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Falta o antidepressivo

As advertências vão se sucedendo, o gato sobe todos os dias no telhado, mas o governo não assume a deterioração crescente das condições da economia nem aponta para saídas.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2014 | 02h04

Afirma, com a cara deslavada, que a paradeira da atividade, a inflação e o não cumprimento das metas se devem à crise externa ou, então, à seca e aos feriados da Copa do Mundo.

Ontem saiu mais um indicador ruim, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (BC), o IBC-Br, que apontou uma retração de 1,48% em junho em relação a maio, com a agravante de que o dado de maio foi reavaliado para baixo: a queda não foi de apenas 0,18%, como divulgado anteriormente, mas de 0,80%.

O IBC-Br é um índice do BC concebido para antecipar tendências do comportamento do PIB. É que as Contas Nacionais, que avaliam o desempenho da renda nacional, só são divulgadas trimestralmente e, ainda assim, com um atraso de quase dois meses sobre o encerramento de cada trimestre. Por exemplo, só vamos conhecer o PIB do segundo trimestre de 2014 no dia 29 de agosto.

O PIB é uma excelente radiografia das grandes variáveis da atividade econômica, mas, quando é divulgado, chega até nós como a luz das estrelas, com uma diferença de muitos anos-luz depois de emitida. A desvantagem é avisar tarde demais sobre a existência de problemas que poderiam ter sido corrigidos antes.

O IBC-Br é um termômetro mensal que não tem a mesma precisão das Contas Nacionais. Mas, por ser mais ágil, pode ajudar a providenciar consertos.

Nesse caso, a avaliação dos seus resultados também tem de ser feita com mais eficácia. Análises de ascensorista são inócuas. Afirmar que a atividade subiu ou desceu de andar só tem sentido quando acompanhada de diagnósticos firmes e de procedimentos de correção de rumo.

Agora, por exemplo, importa menos se a economia já entrou ou está mais próxima de uma recessão técnica (dois trimestres de recuo do PIB). Mais importante é encontrar saídas para uma situação inequívoca de paradeira, agravada por uma inflação alta demais e pela deterioração das contas públicas.

Decididamente, o governo Dilma não quer distribuir mais contas entre a população nos meses que precedem as eleições. Por isso, fica aboborizando respostas para o mau desempenho da economia, que outra explicação não tem senão as más escolhas feitas nestes anos.

Mas há o que fazer. O principal problema não é o mau comportamento da economia, mas a prostração dos agentes econômicos: empresários, consumidores, profissionais liberais. Todos os indicadores mostram queda enorme do nível de confiança. É a situação do sujeito que sente que vai perder o emprego, está brigando com a mulher e os filhos, enfrenta problemas de saúde... e, compreensivelmente, está deprimido. A primeira coisa a fazer nesse quadro é tratar da depressão para que sobre um mínimo de objetividade para encarar o resto.

Ou seja, a presidente Dilma poderia agir para recuperar o entusiasmo do empresário e do consumidor. Mas não ousa enveredar por essa via porque teme que isso seja interpretado como reconhecimento dos erros de política econômica.

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