Febre do etanol amplia fusões e aquisições

De 2004 para cá, foram realizadas 45 operações desse tipo no setor, sendo 23 delas somente neste ano

Renée Pereira, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

Um bom termômetro para medir a efervescência do setor sucroalcooleiro é a escalada do número de fusões e aquisições nos últimos anos. De 2004 para cá, já houve 45 transações, sendo 23 delas apenas neste ano (até outubro). O crescimento em relação a 2006 foi de 155%, segundo a consultoria KPMG. O maior destaque são os investidores estrangeiros, responsáveis por 16 operações. Em todo o ano de 2006, eles haviam feito apenas 5 transações.A tendência é que esse movimento se intensifique nos próximos anos, já que uma das principais características do setor é ser muito pulverizado entre empresas familiares. "O horizonte é muito bom. Hoje o álcool encontra ambiente favorável ao seu crescimento no mundo, pois é um combustível alternativo ao petróleo, cujo preço está bastante elevado", afirma o sócio da IBM Business Consulting, Martiniano Lopes.Além da escalada de preço do combustível fóssil, o etanol também pode ser uma arma no combate ao aquecimento global. Nesse cenário, diz Lopes, o Brasil está em ótima posição. "Ainda somos o País mais competitivo no custo de produção do álcool. Por isso, os fundos estão investindo pesadamente em usinas e novos projetos."O presidente da Infinity Bio-Energy, Sergio Thompson-Flores, ratifica a opinião do especialista. Segundo ele, o álcool da cana é imbatível, em especial por causa da eficiência do uso da terra. "A partir da cana, produzimos 7,2 mil litros de álcool por hectare, enquanto o milho faz 3 mil litros e a beterraba, 4,5 mil litros. Isso explica parte do nosso apetite para investir no setor brasileiro", destaca o executivo, representante de importantes fundos estrangeiros.Ele conta que durante um período foi muito difícil comprar unidades por causa da expectativa favorável ao etanol. "Num primeiro momento houve o modismo do combustível verde. Mas acabaram ficando apenas os mais responsáveis."Exemplo disso é que a expectativa de investimentos caiu pela metade neste ano, de US$ 30 bilhões para US$ 17 bilhões, segundo a IBM Business Consulting. Desse total, US$ 14 bilhões referem-se a novas unidades em construção ou com projetos prontos no País. Os outros US$ 3 bilhões serão destinados à expansão de unidades existentes.O menor volume de investimento reflete os preços desfavoráveis do açúcar em 2007, que influenciaram também o preço do álcool. Para não perder dinheiro, muitos produtores decidiram mudar o mix de produção: diminuir a fabricação de açúcar e aumentar a de álcool.A mudança provocou uma inundação da oferta do produto no mercado que derrubou os preços na safra. "Isso serviu para dar um banho de realismo no mercado", afirma Thompson-Flores, para quem as possibilidades de investimentos melhoraram significativamente. "O potencial do setor continua extremamente favorável. A produção será 15% superior, mas o consumo subirá 23%", diz o vice-presidente da Comanche no Brasil, João Pesciotto. CONSOLIDAÇÃOPara o sócio da Adecoagro, Marcelo Vieira, o setor deve passar por um longo período de consolidação nos próximos 5 a 10 anos. "Nesse ambiente em ebulição, ou você cresce ou será engolido", afirma ele, um ex-sócio da Monte Alegre, usina comprada pela Adecoagro. Hoje o setor sucroalcooleiro é formado por 350 usinas que estão nas mãos de 80 diferentes grupos.

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