Fases do Medo
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Fases do Medo

Atividades cotidianas estão longe da normalidade pré-covid-19

Media Lab Estadão, O Estado de S.Paulo
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11 de setembro de 2020 | 00h00

Hoje em dia, a maioria das pessoas do mundo já conhece (ou deveria conhecer) a sensação de precisar ficar trancada em casa e evitar ao máximo o contato com o mundo exterior, mas em 22 de fevereiro, quando o governo italiano ordenou o isolamento de 11 cidades devido ao surto de coronavírus, o choque foi total. Primeiro, porque nunca pensamos que a tragédia relatada na China fosse realmente chegar até nós. E segundo: o epicentro recém-descoberto da epidemia na Europa estava localizado a apenas 46 km de casa. Perto demais.

Foram dias tensos, com noticiário ligado 24 horas por dia, atualização de números a todo  momento e novos casos e mortes aumentando vertiginosamente. Ninguém sabia ao certo aonde aquilo iria chegar, mas a esperança era de que fosse só um grande susto e tudo acabasse logo. Pouco tempo depois, fecharam a região da Lombardia inteira (onde eu moro desde o ano passado) e, enfim, bloquearam as fronteiras do país. Algo inédito e desesperador.

Simplesmente, ninguém podia entrar ou sair da Itália. Nós tínhamos permissão para sair de casa apenas se portássemos um formulário enorme. O documento indicava o nosso destino e o motivo da saída. Se não fosse algo de extrema necessidade ou se descobrissem que o cidadão estava infectado (e sabia disso), era multa ou até prisão. Dava pavor de ir ao mercado.

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Quando começou a reabertura gradual dos estabelecimentos, dava para perceber que as pessoas de modo geral ainda tinham muito medo de sair às ruas — mesmo com máscara, distanciamento e álcool em gel.

Na metade de maio, na primeira vez em que entrei em um shopping, após o lockdown, ele estava às moscas. A maioria das lojas permanecia fechada, indicando que talvez muitas delas foram obrigadas a encerrar as atividades definitivamente, e os poucos lugares que funcionavam estavam sem clientes.

Mesma coisa no comércio do centro de Milão, com movimento apenas em endereços de marcas famosas. Também foi impactante ver a praça da Duomo tão vazia, assim como a sempre lotada Galleria Vittorio Emanuele II, mesmo com a circulação liberada. Tudo muda sem os turistas.

O confinamento na Itália foi muito rígido e fiscalizado, sem qualquer comparação com o que está ocorrendo no Brasil, então o impacto da reabertura foi forte.

Na área cultural, muitas adaptações. Ainda em maio, nos museus que fui, entrada só com agendamento e em grupos de no máximo cinco pessoas. Nos teatros, que voltaram em junho, cadeiras bloqueadas ou nova configuração dos assentos para garantir o distanciamento. E muitas atividades ao ar livre.

Hoje em dia, tantos meses depois, a rotina está mais normalizada. Há pessoas que insistem em se aglomerar e em não seguir as regras básicas de proteção, mas isso existe em todo lugar, como observamos nas ruas e na televisão. Dias atrás eu vi o dono de uma loja brigando com um rapaz que queria entrar no estabelecimento sem máscara, por exemplo. Continua sendo proibido.

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Só podíamos sair com um formulário enorme, que informava sobre o nosso destino. Dava pavor de ir ao mercado
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Mas o pior de uma pandemia ainda sem vacina é que nunca se sabe o que vem a seguir. Em julho, a média de novos casos por dia na Itália era de 200, mas em agosto, principalmente por causa das férias de verão e das fronteiras parcialmente reabertas, o número voltou a crescer muito, e nos últimos dias vem superando 1.000. Felizmente, as mortes estão se mantendo em um patamar teoricamente baixo, menos de 10 por dia. Mas nunca se sabe. Se houver uma piora significativa nas estatísticas, o governo pode decretar um novo lockdown a qualquer momento.

Prefiro pensar que isso tudo será controlável e que os avanços rumo à normalidade vão continuar. E ficar com a imagem da Arena de Verona reaberta e voltando a receber grandes espetáculos (para um público de apenas 1.000 pessoas, em vez das 20 mil tradicionais, por segurança) ou então lembrar que o Festival de Veneza, apesar de tudo e mesmo com mudanças, está ocorrendo neste momento. Não deixa de ser um alento.

 

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