Fatores que interferem no câmbio e sua evolução

Em janeiro de 1999, o custo de defender uma moeda atrelada ao dólar recorrendo a elevações dos juros tornou-se insuportável. Nas crises anteriores (México/95, Ásia/97 e Rússia/98) a resposta fora uma drástica elevação dos juros básicos. Mas as altas taxas de juros reais exauriram a viabilidade fiscal (a relação dívida/PIB pulou de 29,9% para 43,4% entre 95 e 98), social (PIB de 98 caiu 0,1%) e política desta estratégia.O regime inaugurado com a flutuação cambial adota a meta de inflação como referência da política monetária: o câmbio flutuante se encarrega do equilíbrio externo; os juros se ocupam da estabilidade de preços e só reagem se a meta de inflação for ameaçada. Uma taxa de câmbio flutuante deve refletir as expectativas do mercado com relação à evolução futura da demanda e da oferta de dólares. Embora a balança comercial tenha grande visibilidade; no mundo globalizado, dominado por transações financeiras de larga escala, os fluxos de capitais são a chave para a evolução do câmbio.No Brasil, o balanço de transações correntes de 2000 (o padrão deve se manter em 2001) deverá apresentar um déficit de US$ 25,5 bilhões, fruto de um déficit comercial de US$ 750 milhões, de um déficit na balança de serviços de US$ 26,5 bilhões e da entrada de US$ 1,75 bilhões por transferências de brasileiros no exterior.Há ainda cerca de US$ 34 bilhões (US$ 29 bilhões em 2001) em empréstimos e financiamentos que vencem este ano; assim, a necessidade total de divisas se aproxima de US$ 60 bilhões. Mesmo que os investimentos estrangeiros financiem uma parcela importante - o recorde de US$ 30,1 bilhões de 99 pode ser superado - ainda sobra um expressivo hiato de recursos a ser financiado no mercado. É por isso que a taxa de câmbio é muito sensível a qualquer circunstância que possa afetar as condições de acesso (preço e liquidez) ao mercado de capitais.Cenário mundial e domésticoEm 99, depois de o dólar bater em R$ 2, em outubro, a moeda reverteu a tendência de alta e fechou o ano a R$ 1,80. A não ocorrência da crise do "bug do milênio" acalmou os mercados e o câmbio chegou a R$ 1,70, em março. A queda do Nasdaq e o temor de recessão nos EUA, em abril, levaram o dólar para a faixa (R$ 1,80-1,85) na qual se manteve até setembro. Em outubro, o mercado internacional foi sacudido por três eventos que geraram um aumento global na aversão ao risco: revisões de lucros nas empresas americanas derrubaram as bolsas, conflitos no Oriente Médio pressionaram o preço do petróleo e crise na Argentina.O aumento da incerteza sobre as condições externas que o Brasil enfrentará para financiar o hiato de recursos levou o dólar a R$ 1,97. No entanto, o sucesso da privatização do Banespa e o acordo político na Argentina, viabilizando a ajuda do FMI, provocaram uma intensa reversão de expectativas. O BC interveio para atenuar a volatilidade; porém, não nos parece que exista a intenção de definir um piso para o câmbio.Embora a teoria econômica não disponha de modelos precisos para previsão de câmbio, aceita-se a idéia de que, no longo prazo, as taxas de câmbio tendam a acomodar as diferenças entre as taxas de inflação. Nossas projeções (dólar a R$ 1,90 em 2000 e a R$ 1,95 em 2001) supõem uma depreciação anual próxima ao diferencial de inflação entre Brasil e EUA. Ainda que, na prática, o real venha oscilando pouco para os padrões internacionais, a natureza volátil dos regimes flutuantes nos obriga a encarar com naturalidade uma banda mais larga; com o dólar entre R$ 1,80 e R$ 2. Este intervalo de 11% torna-se mais aceitável se observamos que moedas cujos fundamentos são mais robustos apresentam oscilações maiores. Em 2000, o euro já depreciou-se 16,5%, a libra esterlina, 12,5% e o iene, 7%. Assim, se a projeção de dólar a R$ 1,90 estiver correta - depreciação de 5,5% no ano - o real terá tido não só uma volatilidade menor, mas também uma depreciação menor do que moedas mais tradicionais. Outra constatação importante é que, mesmo enfrentando condições externas bastante adversas, não se cogitou aumentar os juros básicos. Na verdade, a despeito do reajuste de combustíveis, a expectativa de inflação para 2000 e 2001 permanece próxima das metas e é possível esperar uma redução da Selic em dezembro, caso o cenário externo não produza novos choques.

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