RODRIGO CAVALHEIRO | ESTADÃO | ESTADAO CONTEUDO
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Favela adotada por líder quer volta da carne

Macri doa maior parte do salário para refeitório popular; saudade do churrasco é queixa comum

Rodrigo Cavalheiro / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2016 | 21h03

Los Piletones seria mais uma favela de Buenos Aires onde taxistas não entram, carros desmanchados indicam que ladrões andaram ocupados na noite anterior, o time de várzea, o Sacachispas F.C. (Arrancafaísca F.C., em tradução livre), honra o nome numa pelada na manhã de domingo e o cheiro de carne assada é cada vez mais raro.

Los Piletones ganhou fama por ser o bairro escolhido pelo presidente Mauricio Macri para receber a maior parte de seu salário ( 130 mil pesos, R$ 32 mil), a parcela exata não é divulgada. O beneficiado é o centro social da líder comunitária Margarita Barrientos, cujo refeitório alimenta 2 mil pessoas por dia.

Ao cair nas graças do então prefeito Macri (2007-2015), o bairro teve melhorias reconhecidas pelos moradores: menos cortes de luz, mais rede de esgoto e concreto novo nas ruelas quase sem veículos inteiros, ocupadas por vira-latas sonolentos e crianças agitadas.

A melhoria em infraestrutura não garantiu fidelidade política. Mesmo no núcleo popular mais associado à imagem de Macri, o governo sofre pressão por algo que o argentino considera um direito fundamental, o churrasco de domingo.

Desde que Macri assumiu, soltou o dólar e desvalorizou o peso em 30%, o preço da carne de vaca disparou. O governo fez baixar o valor no abate, mas nos supermercados o recuo foi tímido. Ministros pediram que não se comprasse carne e se atreveram a ameaçar com licenças de importação. Queriam baixar o preço da costela de 110 pesos (R$ 27) para 90 pesos (R$ 22) o quilo. Quando produto bateu em 160 pesos (R$ 40), virou manchete e tornou o governo alvo de piada.

Lentilhas. No refeitório Los Piletones (Os piscinões, referência a lagos pouco balneáveis da região), hoje é dia de lentilhas e arroz. Ali estará o kirchnerista Javier Chinche, pedreiro boliviano de 43 anos que chegou há 15 anos à Argentina. Para ele, a alta nos preços do último trimestre (superior a 12%, segundo consultorias privadas) é responsabilidade do presidente. “Ele melhorou o bairro como prefeito, mas não governa para o pobre”, argumenta o homem, que faz com os quatro filhos e a mulher todas as refeições da semana no lugar.

Uma vez a cada 15 dias, ele ressuscita o churrasqueiro unindo-se a três compatriotas para ir ao mercado central comprar como atacadista. Com um salário de 10 mil mensais (R$ 2,4 mil), reclama do preço do transporte público, subsidiado por enquanto, para chegar lá. “Como o trabalhador vai pagar 5 pesos (R$ 1,2) por uma passagem de trem?”

Os catadores Romina Greco e o marido, Vicente, vendem o papelão que embala as doações ao refeitório, do qual são vizinhos de porta. Ganham em média 70 pesos (R$ 17) por semana. Escondida no meio da sucata e dos papéis que ocupam o pátio dianteiro, está a grelha familiar. “Está em algum lugar por aí, como decoração. Quando assamos agora, ocupamos só um quarto da grelha. Como são nove pessoas, temos que encher a barriga de verduras e salada de batata”, reclama Vicente.

Neste momento, outro catador, amigo da família, grita reclamando que teve seu carrinho de supermercado roubado na noite anterior. Vicente questiona a imprevidência do colega, conhecendo o bairro. “A culpa também é dele. Chegou bêbado e dormiu aqui em frente. Mas por que não amarrar com uma corda o carrinho ao tornozelo?”

Romina interrompe o marido para voltar ao tema central, a carne. “Não sabe a saudade que eu tenho do churrasco de verdade, com todas as partes da vaca. Acho o Macri sério, mas espero que façam algo para consertar essa desvalorização”, diz.

Alertada de que o relógio de parede pendurado sobre a porta de entrada da casa marca 10h30 quando já são 11h50, Romina, que não tem celular ou internet, arruma a hora e justifica: “Ele atrasa quando venta.”

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