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Fator desconfiança

Mudança de governo é essencial para reduzir desalento. Mas não é tudo

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 05h00

Candidaturas registradas, Fernando Haddad “quase” confirmado no lugar de Lula e as eleições presidenciais dobrando a esquina. A nova temporada de pesquisas, nesta semana, já começa a abarcar a situação e deve dar pistas mais claras sobre o que virá a partir de 2019. Em resumo, definições fundamentais para quem precisa fazer planos e se preparar para tocar a vida no novo cenário. Fundamentais, sim, mas não suficientes. Há fortes dúvidas sobre os nomes que estarão preferencialmente nas urnas no segundo turno das eleições presidenciais – e, portanto, sobre os programas econômicos que poderão vingar no mandato do sucessor de Temer. 

Esse é um dos motivos que mantêm insatisfatórios os indicadores de confiança, tanto de empresários como de consumidores. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Índice de Confiança Empresarial avançou 0,9 ponto em julho, recuperando metade da queda de junho, mas considerando as médias móveis trimestrais, foi a quarta queda consecutiva. No caso do Índice de Confiança do Consumidor, também da FGV, julho mostrou um desempenho parecido: alta de 2,1 pontos sobre junho, “devolvendo” parte das perdas registradas no mês anterior, mas níveis ainda baixos em prazos mais longos. E a confiança medida pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) é ainda mais explícita: está praticamente estacionada desde janeiro do ano passado. Tudo isso sem contar a já rotineira volatilidade dos mercados, que deve se acentuar com a ampliação das pesquisas eleitorais: a semana passada, por exemplo, foi marcada pelo sobe e desce dos indicadores, no ritmo da crise da Turquia e da campanha no Brasil, e terminou com alta de 1,3% no dólar e baixa de 0,63% na Bovespa. 

Mais que esses números, porém, as atitudes deixam às claras as incertezas e a falta de confiança nos novos rumos da economia. Do lado dos consumidores, o desânimo se expressa na fuga do consumo e dramaticamente na desistência de buscar uma colocação no mercado de trabalho – eram 4,8 milhões de pessoas nessa situação no segundo trimestre, como mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. Há sinal mais evidente de desconfiança da população em relação ao presente e ao futuro do que não sair de casa para procurar emprego? Certamente, não. 

Do lado dos empresários, a prova do baixo astral está não só nas decisões sobre cortes de pessoal ou na extrema precaução para abertura e/ou reposição de vagas. A cautela aparece também nos investimentos. Afinal, quem se sente confortável em levar adiante projetos ambiciosos de expansão e modernização de empresas, sem saber se a economia voltará a andar e principalmente para onde ela irá? Levantamento do Ipea mostra uma alta significativa no indicador de investimentos em junho, de 9,4%, quase compensando a queda de 10,4% em maio, no clima da parada dos caminhoneiros, mas o segundo trimestre fechou com recuo de 0,9%. 

É fato que as eleições funcionarão para desfazer boa parte dessas dúvidas. E, dependendo de quem e do que vier pela frente, poderá ser reduzido o fator desconfiança que se instalou no País. Mas não é aconselhável se apegar à tese de que isso trará uma virada no quadro atual. Confiança, por si só, não desata o imbróglio em que se colocou a economia. Há muito a ser feito para enfrentar a crise fiscal, afastando a ameaça de colapso nas finanças públicas a médio e longo prazos e, ao mesmo tempo, oferecer algum alento à população, num prazo mais curto. 

A experiência recente com as expectativas alimentadas pelo impeachment de Dilma dá margem a prudência nas análises. Para alguns observadores, foi exatamente a confiança, no começo do governo Temer, que deu impulso para sair da recessão – assim como foi a desconfiança, com o enfraquecimento do governo e o acirramento do quadro político, que pôs freio à retomada. Para outros, porém, colocou-se um peso muito grande sobre o impeachment, com a projeção de uma trajetória em que a confiança puxaria a volta do crescimento, inicialmente com base no consumo e depois nos investimentos. É por isso que muitos defendem agora moderação nas expectativas. Tudo para evitar novas frustrações. 

*Cida Damasco é jornalista

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