disse: ‘Olha, pai, ontem eu te disse que eu ia fechar, mas hoje eu resolvi te dizer que eu vou construir seu sonho’. Foi uma briga, porque ele achou que eu estava louco. Ele queria um fato concreto e eu criei um fato concreto, que foi a doação de US$ 10 mil de um primo. E, no fim, eu construí 120 mil metros quadrados.

    Foi nesse momento que surgiu a estratégia do hospital de captar doações?

    Foi. Nessa hora, meu pai brigando comigo, eu não tive criatividade de inventar, lembrei que o Sírio-Libanês foi feito pela colônia síria, lembrei que o Einstein foi feito pela colônia de judeus e pensei: ‘E se eu fizer um negócio de juntar a colônia dos fazendeiros aqui?’. Meu avô era um fazendeiro muito querido, deixou metade do que tinha para os pobres. Aí eu pensei: ‘Vou juntar todos os fazendeiros’. Daí eu estou saindo do escritório e vejo um primo meu que era o homem mais rico da cidade. Falei com ele e ele me doou US$ 10 mil. Nessa equação surge minha força de conseguir recursos como eu consigo até hoje na sociedade. Hoje em dia faltam R$ 17 milhões por mês para custear os tratamentos. E para conseguir essa verba, eu uso a mesma lição daquele dia. Metade vem do incentivo fiscal do Estado e do governo federal e outra metade busco na sociedade com todas as formas de campanha que existem. Leilão de gado é o mais forte, chega a dar R$ 4 milhões por mês. 

    O sr. disse que tem um déficit mensal de R$ 17 milhões. Mas qual é a despesa total do hospital?

    A despesa total é de R$ 32 milhões, e eu recebo, entre tudo que eu arrecado entre governo do Estado e governo federal, R$ 15 milhões. O resto busco de forma alternativa.

    Mas vocês não acumulam dívidas?

    Vai faltando um pouco todo mês. Mas a cada seis meses eu vou no pescoço ou no coração dos políticos. Fechei os últimos seis meses faltando R$ 10 milhões no banco. Outro dia eu pulei no coração do Temer. Ele disse que vai me credenciar dois serviços que estão há seis anos sem credenciamento, em Jales e Fernandópolis. Os dois fazem 1.200 atendimentos por dia sem receber absolutamente nada do SUS.

    E como surgiu essa história dos artistas ajudarem?

    Eu pensei que se eu mostrasse nosso projeto para um famoso, eles poderiam dar bom exemplo e motivação. Eu achei que pondo o nome deles em alas e prédios do hospital, eu cativaria outros artistas. Começou com Chitãozinho e Xororó. Hoje eu tenho o problema de não ter mais onde pôr nome de artista. Tenho mais de 50 artistas fazendo show para o hospital.

    E as outras estratégias de arrecadação de doações?

    As estratégias de arrecadação de doações não fomos só nós que desenvolvemos. Foram os pobres que foram atendidos por nós. Cada um criou a sua. Nós só organizamos. Tem 700 municípios fazendo evento para o hospital, e nós não fomos em nenhum município pedir para abrir um evento. A estratégia é tratar só por amor.

    Quantos novos casos de câncer são atendidos por ano no hospital?

    No ano passado, foram atendidos 14 mil novos casos de câncer. E estamos descentralizando. Estamos indo para a Amazônia, para outros lugares do interior, com serviços de prevenção e tratamento. Precisamos descentralizar um pouco porque hoje estamos atendendo mais de 2 mil municípios brasileiros em Barretos. Isso está errado.

    Por que a maior parte dos hospitais que atendem pelo SUS na área de oncologia não consegue oferecer um atendimento de excelência como o Hospital de Barretos?

    Porque não existe nenhum estímulo para a criação de um programa para câncer no Ministério da saúde. E isso não é coisa de um ministro ou de um governo específico, aconteceu em todos. Eles não primam pela qualidade, não têm nenhuma compaixão pelas pessoas. Hoje, temos mais de 6 mil pacientes vindos da Amazônia para cá. Não tem nenhum incentivo de criar um centro lá para diminuir a distância desse povo. Ninguém criou uma rede estruturada, ninguém está se importando com a distância que as pessoas têm de se deslocar para tomar um medicamento. O País não tem nenhuma política de câncer.

    O governo alega falta de recursos...

    Não é só uma questão de falta de dinheiro. O câncer não é caro, cara é a má gestão. Vou te dar um exemplo: um câncer inicial de mama custa para o Hospital de Barretos R$ 10,2 mil, o que inclui cirurgia e radioterapia. O mesmo câncer, quando é avançado, custa R$ 150 mil. Ou seja, tem de ter política de saúde voltada para prevenção e detecção precoce do câncer. Se tivesse, não tinha esse volume absurdo de câncer avançado. 

    E quanto aos medicamentos oncológicos que chegam ao mercado cada vez mais caros?

    Tem de fazer testes de biologia molecular dentro da instituição para saber quem deve tomar determinado remédio. Você não pode dar para todo o mundo, porque para parte dos pacientes não vai ter efeito. Você tem de ter um serviço atrelado à pesquisa para dar essas respostas e não desperdiçar recursos. Aqui não tem chute, aqui é medicina exata.

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