Febraban faz cálculo alternativo de spread

Segundo entidade que representa os bancos, spread médio em dezembro foi de 22,5 pontos porcentuais; na conta do BC, foi de 30,6 pontos

Leandro Modé e Adriana Chiarini, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2009 | 00h00

Sob intensa pressão do governo para reduzir o spread (diferença entre a taxa de captação de recursos e a cobrada nos empréstimos), os bancos se movem para dar sua versão sobre o assunto. Ontem, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou um estudo que mostra um spread inferior ao das estatísticas do Banco Central (BC). Entenda o que significa spread bancárioO argumento da entidade está centrado no fato de que o BC só considera os chamados recursos livres em seus relatórios sobre crédito. Nas contas da Febraban também entraram os recursos direcionados, como o dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os depósitos na caderneta de poupança. Segundo a Febraban, nas pessoas físicas, o cálculo do BC engloba 51,5% do saldo total das operações. Com a inclusão de outras modalidades (como leasing e crédito habitacional), esse porcentual sobe para 76,6%. Nas pessoas jurídicas, os dados do BC incluem 41,9% do total, ante 71,7% da Febraban. O economista-chefe da entidade, Rubens Sardenberg, frisou que o objetivo dos bancos não é contestar a autoridade monetária. "Queremos ajudar o BC, complementar seu trabalho", disse. "É um relatório (do BC) muito bem feito, mas foi criado há cerca de 10 anos."Terça-feira, o BC informou que o spread médio geral (que inclui pessoas físicas e jurídicas) atingiu 30,6 pontos porcentuais em dezembro, o maior nível em cinco anos. Pela metodologia da Febraban, esse número seria de 22,5 pontos porcentuais - uma diferença de pouco mais de 26%. O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel de Oliveira, disse que é correto, do ponto de vista técnico, incluir os recursos direcionados. Ele observou que esse dinheiro tem algumas peculiaridades, como o fato de ter um baixo índice de inadimplência e uma taxa de captação inferior à de outras modalidades de crédito no País. Oliveira ressaltou que fez seus comentários para a reportagem sem conhecer o estudo da Febraban em detalhes. Esta não é a primeira ocasião em que a Febraban vem a público para tentar explicar o spread no Brasil - o mais alto do mundo de acordo com levantamentos elaborados por instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 2004, a entidade contratou a Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) para fazer um estudo sobre spread. Na época, os autores do trabalho concluíram que o spread líquido (ou seja, dinheiro que sobrava para os bancos) era de 11,22% das receitas totais nas pessoas físicas e 1,84% nas pessoas jurídicas. EFEITO SELICO diretor de autorregulação da Febraban, Gustavo José Marrone de Castro Sampaio, admitiu ontem, no Rio de Janeiro, que "o corte da taxa básica de juros (Selic) não vai necessariamente reduzir os juros na ponta (do consumidor)". Ele justificou que tal redução depende de uma série de outros fatores, entre os quais a expectativa de inadimplência, que sobe em tempos de crise, como hoje.A autorregulação da Febraban não abrange a questão dos juros. De acordo com Sampaio, "não existe o conceito de juros abusivos" e, por isso, até os órgãos de defesa do consumidor encontram dificuldades em tratar do tema. "Fui diretor executivo do Procon em São Paulo e é complicado discutir juros", afirmou.

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