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Família vive com R$ 400 no 'ramal da fome'

Ex-capataz de fazenda só conseguiu trabalho em seis meses de 2014 em Ribeirão Branco

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2015 | 05h00

SOROCABA - A família de Pedro Rodrigues, de 48 anos, teve de sobreviver com uma renda própria de R$ 400 por mês, em 2014, no bairro Santaninha, zona rural de Ribeirão Branco, no sudoeste paulista. Com a queda na atividade econômica na região, que já foi conhecida como “ramal da fome” em razão dos baixos indicadores sociais, o ex-capataz de fazenda só conseguiu trabalhar seis dos doze meses do ano no corte de eucalipto. Depois de amealhar R$ 4,8 mil no período – alguns trocados a mais que o salário mínimo por mês –, ficou desempregado.

Este ano, até aqui, foi ainda pior. Só houve trabalho fixo três meses e a renda própria baixou para R$ 320 nos dez primeiros meses de 2015. O dinheiro do programa Bolsa Família que dois dos três filhos recebem evitou que a família passasse fome. Sua mulher, Nair Ivone da Silva, de 52 anos, só tem a comemorar um fogão a gás que ganhou de um vizinho, depois que apareceu em reportagem do Estado fazendo a comida para os filhos em fogão improvisado, no chão do barraco. Ela conta que, às vezes, falta dinheiro para o gás, que subiu muito, e precisa recorrer outra vez ao fogãozinho de lenha.

A família vive num casebre de madeira, sem água e esgoto. A energia é cedida por um vizinho e a água, retirada com baldes de uma nascente. O filho mais velho, Isaías, de 13 anos, já tentou conseguir trabalho nas lavouras de tomate da região, mas foi vetado por ser menor de idade. Além dele, a irmã Deise, de 11 anos, e o irmão Bruno, de 8, estudam na escola do bairro. Nair não entende porque o Bolsa Família do mais novo foi cortado. Sem condições de ir à prefeitura para saber a razão, apenas se conformou.

Na região, cidades como Barra do Chapéu, Apiaí e Guapiara estão entre as que mais possuem famílias inscritas em programas sociais. A desaceleração da economia agravou as condições já precárias de sobrevivência das famílias, cada vez mais dependentes da agricultura. Com a mecanização das lavouras de grãos, os trabalhadores disputam empregos de boias frias em plantações de tomate de mesa ou na extração de resina em florestas de pinus. São empregos sazonais, já que a mão de obra é contratada apenas para períodos de safra.

Pela metade. O aumento de desigualdade pode ser sentido na vida da vendedora autônoma Jaqueline Guinatti. Moradora em Franca (SP), ela diz que viu a renda cair para menos da metade nos últimos dois anos. “Antes conseguia um salário líquido de R$ 1.500 mil sem tanto esforço. Hoje, mesmo trabalhando muito, para ganhar uns R$ 750 livre já é bem complicado.”

Atuando na praça central da cidade do interior paulista, ela conta que a crise econômica em seu caso é sentida diretamente e de imediato. “Se a situação do País fica ruim, as pessoas param de comprar ou reduzem bem os negócios. Assim, fico sem ter para quem vender e não ganho”, explica.

Outro problema, diz ela, é a inflação que impede as pessoas de juntarem dinheiro. “Queria diversificar os produtos que vendo, mas sem dinheiro fica muito difícil.”/COLABOROU RENE MOREIRA

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