FAO atribui a biocombustível oferta apertada de grãos até 2017

No entanto, apesar da pressão contínua da demanda, relatório da organização prevê redução gradual de preços

Deise Vieira, da Agência Estado,

29 de maio de 2008 | 09h01

A oferta de grãos deve continuar apertada nos próximos anos, segundo projeção da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) divulgada nesta quinta-feira, 29, para o período até 2017. Assim, os preços dos alimentos permanecerão altos pelos próximos dez anos e a pressão sobre a inflação será sentida com ainda mais força nos próximos meses.  Veja também:Especial: a crise dos alimentos  Crise de alimentos afeta 22 países, adverte FAOAnistia critica uso de trabalho forçado em canaviais do paísApesar das críticas, Brasil ainda aposta no etanol, diz 'Guardian' Segundo a FAO, os preços dos alimentos serão, em média, entre 10% e 50% acima dos níveis dos últimos dez anos. "Não esperamos que os alimentos continuem aumentando de preço no mesmo ritmo que nos últimos meses. Mas eles permanecerão em um patamar bem mais alto do que estávamos acostumados", alertou Jacques Diouf, diretor da entidade. O aumento da demanda por grãos até 2017 será impulsionado principalmente pela expansão da indústria de biocombustíveis e de pecuária, disse a FAO. No entanto, apesar da pressão contínua da demanda nos mercados de grãos, a FAO prevê que os preços devem recuar de forma gradual. Até 2017, cerca de 40% do milho norte-americano pode ser utilizado na produção de etanol, enquanto a produção mundial de carne deve crescer aproximadamente 2% por ano, estimulada em grande parte pelo avanço da demanda em mercados emergentes. Os custos das carnes bovinas e suínas devem mostrar alta de 20% sobre os últimos 10 anos, segundo o documento. Os preços futuros do milho negociados em Chicago subiram cerca de 55% nos últimos seis meses, e os preços do trigo mais que dobraram em 2007. As altas foram desencadeadas por prejuízos causados às lavouras em conseqüência de clima desfavorável, aumento da demanda e estoques globais reduzidos. Relatório da FAO e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sugeriram uma maior organização de safras geneticamente modificadas e uma reavaliação dos programas de biodiesel, que usam grãos que poderiam servir para alimentação. O relatório disse ainda que os preços das commodities agrícolas devem desacelerar em relação aos picos recentes, mas que deverão seguir altos na próxima década. Biocombustíveis O relatório afirmou também que a produção do etanol irá dobrar no mundo até 2017 e o Brasil representará um terço da produção mundial. Mas as entidades alertam que as políticas adotadas pelos países ricos estão distorcendo de forma "grave" o mercado internacional e determinando de forma artificial onde ocorrerá a expansão do etanol na próxima década. Além disso, disse que os benefícios dos biocombustíveis para a segurança energética, para o meio ambiente e para a economia são apenas modestos. Políticas governamentais impulsionando a demanda no setor poderiam ser melhor elaboradas para atender aos resultados benéficos desejados do uso dos biocombustíveis, de acordo com o relatório. "Abordagens alternativas podem ser consideradas, que ofereçam benefícios potencialmente melhores e com menos impactos indesejados no mercado, como políticas que encorajem uma demanda reduzida por energia e menos emissões de gases causadores do efeito estufa, que proporcionem uma comercialização mais livre de biocombustíveis e acelerem a introdução de tecnologias de produção de segunda geração, que não utilizam matérias-primas que poderiam ser usadas na alimentação", informou a FAO.  A demanda por biocombustíveis derivados de matérias-primas, como milho e oleaginosas, também está pressionando para cima os preços das commodities. A União Européia planeja introduzir a exigência de mistura de 10% de biocombustível nos combustíveis utilizados em transportes até 2020. O Reino Unido impôs recentemente uma exigência de mistura de 2,5% de biocombustíveis nos combustíveis, para atender a meta do bloco europeu. No entanto, a produção comercial de biocombustíveis de segunda geração não é provável até 2017. Entre 2000 e 2007, a produção de etanol triplicou, e a produção de biodiesel cresceu de menos de 1 bilhão para 11 bilhões de litros, Mas os preços elevados das matérias-primas têm prejudicado a viabilidade econômica dos biocombustíveis. A produção mundial de etanol deve alcançar 125 bilhões de litros até 2017, e a de biodiesel deve chegar a 24 bilhões de litros no mesmo período, com o crescimento impulsionado por exigências de mistura nos combustíveis, de acordo com o relatório. A esperada queda gradual nos preços das commodities até 2017, assim como os preços elevados do petróleo podem melhorar a perspectiva para a indústria, segundo a FAO. (com Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo)

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