FAO alerta para inflação de grãos e culpa etanol

Segundo Organização das Nações Unidas, crescimento da demanda mundial por commodities eleva os preços

Jamil Chade, do Estadão,

05 de outubro de 2007 | 15h20

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) alerta que a alta nos preços de grãos, principalmente o trigo, está gerando tensões sociais e até violência nos países mais pobres e ainda aponta para o etanol como um dos responsáveis pela inflação.    Veja também: Íntegra do relatório da FAO (em inglês)   Em seu relatório publicado nesta sexta-feira, 5, a entidade destaca que o trigo atingiu em setembro preços recordes. Para os países importadores de alimentos, a conta com a compra de produtos agrícolas já aumentou em 14% neste ano em relação a 2006. No total, os países em desenvolvimento vão gastar o valor recorde de US$ 52 bilhões na importação de cereais neste ano. A alta no trigo estaria sendo gerada por uma maior demanda mundial, baixos níveis de estoques e oferta e produção mais reduzidas. Aliado ao custo do transporte diante do aumento dos preços do petróleo, a conseqüência é uma inflação no preço do pão em muitos países. A FAO ainda adverte que a previsão é de que os estoques de cereais continuem baixos nos próximos anos. "Essa é uma situação preocupantes", afirmou Paul Racionzer, do sistema de alerta da FAO. O estoques estariam nos níveis mais baixos nos últimos 25 anos, chegando a 143 milhões de toneladas. Uma das explicação é a safra decepcionante na Europa. A produção foi a pior desde 2003. Romênia e Bulgária, tradicionais produtores, tiveram uma redução na safra de trigo de 35% e 45%. Para tentar frear a inflação, os europeus liberaram a importação de trigo. Nos países andinos, os altos preços do trigo estão gerando inflação do valor do pão. Vários governos já estão autorizando medidas para tentar controlar o preço. Na Bolívia, exército está operando fábricas para produzir pão. No Peru, o preço do trigo aumentou em 50% desde o início do ano. Na Ásia e Oriente Médio, a FAO lembra que protestos e manifestações violentas foram registradas após o aumento dos preços. A situação, porém, poderá piorar nos próximos meses. Etanol A FAO não deixa de apontar para o etanol como parte responsável pela alta nos preços dos alimentos. Segundo a entidade, o consumo de cereais no mundo aumentará em 2%, atingindo 2,1 bilhões de toneladas. O etanol seria responsável por 75% desse crescimento. Só o uso industrial desses cereais deve aumentar em 9% entre 2006 e 2007, em grande parte para ser transformado em etanol. Já a alta no consumo de alimentos deve ser de 1% e uma inflação nos preços deve até gerar uma queda no consumo em alguns países. A FAO lembra que nem mesmo uma produção recorde de cereais no mundo que deve ser atingida neste ano deve resolver os problemas. A entidade fez uma revisão para baixo da produção, que deverá ser de 2,11 bilhões de toneladas.  Esse volume, porém, apenas responderá à demanda internacional e os estoques continuarão baixos. O comércio internacional também deverá ser afetado negativamente.RecordeO Brasil terá uma safra recorde de milho em 2007, avalia a FAO, que apontou para a alta nos preços internacionais do grão graças à demanda por etanol. Entre 2006 e 2008, o Estados Unidos destinarão ao etanol um volume de milho quase equivalente a todo o comércio mundial da commodity. A safra americana deve ser 26% maior em 2007 que no ano passado, atingindo volume recorde. Uma safra recorde também está sendo esperada na América do Sul, com uma alta no Brasil de 25%, atingindo 52,2 milhões de toneladas. O México também deve apresentar um valor recorde.

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