Fase dois do governo começa com corte de juros, diz Marinho

Organizar os sindicatos e dar-lhes força para influenciar na agenda e nas políticas do governo Lula, estabelecendo um contra-ponto com as demais forças que compõem sua base de apoio e favorecer uma retomada do crescimento. Discutir a formação de fundos de pensão privados das centrais sindicais e ampliar o apoio dos trabalhadores ao financiamento do setor público, com recursos de longo prazo e fazer, assim, todo o esforço para tirar o Estado das ?garras do mercado financeiro?. Esses são alguns itens da agenda do futuro presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Luiz Marinho, atual presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, preferido de Lula para presidir a maior central sindical do País. ?O que seria do país sem a existência dos fundos de pensão Previ, Petrus, da Vale, da Caixa e do FAT?, pergunta ele. Ao mesmo tempo em que vai procurar espaço para influenciar mais a política, Marinho não esconde a decepção com a manutenção dos juros na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). ?Lula e Palocci diziam que não se podia dar um cavalo-de-pau num transatlântico, pois bem, agora já dá para ir virando o navio numa boa, pode-se começar a reduzir os juros já, as condições para isso estão dadas. Só não fazem se não quiserem?, diz. Para ele, a ?fase dois do governo Lula começa com o corte dos juros?.Em entrevista à Agência Estado, na sede do Sindicato do ABC, Marinho demonstra estar absolutamente a par de tudo o que se passa no governo e mantém um diálogo permanente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A seguir, os principais trechos da sua entrevista.Agência Estado - Por que o Lula escolheu o senhor para presidir a CUT?Luiz Marinho - O Lula não me escolheu. Aliás nem pode, porque nem delegado ele é do Congresso da CUT. Conversamos sobre isso em maio do ano passado. Então ele disse que pela minha projeção, se fizesse uma pesquisa, talvez fosse o principal dirigente sindical do País. ?Se isso é verdade, você deveria ir para a CUT. Em vez de pensar em ser deputado, ou prefeito ou coisa parecida, a CUT talvez seja melhor para você?, ele disse. Isso foi em maio, depois nunca mais falamos disso. Agora nós voltamos a esse debate e o Lula não influenciou em absolutamente nada nesse processo de decisão. Na verdade, quem acabou decidindo isso para valer fomos nós, metalúrgicos, e os professores, que estão hoje na presidência da CUT. O congresso que definirá a nova diretoria será de 3 a 7 de junho.Agência Estado - Qual será o papel da CUT em relação ao governo Lula na sua gestão? Luiz Marinho - Como a principal central sindical do País, a CUT tem a responsabilidade de conduzir o debate nessa conjuntura, dialogando muito com as demais centrais sindicais com o objetivo de criar um processo de entendimento para fortalecer o papel do movimento sindical brasileiro na estrutura política e econômica do País. Acho que tem de estar muito claro que a CUT joga um papel importantíssimo nesse debate, assim como o governo Lula, que é de esquerda, mas também de composição ampla. Por essa razão é natural que haja disputa para influenciar a política do governo. E a CUT deve preencher o espaço que lhe cabe nesse debate. Portanto, nós teremos um papel difícil, complexo. Um papel de às vezes apoiar o governo e às vezes cobrar e criticar o governo. Depende da reforma e da agenda que estiverem na pauta.Agência Estado - O governo recebeu críticas à esquerda e à direita, por ter adotado medidas econômicas que travam o crescimento, qual é posição da CUT? Luiz Marinho - A CUT foi severa na crítica e sua posição é de que foi um grave erro a manutenção dos juros. Temos a avaliação de que o governo vai conduzir a economia para redução dos juros e retomada do crescimento e do desenvolvimento. Mas esse momento virá meio tardio, esse processo já poderia ter sido iniciado.Agência Estado - A CUT vai ser o fiel da balança entre as forças que apoiam ou são contra o governo? O que é a segunda fase do governo? Luiz Marinho - Bem se vamos ser fiel da balança não sei e nem entramos nesse debate. O que queremos é apresentar a visão dos trabalhadores e disputar para influenciar o rumo que o governo possa adotar. Achamos que é preciso um processo de retomada do crescimento e do desenvolvimento, com inclusão social. Fazer a distribuição de renda. É preciso cumprir o compromisso de campanha de Lula de dobrar o valor real do salário mínimo, entre outros pontos. Tenho confiança de que o Brasil vai entrar nessa fase.Agência Estado - E a inflação? Luiz Marinho - O controle da inflação interessa à sociedade brasileira, interessa ao governo, interessa a todo mundo. Mas interessa especialmente aos trabalhadores. Ela corrói o poder de compra dos trabalhadores. Quem sobrevive do pagamento mensal, não tem autodefesa e é o mais prejudicado num processo de inflação. Mas é preciso colocar outros ingredientes para pensar essa fase em que a economia brasileira vai entrar. Controlar a inflação, controlando salário, isso certamente retira poder de compra. Se estamos falando em distribuir renda, falamos de melhorar a renda, especialmente das camadas mais baixas. Há que se provocar o crescimento do salário, do poder aquisitivo de baixo para cima, mas tem de se preservar o poder de compra dos de cima também. Nesse sentido, precisamos colocar um outro ingrediente, que é a oferta. Pode-se controlar a inflação sem ter que passar pelas decisões ortodoxas. Temos assistido a isso historicamente no Brasil. Ou seja, por exemplo, na campanha de combate à fome, o ministro Graziano tem falado que até o final do ano estará atendendo a milhões de pessoas. Isso vai provocar um aumento de demanda, de consumo. E o aumento da oferta, está sendo planejado, projetado? Se não houver um aumento da oferta, da produção, teremos a retomada da inflação, pelo consumo de massa. Ou seja, o Brasil precisa de um choque de produção se quiser controlar a inflação. Senão, apesar dos juros altos, você pode ter uma retomada da inflação.Agência Estado - Teve o apagão em 2001 porque a indústria mostrou que não tem infra-estrutura suficiente para crescer... Luiz Marinho - Acho que tem que acelerar esse processo dos fóruns para a discussão da política industrial e planejamento da retomada do crescimento e do desenvolvimento. No final do ano passado, antes de o Lula tomar posse, minha previsão era de que 2003 não seria muito diferente do que foi 2002. Isso está se confirmando. Agora é preciso considerar que todas essas ações em 2003 são uma preparação para um crescimento consistente a partir de 2004. Sem isso, a sociedade brasileira não vai ter os milhões de empregos que precisam ser gerados. O primeiro emprego, por exemplo, é uma necessidade, uma política afirmativa, de indução para geração de emprego, mas ele não terá força para responder a essa necessidade de demanda existente de geração de empregos. É a somatória de vários programas afirmativos, com crescimento econômico e desenvolvimento, que podem gerar os milhões de empregos de que o País precisa. Nesse sentido, é preciso que esses fóruns de discussão e política industrial, de desenvolvimento, funcionem o mais rapidamente possível.Agência Estado - E se faltar infra-estrutura? Luiz Marinho - Acho que da mesma forma que o aumento do consumo sem aumentar a produção, gera inflação, se aumentar a demanda de produção mas não oferecer infra-estrutura, também teremos um grande problema, porque a infra-estrutura brasileira deixou de ser planejada por mais de uma década.Agência Estado - A fase dois do governo Lula já começou? Luiz Marinho - Eu acho que está nos laboratórios, estão ensaiando. Agência Estado - O que é a fase dois para o senhor? Luiz Marinho - Eu acho que a fase dois é o processo de redução dos juros. Isso é necessário mais do que nunca. Não adianta falar em fase dois com manutenção do juro no patamar em que se encontra. Ele trava qualquer fase, qualquer possibilidade de crescimento. Evidente que o governo tem mecanismos de fomentar um processo de geração de empregos a partir das políticas públicas, a partir de obras de infra-estrutura, financiamento para saneamento básico, construção de moradias. O governo pode provocar um alívio na geração de emprego por aí, mas acho que devem ser feitas as duas coisas.Agência Estado - Então, enquanto o juro não cair não começará a fase dois... Luiz Marinho - Para valer, não. Pode-se ter um alívio. Mas temos de soltar a economia para retomar o processo de crescimento. Agência Estado - Esse semestre foi perdido? Luiz Marinho - Eu não diria perdido porque tínhamos consciência da necessidade de fazer o ajuste. Então, esse ajuste foi feito. O Lula e o Palocci falaram muito que não se podia dar ?um cavalo-de-pau num transatlântico?. Nós consideramos que ele (o transatlântico) já pode ser inclinado para fazer a curva numa boa, do jeito que estão os elementos econômicos. Começar um processo de redução dos juros agora não seria um cavalo-de-pau que tanto foi temido lá atrás, cantado em verso e prosa, tanto por quem acreditava como por aqueles que previam que Lula seria um desastre, aquele nervosismo todo. Agora, as condições estão dadas. Só não faz se não quiser.Agência Estado - Como o senhor vê essa dependência do governo ao mercado financeiro? Luiz Marinho - O governo vem tomando medidas para sair das garras do mercado financeiro. Pelo menos nas oportunidades que tenho de conversar com o Lula (antes e depois das eleições), entendo que o governo está tomando medidas e planeja ações para se livrar das garras do poder econômico do setor financeiro. E isso passa pela sociedade, pela possibilidade de um crescimento brutal, e há espaço para isso, das cooperativas de crédito, por exemplo, dos fundos de pensão, de criar uma poupança interna maior do que temos sem ter que passar pelas garras dos bancos, que têm uma ganância incalculável.Agência Estado - Esse aumento da poupança interna passa pela Reforma da Previdência? Luiz Marinho - Na reforma da Previdência, por exemplo, nós defendemos uma posição na CUT de que ela é necessária. Não somos contra a reforma, mas queremos negociar com o governo mudanças na sua proposta. Vamos aprovar, no congresso da CUT, as mudanças que acharmos necessárias e vamos oferecê-las como emendas, e elas serão a nossa pauta de reivindicação e não meros registros.Agência Estado - Hoje, do jeito que está, tem muita coisa que a CUT é contra? Luiz Marinho - Tem várias coisas. Queremos discutir teto, para nós o teto de R$ 2.400,00 é insuficiente e queremos discutir as regras transição. O fim da transição conforme proposto na proposta hoje chega a agredir os compromissos assumidos pelo presidente Lula durante a campanha. Achamos que devem ser mantidas as regras de transição hora vigentes. E queremos discutir a questão dos inativos.Agência Estado - O setor privado pode ter previdência semelhante à do setor público? Luiz Marinho - Precisa ser parecida com a do setor público. O setor público tem funcionado porque tem uma regra rígida, são fundos fechados, públicos, sem trabalhar com a lógica de remunerar o acionista. Aliás têm sido a salvação da economia brasileira. Imagine-se o Brasil sem os fundos de pensão da Previ, Petrus, da Vale do Rio Doce, da Caixa Econômica. Eles são responsáveis, junto com o FAT, por sustentar a economia brasileira. Sem eles, estaríamos numa situação, sem medo de errar, infinitamente pior do que estamos. Na iniciativa privada também temos de buscar constituir os fundos de pensão para a aposentadoria complementar dessa natureza, como tem sido demonstrado nas empresas públicas, temos de aprofundar a discussão e fazer.Agência Estado - Qual a pré-condição para as centrais terem fundo de pensão? Luiz Marinho - Depende da reforma da previdência. A partir da reforma da previdência poderemos fazer, estamos autorizados a fazer. Só precisamos encontrar o melhor mecanismo, pois o trabalhador que entra no fundo é um poupador de longo prazo e precisa ter segurança que essa poupança terá um retorno garantido quando ele mais necessitar. Por essa razão, é preciso toda cautela para elaborar um bom plano. Acho que os sindicatos e as centrais sindicais têm de se preocupar com esse processo.Agência Estado - A reforma sindical é fundamental para isso, para dar mais confiabilidade e credibilidade ao sistema? Luiz Marinho - Vejo duas reformas como estratégicas do ponto de vista de longo prazo. A sindical e a política. As outras têm impacto econômico imediato e tal, mas essas duas têm a ver com o fortalecimento e a consolidação em definitivo do processo democrático brasileiro. Porque a atual estrutura sindical, além de ser fragilizada, não vai sair disso, e está impedindo os sindicatos sérios de crescer.Agência Estado - Essa reforma sindical viria logo a seguir da reforma da previdência? Luiz Marinho - Essa discussão está se iniciando. Mas é uma reforma que é altamente estratégica, mas não precisamos ter a apressa de fazer até outubro, até novembro. Se houver necessidade de entrar no ano que vem, que se entre. Acho que é uma reforma que depende mais das centrais sindicais do que do governo.Agência Estado - Esse consenso entre centrais sindicais é possível? Luiz Marinho - Vou me envolver pessoalmente nisso, no diálogo com as centrais sindicais, um trabalho que já vem sendo feito. Mas o assunto vai merecer mais atenção. A CUT, como a maior, tem por obrigação buscar, flexibilizar, liderar esse processo de entendimento.

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