Fantasmas otimistas do passado de Davos

Confiança liberal dos anos 1990, quando até a Rússia e a China pareciam voltar-se ao capitalismo tradicional, se defronta com distintas versões nacionais de capitalismo

Timothy Gartonash, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2011 | 00h00

Três cúpulas de Davos depois do Grande Crash do Ocidente, começamos a ver onde estamos. Não ocorreu o colapso total do capitalismo democrático liberal, como alguns temiam na dramática reunião aqui realizada no início de 2009, mas não houve tampouco a grande reforma do capitalismo ocidental, então a esperança pia de Davos.

O capitalismo ocidental sobrevive, mas ferido, carregando uma pesada carga de dívida, desigualdade, demografia, infraestrutura negligenciada, insatisfação social e expectativas irreais. Enquanto isso, outras variantes de capitalismo - chinesa, indiana, russa, brasileira - estão crescendo, explorando as vantagens do atraso e sua dinâmica econômica está rapidamente se traduzindo em poder político. O resultado? Não um mundo unipolar, convergindo para um modelo único de capitalismo democrático liberal, mas um mundo não polar, divergindo para muitas versões nacionais diferentes de capitalismo, com frequência não liberal. Não uma nova ordem mundial, mas uma nova desordem mundial. Um mundo caleidoscópico - fragmentado, superaquecido, prenhe de conflitos futuros.

Não era para ser assim. Lembram o triunfalismo liberal dos anos 1990, quando os velhos adversários do Ocidente pareciam estar vencidos? Até a Rússia e a China estavam se voltando para o capitalismo, e isso devia seguramente trazê-las, com o tempo, para a democracia.

Lembram disso? "As grandes lutas do século 20 entre liberdade e totalitarismo terminaram com uma vitória decisiva das forças da liberdade - e um modelo sustentável único de sucesso nacional: liberdade, democracia e livre empresa. No século 21, somente países que compartilharem um compromisso com a proteção de direitos humanos básicos e garantirem a liberdade política e econômica conseguirão liberar o potencial de seu povo e assegurar sua prosperidade futura." Essas foram as palavras de abertura da estratégia de segurança nacional dos EUA adotada pelo governo de George W. Bush em 2002.

Não é impossível que no longo prazo essas palavras se mostrem corretas. Não é impossível que daqui a cinquenta anos voltaremos a elas e diremos: sim, no fim das contas, prosperidade nacional e poder não poderiam se divorciar de respeito aos direitos humanos e liberdade política. Eu espero fervorosamente que sim. Mas como um internacionalista liberal que acredita profundamente em liberdade e direitos humanos, e compartilhou parte da euforia liberal dos anos 90 - embora não aquela pretensão arrogante de um "modelo sustentável único" - devo dizer que as coisas não parecem assim em 2011.

De um lado, porque o Ocidente dilapidou sua vitória do fim do século 20. Como ocorre com frequência na história, depois da arrogância veio o castigo. A despeito de toda retórica altissonante do discurso sobre o Estado da União do presidente Obama na semana passada, as dificuldades de implementar as reformas que ele propõe no disfuncional sistema político americano são assustadoras. Ser mais otimista sobre as perspectivas de reforma na Europa exigiria um Dr. Pangloss "bombado".

De outro lado, países fora do Ocidente histórico descobriram combinações jamais sonhadas na filosofia triunfalista liberal dos anos 90. Eles combinam o dinamismo de economias de mercado com o regime de partido único ou de uma única família, propriedade estatal ou híbrida de empresas, corrupção massiva e desprezo pelo Estado de Direito.

Um purista do capitalismo liberal dirá, "mas isso não é capitalismo!", ao passo que um muçulmano liberal poderia dizer, "mas o que a Al-Qaeda prega não é o islamismo!". Mas o Islã tem algo a ver com isso, afinal; e o capitalismo tem algo a ver com as taxas assombrosas de crescimento econômico e acumulação de capital que já transformaram a China numa superpotência emergente. Contra a sabedoria convencional dos anos 90, ocorre que se pode estar meio grávido.

Essa é uma grande parte da "nova realidade", que é o tema do encontro anual deste ano do Fórum Econômico Mundial. Seu programa otimisticamente proclama "Normas Compartilhadas para a Nova Realidade".

Mas Yan Xuetong, um analista chinês estimulante de relações internacionais, argumenta que potências emergentes naturalmente trazem para a mesa suas próprias normas, e tentam disseminá-las o melhor que podem. Ele tem alguma razão. Estarão China e Rússia, ou até, quanto a isso, Índia e Brasil, mais ou menos prontos a adotar normas ocidentais do que há dez anos? Menos. Estarão países no Sul global mais ou menos divididos entre as normas ocidentais e as chinesas do que estavam há dez anos? Mais.

Como um internacionalista liberal, acredito que ainda devemos tentar trabalhar por "normas compartilhadas para a nova realidade". Mas comecemos reconhecendo que uma das feições definidoras dessa nova realidade é, de fato, que há normas divergentes. Os governantes da China não acham necessariamente que nós deveríamos fazer as coisas da sua maneira, mas eles decerto não acham que eles deveriam fazer as coisas da nossa maneira. Aliás, eles provavelmente estão muito felizes com um mundo em que os americanos, os chineses e os europeus conduzem seus negócios ao seu próprio modo dentro de suas fronteiras, e, em certa medida - é aqui que a coisa fica confusa e perigosa -, dentro de suas esferas de influência. Isto é, incidentalmente, mais ou menos como Samuel Huntington vislumbrou evitar seu "choque de civilizações".

As "normas compartilhadas" se limitariam, então, a um conjunto realmente mínimo de regras para a ordem, o comércio, o tráfego aéreo internacionais, etc., com forte presunção de respeito à soberania nacional - em especial, a das grandes potências. Assim, uma das divergências fundamentais de nosso tempo é sobre quantas ou de quão poucas normas compartilhadas precisamos.

O que decorre daí para os povos de países que têm versões de capitalismo mais ou menos liberais, mais ou menos democráticas? (E há variações enormes entre elas, também. Vejam a Itália e a Hungria de hoje. Vejam os grandes bancos britânicos teoricamente privados, agora estatizados. Esse "modelo sustentável único" sempre foi um mito duplo: nem único, nem sustentável. Duas coisas decorrem de tudo isso. Primeiro, precisamos colocar nossas casas em ordem. Médico, cura a ti mesmo. Os passos mais importantes que podemos dar para exercer nossa influência externa são os que damos em casa. Vivemos durante décadas com um paradigma de progresso em que cada geração seria mais rica que a anterior. Agora será difícil admitir que nossos filhos serão menos prósperos, menos seguros ou menos livres do que nós fomos.

Segundo, provavelmente teremos de diminuir - ao menos por enquanto - nossas expectativas por aquelas "normas compartilhadas" da ordem internacional liberal. Isso significa fazer escolhas difíceis.

Colocamos a preservação da paz, no sentido mínimo da ausência de uma grande guerra entre Estados, à frente de tudo? Ou a reversão do aquecimento global? Ou manter abertos os caminhos do comércio e das finanças internacionais? Ou defender direitos humanos básicos? Evidentemente queremos todas essas coisas boas, e todas são, em alguma medida, relacionadas às outras. Mas precisamos nos adaptar às nossas circunstâncias.

Se isso parece uma perspectiva deprimente, então me permitam dourar a pílula. Tanto as esperanças quanto os temores de Davos há três anos já pareceram irreais. Os de Davos de 10 anos atrás parecem ser de um mundo diferente; de 20 anos atrás, quase de um universo diferente. A história está cheia de surpresas, e ninguém é mais surpreendido por elas do que os historiadores. /

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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