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Fazenda não desiste de conter queda do dólar

Equipe de Mantega avalia medidas para segurar desvalorização

Fabio Graner, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Quando o dólar escorregou para baixo de R$ 1,80, o nível de atenção do Ministério da Fazenda com a questão cambial aumentou. O tema, sempre no radar do ministro Guido Mantega e sua equipe, tem sido objeto de estudos da área técnica, que avalia a eficácia de medidas para tentar conter a trajetória de queda da moeda americana, embora não se deva esperar por uma mudança significativa. O mais provável é que o governo, mais uma vez, relacione medidas de desoneração para desanuviar as dificuldades enfrentadas por setores específicos.Esse grupo de estudo já relacionou alternativas como a adoção do Imposto de Exportação para algumas commodities, como defende o governo argentino para produtos do Mercosul. Mas também nesse caso é quase nula a probabilidade dessa tributação. Enquanto isso, o que prevalece é o jogo de avança e recua do ministro Mantega, que ora dá sinais de que não fará nada para tentar reduzir a valorização do real, ora cultiva um certo suspense, observando as expectativas do mercado. Na área técnica do ministério, há os que identificam que os interesses do ministro na criação de um fundo soberano de reservas vão além da tentativa de elevar a rentabilidade das reservas e de promover uma maior internacionalização das empresas nacionais. A esses dois objetivos se somaria a intenção de Mantega de uma atuação mais ativa na política cambial e no conseqüente represamento da trajetória do dólar. Esse diagnóstico, no entanto, tem resultado, até o momento, na percepção de que não há muito o que se fazer no câmbio. Os técnicos avaliam que um dos fatores para o câmbio é o diferencial de juros externos, mais baixos, e internos, mais elevados. Afinal, esse diferencial aumentou depois dos cortes de juros nos Estados Unidos, estimulando o maior fluxo de dólares para o Brasil. Some-se a isso a expectativa de "investment grade" para o próximo ano e o crescimento econômico. A perspectiva é de continuidade do ingresso de capitais externos no País. Apesar dessa avaliação mais geral sobre a trajetória de câmbio, a Fazenda faz uma análise setorial, verificando quem tem ou não dificuldades de competitividade. Diante da complexidade de adoção de medidas para reverter a trajetória do dólar, o foco do ministério é trabalhar por mais medidas de desoneração tributária, tanto de caráter geral como setorial. A valorização da moeda, segundo uma fonte, tornou essas medidas "prementes", embora dependam das negociações em torno da CPMF. A preocupação do governo é assegurar, primeiro, se haverá ou não perda na arrecadação da contribuição, que depende de aprovação do Senado. Só aí será possível determinar o montante disponível para uma nova rodada de cortes de tributos que estimulem mais investimentos do setor produtivo e compensem parte da perda de competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Se for mantido o acordo para prorrogar o tributo e cortar 0,02 ponto porcentual da CPMF no ano que vem, diz a fonte, ainda haverá espaço para desonerações. Economistas ouvidos pelo Estado concordam que, realmente, há pouco a fazer no âmbito da Fazenda para conter a queda do dólar. A economista-chefe do banco ABN Amro, Zeina Latif, afirma que qualquer iniciativa poderia ter no máximo um efeito de curto prazo. "Qualquer mexida seria marginal", afirmou, ressaltando que os fundamentos determinam uma trajetória de valorização do real no médio e longo prazos. "O movimento de queda do dólar é global, por causa da expectativa de menor crescimento dos EUA e da queda nos juros daquele país." Para ela, a reversão dessa tendência só ocorreria se houvesse uma abertura maior da economia brasileira, em combinação com medidas de desoneração tributária.O professor da PUC-SP Antônio Corrêa de Lacerda, avalia que correção da trajetória do dólar passa pela redução dos juros, que poderia vir com um reforço na política fiscal. Lacerda considera que medidas de controle de capitais, como quarentena para os dólares que entram no Brasil via mercado financeiro, também ajudariam. Há também entre os economistas aqueles que consideram o câmbio um problema estrutural da política econômica, embora com visões completamente diferentes. O professor da UFRJ Reinaldo Gonçalves disse que a reversão da trajetória do câmbio passa por eliminar o "quadrúpede" da política econômica: câmbio flutuante, meta de inflação, megassuperávit primário e liberalização cambial. Ele avalia que esses quatro pilares da política econômica induzem à valorização cambial e, por isso, o País teria de caminhar para um sistema de câmbio administrado com "uma taxa mais realista", que estimulasse a competitividade.

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