Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Faturando com o risco

Quando a incerteza é grande e o tempo esquenta, os consultores políticos enchem os bolsos

The Economist

27 de maio de 2016 | 05h00

Ultimamente, acompanhar o desdobramento febril dos acontecimentos no Brasil tem sido, por si só, um grande desafio. A presidente Dilma Rousseff, que foi afastada do cargo por conta de suas artimanhas contábeis, aguarda o julgamento do processo de impeachment; um governo interino enfrenta a pior recessão desde os anos 30; e isso tudo em meio a um escândalo de corrupção verdadeiramente cinematográfico, com voltas e reviravoltas que fazem os enredos das novelas brasileiras parecerem a coisa mais lógica do mundo. Num cenário como esse, não parece ser possível permanecer à frente dos acontecimentos, condição no mais das vezes crucial para empresas e investidores.

Por sorte, há a quem recorrer. De pequenos escritórios a grandes consultorias de estratégia, um número crescente de cabeças pensantes se oferece para explicar o que está acontecendo no País. Setores inteiros da economia brasileira estão às moscas, mas as consultorias de risco político dizem que nunca tiveram tanto trabalho como agora.

A bem da verdade, não é só no Brasil que o negócio das consultorias de risco está em alta. Com o Oriente Médio conflagrado, a Rússia propensa a aventuras e a China concretando recifes sobre os quais outros países também dizem ter soberania, a geopolítica voltou a ser uma preocupação generalizada entre os executivos. A possibilidade de que a Grã-Bretanha abandone a União Europeia e a crise dos imigrantes fazem com que até os países europeus deixem de parecer tão monótonos. E, nos Estados Unidos, a prudência manda investigar o que pode acontecer se Donald Trump acabar conquistando a Casa Branca.

Para os analistas de riscos políticos é uma felicidade que essa mais recente onda de incerteza global tenha coincidido com o amadurecimento do setor. Sua estrutura atual data de meados da década de 90. Naquela altura, os clientes em potencial reagiam com perplexidade ao serem prospectados, relembra Ian Bremmer, fundador do Eurasia Group, empresa veterana na comercialização de ciência política em tempo real, com sede em Nova York. A Stratfor, que, de sua base em Austin, no Texas, mascateia previsões geopolíticas há duas décadas, atingiu recentemente o número recorde de 550 mil assinantes. “Não somos mais obrigados a justificar a nossa existência”, comenta Bremmer com satisfação.

A demanda por consultoria política aumentou depois da crise financeira, quando as multinacionais enxugaram seus departamentos internos de estratégia, até então encarregados de elaborar (entre outras coisas) esse tipo de análise. Os cortes os reduziram à metade de seu tamanho original, calcula Joel Whitaker, da consultoria Frontier, de Washington. Na opinião do analista, o fenômeno se deve à pressão pela redução de custos e também ao fato de que os conselhos de administração das grandes empresas estão cada vez mais focados no curto prazo. Em razão disso, recorre-se crescentemente a consultores externos.

As instituições financeiras, que tendem a fazer dos cenários políticos o mesmo tipo de leitura (isto é, grosso modo, vender ativos onde predominam as práticas estatizantes; comprá-los onde prevalece o ânimo pró-mercado), foram umas das primeiras assinantes de projeções genéricas, como as inicialmente oferecidas por Stratfor e Eurasia. Embora continuem recorrendo a esses serviços, é cada vez maior o número de executivos que se interessa pela análise do risco de empresas específicas. Isso é sopa no mel para consultorias como a brasileira Prospectiva, que há 14 anos troca em miúdos para seus clientes as confusas políticas comerciais e industriais do País. Desde 2012, a consultoria vem crescendo de 20% a 30% ao ano, diz um de seus sócios, Ricardo Mendes. Os serviços customizados, que há dezoito meses não geravam receita alguma para a Frontier, agora representam um quinto de seu faturamento. Na Stratfor eles superaram o valor arrecadado com assinaturas nos últimos cinco anos, e correspondem a um terço das receitas.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
As consultorias de risco político dizem que nunca tiveram tanto trabalho como agora no Brasil
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Consultorias de maior porte também estão tirando uma lasquinha. A britânica Control Risks tem 100 analistas políticos em dezenas de escritórios espalhados pelo mundo afora. Há dez anos, eram 30. As receitas geradas pelo negócio principal são complementadas com orientações sobre como as empresas devem cuidar da segurança de seus funcionários e combater as fraudes. Gigantes da consultoria com foco na gestão dos negócios, como a McKinsey, estão acrescentando análises de risco político aos receituários que oferecem para promover a saúde corporativa de seus clientes.

Portanto, assim como os próprios riscos, os consultores de riscos também estão se tornando mais diversificados. E tão significativo quanto isso é o fato de que eles não se limitam mais a prestar serviços a empresas ocidentais interessadas em investir em lugares exóticos. Em 2014, a Eurasia abriu um escritório em São Paulo, seu primeiro posto avançado fora do mundo desenvolvido, em princípio para atender empresas brasileiras que buscassem oportunidades em outros mercados. Na prática, seus analistas vêm ajudando executivos brasileiros a entender a crise política por que passa o País.

“Riscos políticos” não é algo que as pessoas digam em voz alta na China. Apesar disso, ao tomar suas decisões de investimento, as empresas chinesas sentem cada vez mais necessidade de levar esses riscos em consideração – inclusive quando se trata de investir em países ricos às voltas com novos problemas. O mesmo acontece com outras multinacionais. Como diz Whitaker, para companhias como a mexicana Bimbo, uma grande fabricante de pães industrializados que a Frontier está ajudando a se expandir rumo ao Norte, “os Estados Unidos são um mercado emergente”. Comportam, portanto, alto grau de incerteza.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.