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Coluna Dan Kawa: Juro baixo é bom, mas impõe desafio ao investidor

Fatos negativos pressionaram mercados em 2002

Os mercados no Brasil viveram períodos de forte nervosismo em 2002. O dólar comercial chegou a ser vendido a R$ 4,00, os juros futuros dispararam e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) recuou a patamares registrados em 1993. Os analistas dividem-se sobre o fator de maior influência para esse período de turbulência, mas concordam que houve uma sucessão de fatos negativos para a economia brasileira durante o ano.?No cenário externo, a desaceleração da economia norte-americana, as fraudes no balanço de empresas e a possibilidade de um conflito entre os Estados Unidos e o Iraque foram os principais fatos negativos. Em relação ao cenário interno, o destaque ficou por conta das incertezas causadas pelo período de eleições presidenciais?, afirma o economista da ABN Amro Asset Management, Hugo Penteado.O diretor-executivo do Citigroup Asset Management, Roberto Apelfeld, destaca que o comportamento da taxa de risco-país demonstra a piora da imagem do Brasil no exterior. ?No final de 2001, ela estava em torno de 880 pontos-base, chegou a de 2 mil pontos em outubro e deve encerrar o ano em um patamar próximo a 1.500 pontos-base?, afirma Apelfeld. A taxa de risco-país é um indicador que mede a confiança dos investidores na capacidade de pagamento da dívida do país. Ela é calculada com base nos juros pagos pelos títulos da dívida brasileira em relação à taxa dos papéis norte-americanos. No patamar atual, com o risco-país em torno de 1.500 pontos-base, o Brasil precisa pagar 15 pontos porcentuais acima da taxa norte-americana para conseguir captar dinheiro no exterior. ?É o prêmio pelo risco que o País apresenta hoje e que se mostrou em alta durante todo o ano?, explica o diretor do Citi.Risco-país influencia mercados internosApelfeld explica que os mercados internos tendem a acompanhar a tendência da taxa de risco-país. ?Os juros negociados entre investidores internamente têm uma estreita relação com os juros de papéis brasileiros negociados no exterior. A moeda do país se desvaloriza em relação ao dólar, pois há uma demanda maior por proteção em moeda estrangeira. Já as ações se desvalorizam, dado que o valor de cotação atual é resultado de uma perspectiva para o preço do papel no futuro descontada uma taxa de juros. Se essa taxa sobe, o desconto é maior e há queda no valor do papel negociado na Bolsa?, explica.Os números mostram que, de fato, o comportamento do dólar, das taxas de juros e da Bolsa de Valores de São Paulo acompanharam a taxa de risco-país. Em outubro, quanto o risco chegou a 2 mil pontos, o real atingiu o patamar mais baixo frente ao dólar. Na ponta de venda, foi cotado a R$ 4,00 no pior momento do dia 10 de outubro. No mercado de juros, as taxas alcançaram seu patamar mais elevado em outubro. Para se ter uma idéia, no dia 15, um dia após a reunião extraordinária do Comitê de Política Monetária (Copom), que elevou a Selic, a taxa básica de juros da economia, de 18% ao ano para 21% ao ano, os contratos de DI futuro negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) pagavam taxas acima de 25% ano. No dia 16, chegaram a 27% ao ano. A Bolsa também chegou a um dos piores momento do ano no dia 16 de outubro, quando o Ibovespa ? índice que mede a valorização dos principais papéis negociados na Bolsa ? chegou a 8.370 pontos. Um estudo da Economática Empresa de Informações Financeiras mostrou que esse foi o patamar mais baixo desde 29 de janeiro de 1999, quando o Índice atingiu 8.171 pontos.O estudo também apontou que o Índice atingiu, no dia 16 de outubro, o seu nível mais baixo em dólares desde maio de 1993. O Índice ficou em 2.160,3 pontos no fechamento. Em 14 de maio de 1993, estava em 2.101,3 pontos. Ou seja, a Bovespa voltou a níveis alcançados há nove anos.Para o diretor do Citi, os fatores externos pesaram muito na piora da imagem do Brasil no exterior. ?Houve um aumento na aversão ao risco por parte dos investidores estrangeiros, motivado por perdas no mercado acionário norte-americano e na Argentina. Além disso, o contexto de incertezas sobre a retomada da economia dos Estados Unidos contribui para uma postura mais conservadora por parte dos estrangeiros?, afirma. Apelfeld concorda que o processo de transição no governo brasileiro acentuou a piora nos mercados brasileiros, mas acredita que as incertezas externas tiveram peso maior na avaliação dos investidores.Inflação preocupa no final do anoSe por um lado a alta do dólar provocou uma melhora das contas externas do País, reduzindo a dependência externa, por outro trouxe de volta a inflação. A importação de produtos e insumos pressionou para cima os preços no mercado interno e a inflação encerrará o ano na casa dos dígitos. ?A política monetária foi rígida, mas a alta dos juros tem um limite de influência sobre o comportamento da inflação?, afirma o consultor financeiro Alexandre Póvoa.O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresenta alta de 10,22% no acumulado do ano, até o mês de novembro. Já o Índice Geral dos Preços de Mercado (IGP-M), cuja composição é muito influenciada pelo dólar, deve encerrar o ano acima de 25%. Até o mês de novembro, a alta acumulada é de 20,77%.

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