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Famílias enfrentam dramas do século 19

Mesmo nas regiões produtoras de soja de Tocantins, população mora em casas de folhas de palmeira e usa lamparinas a diesel para ter iluminação

LEONENCIO NOSSA, ENVIADO ESPECIAL, BARRA DO OURO (TO), O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h06

Quem entra nas vicinais da Belém-Brasília encontra cenas que surpreenderam viajantes dos sertões goianos nos séculos 18 e 19. A pujança da soja no Tocantins contrasta com imagens de mulheres com bócio - aumento da tireoide provocado pela falta de iodo -, crianças desnutridas, famílias em casas de paredes e coberturas de folhas de palmeiras. Em tempo de colheitadeiras equipadas com conjuntos de faróis potentes para trabalhar à noite, a lamparina continua sendo recurso muito útil no Tocantins do século 21. Assim como as fossas nos terreiros e as moringas de barro.

Antônia Rodrigues de Azevedo, 65 anos, os dois filhos Francisco e Francélio e três netos menores formam uma das últimas famílias que resistiram à chegada de produtores de soja em Barra do Ouro. A terra deles, porém, é arenosa, não produz como em outras áreas.

Nem sempre tem comida nas panelas sobre o fogão à lenha. "Hoje resolvi matar a galinha que comprei para dar pintinhos. Não tinha outro jeito. As crianças estavam chorando demais", conta Antônia. "Eu tento entreter os meninos com farinha de mandioca que planto, mas não é todo dia que consigo." Francisco, filho de Antônia, sofre de epilepsia. O irmão Francélio trabalha numa fazenda a 6 quilômetros. Ele ganha R$ 30 de diária. É o dinheiro de que a família dispõe para as refeições e a compra de diesel para abastecer as lamparinas. No ano passado, o governo estendeu os fios de energia elétrica até a casa de palha e barro da família.

Problemas frequentes no sistema, porém, tornam a eletricidade algo raro. "Em Araguaína, a diária é bem melhor. Lá, eles pagam R$ 40. Mas não tenho condições de levar minha mãe, meu irmão e meus filhos."

Apartheid caboclo. Quando o Estado chega com o "progresso" é dor de cabeça na certa para a população pobre. As obras da barragem da usina hidrelétrica de Estreito, na divisa com o Maranhão, têm tirado o sono dos que moram em casas de palha e barro nas cidades do interior do Tocantins. Em Palmeirante, Jocinézia da Silva Borges, 26, mostra rachaduras na sua residência. Ela conta que, de uns tempos para cá, o chão de terra, comum nas residências da região, ficou úmido, o que trouxe problemas de saúde para os filhos. "A casa começou a ruir desde que começaram o serviço no Estreito", relata. Inundações passaram a virar rotina no Mangal, área mais pobre de Palmeirante. Jocinéia recebe um salário mínimo da pensão da filha Alice Vitória, que teve paralisia infantil.

O mito de novo celeiro e Estado que deu certo não é visível nem nas cidades produtoras de soja. Barra do Ouro, Esperantina e Goiatins não acompanham os bons índices de qualidade de vida de cidades plantadoras de regiões emergentes de outros Estados e que tentaram sem sucesso se emancipar no passado. Dos 169 municípios tocantinenses, apenas três apresentam menos de 10% da população abaixo da linha de pobreza - Paraíso do Tocantins, Gurupi e Palmas.

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