Farinha argentina provoca fechamento de moinhos brasileiros

A pré-mistura para pão importada da Argentina tira o mercado da farinha de trigo brasileira, por chegar ao País com preços cerca de 15% inferiores ao da produzida localmente. Como conseqüência, moinhos nacionais reduziram a produção e outros fecharam as portas. A denúncia é do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo. O presidente da entidade e diretor presidente do moinho Anaconda, Luiz Martins, explica que quase todo o trigo importado pelo Brasil é argentino. A Argentina taxa em 20% a commodity exportada e em 5% a pré-mistura para pão.Com isso, os moinhos brasileiros, que dependem do trigo argentino, não conseguem concorrer com o produto importado que chega ao País com preços mais baixos. "Além disso, os argentinos não fazem pré-mistura para pão. É farinha com sal", diz o presidente do sindicato.A taxação do produto do trigo e da pré-mistura exportada está em vigor desde 2002. Nos últimos quatro anos, os volumes importados de pré-mistura mais que dobraram: de 107,4 mil toneladas para 251,1 mil toneladas no ano passado.Agravamento O quadro se agravou, segundo Martins, com a valorização do real em relação ao dólar, que ampliou a distorção entre os preços provocada pela taxação diferenciada na exportação. "Com o dólar a R$ 2,10, não há o que fazer", diz o executivo. O País consome hoje 10 milhões de toneladas de trigo por ano e importa a metade desse volume.O impacto dessa distorção de preços provocou uma freada na produção. Atualmente, os 180 moinhos espalhados pelo País usam dois terços da capacidade total de produção, que é de 15 milhões de toneladas anuais. "As indústrias reduziram as compras de farinha de trigo nacional", afirma Martins.O presidente do Moinho Santo André, José Batista Cardoso, sentiu no bolso o impacto da concorrência argentina. No início deste ano, ele reduziu para um terço a produção de farinha da fábrica em Santo André, Grande São Paulo, de 21 mil toneladas de trigo para 7 mil toneladas por mês. Foram demitidos 170 trabalhadores.Também no início deste ano, Cardoso fechou as portas do moinho Progresso, que havia sido arrendado pela sua empresa por um período de 10 anos. A fábrica, localizada na Lapa, zona oeste de São Paulo, tinha capacidade para processar 15 mil toneladas de trigo por mês. Com isso, foram demitidos 150 trabalhadores."Nossas vendas de farinha de trigo caíram 60% em 7 meses", afirma Cardoso. Ele reafirma que a valorização do real em relação ao dólar agravou o quadro, que já não era promissor.Martins, por sua vez, conta que o ritmo de investimentos em modernização de equipamentos na sua empresa caiu 40% em razão da falta de competitividade da farinha nacional.Outro impacto dessa distorção de preços recai sobre a produção nacional de trigo. Segundo o levantamento da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), a safra deste ano terá um recuo de 14,3% na área plantada. Deixarão de ser semeadas 394,5 mil hectares em relação à safra anterior.

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