Alex Silva/Estadão
Kleber Onorato é o único de uma casa com mais seis pessoas que possui renda fixa. Alex Silva/Estadão

Famílias com chefes negros sobrevivem com metade do gasto de famílias chefiadas por brancos

Segundo levantamento do IBGE, em 2018, a despesa per capita nas famílias chefiadas por negros ou pardos era de R$ 1.207,11 enquanto nas famílias que tinham uma pessoa branca como referência esse valor subia para R$ 2.279,19

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 11h27

RIO - As famílias chefiadas por negros no País vivem com praticamente metade do total despendido pelas famílias que têm como referência uma pessoa branca. O fenômeno inclui gastos essenciais, como alimentação, moradia e acesso à saúde. Os dados são da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: Perfil das Despesas no Brasil, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, 25.

As famílias brasileiras tinham uma despesa média total per capita de R$ 1.667,90 em 2018. No entanto, entre as famílias que tinham uma pessoa branca como referência (alguém que pague ao menos uma das contas da casa) esse valor subia a R$ 2.279,19. Por outro lado, a despesa per capita nas famílias chefiadas por negros ou pardos alcançava somente 53% desse valor: R$ 1.207,11.

O cálculo considera as despesas monetárias, que foram efetivamente pagas com recursos financeiros, mas também as não monetárias, que incluem o consumo de bens e serviços públicos como educação e saúde, de doações e da produção própria de alimentos, por exemplo.

A diferença nas despesas era considerável mesmo nos gastos essenciais. O gasto per capita com alimentação das famílias com chefes brancos era de R$ 269,44 ante R$ 181,60 entre as famílias com chefes negros. Na habitação, a despesa entre os brancos alcançava R$ 644,31, ante R$ 330,72 entre os negros. O mesmo ocorria no dispêndio com assistência à saúde, com um gasto per capita de R$ 183,94 entre os brancos ante R$ 94,99 entre os negros.

Na média nacional, as despesas correntes consumiam R$ 1.554,06, enquanto uma fatia de R$ 63,61 era destinada a investimentos e R$ 50,22 iam para pagamento de dívidas. Nas famílias lideradas por brancos, a verba de R$ 103,46 per capita destinada a aumentar o patrimônio superava em mais de três vezes o montante obtido pelos negros para esta mesma finalidade, apenas R$ 33,27.

Kleber Onorato, de 45 anos, exemplifica os dados do IBGE. Morador da Brasilândia, ele trabalha em uma distribuidora de gás na região. Vive com mais seis pessoas na mesma casa e é o único que possui renda fixa na família. Em um mês bom – se “correr mesmo” –, diz Onorato –, consegue cerca de R$ 1,5 mil.

Ele cuida dos três filhos da irmã que faleceu, além de dar apoio aos outros dois irmãos e mais uma sobrinha pequena. O irmão, de 41 anos, faz bico de eletricista e a irmã, de 30, faz trança em cabelos. “Agora, ele comprou uma máquina que faz chinelos e, se Deus quiser, vai dar certo. Para a minha irmã, mais para frente, estou tentando montar um espacinho para ela fazer os cabelos”, diz.

O vendedor de gás conta que, com a pandemia do novo coronavírus, a situação ficou ainda mais complicada. “Estamos na luta, correndo atrás para sobreviver.” Ele e os irmãos estão recebendo o auxílio emergencial do governo para complementar a renda neste período.

Desigualdade de renda em todos os estratos sociais

As famílias chefiadas por negros têm menos renda disponível que as lideradas por brancos em todos os estratos sociais, seja entre os mais pobres, seja entre os mais ricos. A Renda Disponível Familiar Per Capita (RDFPC) de famílias que têm como referência uma pessoa branca era de R$ 2.241,80, quase o dobro dos R$ 1.206,76 obtidos pelas famílias lideradas por pessoas pretas ou pardas. 

Entre os 5% mais pobres, as famílias brancas conseguiam uma renda de R$ 245,82, ante R$ 141,98 das famílias negras. A tendência permanece a mesma em todas as faixas de renda, até a mais elevada, ou seja, os negros têm menos renda que os brancos mesmo quando alcançam o estrato mais rico. Entre o 1% mais rico da população brasileira, as famílias chefiadas por brancos tinham uma renda per capita disponível de R$ 23.414,51, enquanto as famílias que tinham como referência uma pessoa negra possuíam menos da metade desse valor, R$ 9.734,79.

A RDFPC média no Brasil foi de R$ 1.650,78 no ano de 2018, sendo que 23% desse montante, R$ 379,97, foram adquiridos de forma não monetária, o que inclui os valores de bens e serviços providos pelo governo, instituições e outras famílias, além da produção para próprio consumo.

A renda não monetária, como a proporcionada pelos serviços de saúde e educação públicos e pela produção de alimentos, é fundamental para a sobrevivência dos brasileiros mais pobres. Entre os 10% mais pobres, 42,5% da renda familiar per capita disponível é não monetária.

A renda mínima per capita apontada pelas próprias famílias como necessária para chegar até o fim do mês ficou em R$1.331,57 em 2018, o equivalente a 80,7% da renda disponível. Entre os 10% mais pobres, porém, a renda mínima era de R$ 470,29, quase o dobro dos R$ 244,62 disponíveis.

O IBGE lembra que os 10% mais ricos concentram três vezes mais renda do que os 40% mais pobres juntos. Enquanto os 40% mais pobres contribuem com R$ 215,30 para a média da Renda Disponível Familiar Per Capita, os 10% mais ricos respondem por uma fatia de R$ 629,37. A renda disponível dos 10% mais ricos era de R$ 6.294,83, enquanto a renda dos 40% mais pobres somava R$ 538,22.

Brasil tinha quase 3 milhões eram miseráveis em 2018

Mais de 25 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza no ano de 2018. Quase 3 milhões de pessoas sobreviviam na miséria. Segundo o IBGE, 77,8% da pobreza estava concentrada em famílias que têm como referência uma pessoa preta ou parda.

A pesquisa do IBGE considera a classificação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) para a pobreza extrema, ou seja, pessoas com renda disponível familiar per capita inferior a US$ 1,90 por dia, na conversão pelo método de “paridade de poder de compra” (PPC), que não leva em conta a cotação da taxa de câmbio, mas sim o valor necessário para comprar a mesma quantidade de bens e serviços no mercado interno de cada país em comparação com o mercado interno dos Estados Unidos. 

A população que vive abaixo da linha de pobreza é aquela com renda disponível de US$ 5,50 por dia também na conversão pelo método de PPC.

A avaliação de pobreza segundo esses critérios - considerando toda a renda disponível, inclusive a não monetária - mostrou que 1,4% da população vivia na extrema pobreza, o equivalente a 2,899 milhões de pessoas, e 12,1% estavam abaixo da linha de pobreza, 25,053 milhões de brasileiros.

Ainda que grave, o resultado é menos agudo do que de outras pesquisas que contabilizam apenas rendimentos monetários, uma vez que o acesso a doações, produção própria de alimentos e serviços públicos como educação e saúde, por exemplo, são contabilizados como renda disponível, com peso importante especialmente para a sobrevivência das famílias mais pobres.

Moradias inadequadas

O levantamento do IBGE mostra que cerca de 48,7 milhões de pessoas em todo o País não vivem em moradias plenamente adequadas, o equivalente a 23,5% de toda a população brasileira. Dois terços dessas pessoas moram na área urbana.

Também houve diferença considerando a cor ou raça da pessoa de referência do domicílio: quase 75% dos que viviam com ao menos um tipo de inadequação no domicílio tinham como referência da família uma pessoa negra.

A pesquisa considerou como inadequados: parede sem revestimento ou de madeira aproveitada; cobertura em zinco ou alumínio; piso de cimento ou terra; ausência de banheiro exclusivo.

Em todo o Brasil, 79 milhões de pessoas vivem em domicílios em áreas afetadas por violência ou vandalismo, segundo o IBGE, o equivalente a 38,2% da população brasileira. A região com menor proporção de famílias com esse tipo de queixa foi o Sul, com 29,4% da população local sob essas condições, seguido pelo Sudeste, 38,4%. No Norte, 42,7% da população assumem viverem sob risco de violência ou vandalismo./ COLABOROU MARINA ARAGÃO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Em todo o Brasil, 133,3 milhões dependiam exclusivamente do SUS em 2018

Segundo o IBGE, apenas 18,1% dos brasileiros tinham plano de saúde para todos os integrantes da família, o equivalente a 37,5 milhões de usuários

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 12h12

RIO - Em todo o Brasil, aproximadamente 133,342 milhões de pessoas não tinham qualquer integrante da família com plano de saúde no ano de 2018, ou seja, eram segurados exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), público e gratuito, segundo os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: Perfil das Despesas no Brasil, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, 25. O número equivale a 64,4% da população do País.

Apenas 18,1% dos brasileiros tinham plano de saúde para todos os integrantes da família, o equivalente a 37,5 milhões de usuários. Outros 17,4% tinham pelo menos alguém da família com plano, 36 milhões de pessoas nessa condição.

"Esse dado já nos dá um panorama da importância do SUS para as famílias. No caso de haver desembolso direto, isso pode gerar efeitos perversos na estrutura de gastos das famílias, ou seja, mudança de alocações orçamentárias para garantir o acesso à saúde privado, diminuindo a demanda por outros bens e serviços", ressaltou o estudo do IBGE.

Do total de pessoas seguradas exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde, quase dois terços tinham como referência da família uma pessoa negra.

"Isso indica que há uma maior proporção de pessoas em famílias de pessoas de referência pretas e pardas com acesso prioritário pelo SUS ou que teriam que realizar desembolsos diretos no momento de alguma necessidade em saúde", apontou o IBGE.

Cerca de 26,2% das pessoas pertenciam a famílias que tiveram alguma restrição a serviços de saúde e 16,4% tiveram dificuldade de acesso a medicamentos. Havia quase o dobro de pessoas de famílias chefiadas por negros vítimas de restrições de acesso a atendimento médico e remédios do que de famílias nessa condição chefiadas por brancos.

A falta de dinheiro foi o principal motivo alegado para a restrição de acesso aos serviços de saúde (16,9%) e para a aquisição de medicamentos (11%).

"A demanda não atendida em saúde mostra uma característica de acesso a saúde não equitativo. No momento de necessidade em saúde, as pessoas tiveram restrição de acesso devido à falta de recursos, oferta inadequada, dificuldade de chegar ao serviço e produto ou outro motivo", notou o IBGE.

Em 2018, 44,6% das pessoas viviam em famílias que avaliaram a saúde como boa e 28,9% consideraram como satisfatória, mas 26,5% como ruim. Entre os insatisfeitos com a saúde, mais de 80% residiam em áreas urbanas.

A despesa per capita com saúde em 2018 foi de R$ 133,23, sendo R$ 90,91 (68,2%) na forma monetária. A maior parte dos recursos foi destinada a serviços de saúde (R$ 86,48) e o restante foi gasto com medicamentos e produtos farmacêuticos (R$46,75).

Educação

A despesa média com educação foi de R$ 120,16 por pessoa, sendo R$ 68,13 (56,7%) de gastos não monetários e R$ 52,03 (43,3%) de despesas monetárias.

Dos sete componentes da despesa com educação, a contribuição da parcela não monetária foi maior na creche e pré-escola (63,3%), no ensino fundamental (68,5%) e no ensino médio (79,6%). Apenas no ensino superior e pós-graduação (59,8%) e em outros cursos (67,7%) a parcela monetária foi maior do que a não monetária. Segundo o IBGE, essas diferenças se devem à oferta desses serviços para as famílias.

“Os ensinos fundamental e médio, por exemplo, são definidos como atribuições do Estado pelo Art. 208 da Constituição Federal do Brasil de 1988, que estabelece educação básica obrigatória e gratuita, bem como progressiva universalização do ensino médio gratuito. Em se tratando de ensino superior, entretanto, segundo dados do Censo da educação superior 2018, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP, 88,2% das instituições de educação superior do País são privadas”, justificou o levantamento do IBGE, lembrando que a modalidade classificada como “outros cursos” na pesquisa também é ofertada principalmente pelo setor privado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.