''Fechar conta externa não é problema''

Henrique Meirelles, presidente do Banco Central

Entrevista com

Daniela Milanese, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, diz estar alerta com a crise na Europa e reconhece que pode haver redução de investimentos financeiros para o País, mas acha prematuro concluir que o investimento em produção sofrerá maior impacto. "O Brasil é um dos países cujas unidades das companhias europeias estão tendo melhores resultados", afirmou em entrevista exclusiva à Agência Estado em Londres.

Ele descarta a necessidade de usar as reservas internacionais para cobrir o déficit externo, estimado em US$ 48 bilhões neste ano. "Problemas de fechamento de contas (externas) são parte do passado, o Brasil hoje é grau de investimento."

Para ele, com o forte crescimento brasileiro, é natural que as importações avancem mais rápido do que as exportações. "Qualquer déficit de conta corrente, que possa ser não sustentável ao longo do tempo, ocasionaria um ajuste das taxas de câmbio, pois o câmbio é flutuante", diz. "As reservas são usadas quando existem problemas de liquidez nos mercados."

Segundo ele, as projeções de crescimento para o Brasil também podem ser alteradas, dependendo do desenrolar da situação europeia. O quadro externo, avalia, revela "uma saída prolongada da crise, sujeita ainda a muita incerteza e muitas recaídas". A seguir, os principais trechos da entrevista.

O sr. imaginou que uma nova crise externa viria tão rápido?

Quando o mercado internacional estava exuberante, particularmente em relação ao Brasil, várias vezes alertamos que existiam problemas que poderiam aparecer em consequência da crise. Desde problemas corporativos, como ficou claro com o Dubai World, como problemas de dívida pública. Não estava claro o problema da Grécia. Mas, de certa maneira, era esperado haver preocupações com a questão do nível de endividamento público. Não é uma surpresa. Não é necessariamente algo que todos esperavam agora. Mas é consequência natural do fato de que, para enfrentar a crise, muitos países aumentaram muito o nível do endividamento público.

Quais são as preocupações no momento?

Com a finalização do pacote de prevenção da crise dos países europeus e o detalhamento das condicionalidades da ajuda. Em seguida, o anúncio dos países que são os potenciais recebedores dessa ajuda de estarem de acordo com as condicionalidades. O mercado não prestou atenção num fato importante, que foi a aprovação pelos parlamentos nacionais dos valores e condições envolvidas. Essa era uma grande dúvida e já foi feito de forma bastante substancial.

O País sente o contágio da crise na Europa? Há preocupação com o fluxo de investimentos?

O Brasil hoje é um dos países cujas unidades das companhias europeias estão tendo melhores resultados. É normal que essas companhias somente cortem investimentos em unidades que estão dando lucro em último caso. Não será o início de um período mais difícil que vai trazer diminuição substancial de investimentos. Isso pode acontecer, mas é importante não se precipitar conclusões, porque há vários fatores em jogo. O Brasil é um mercado muito importante, além da lucratividade, pelo tamanho para muitas empresas europeias. Existem empresas para as quais o Brasil é o segundo, terceiro, quarto mercado. Na questão dos investimentos de portfólio sim, houve certa diminuição, mais isso também é volátil. Vai depender muito da evolução das bolsas, do nível geral de aversão ao risco. Sabemos que podem haver quedas pronunciadas ou recuperações relativamente rápidas.

O dólar mais valorizado em relação ao real é tendência de curto prazo ou pode se manter?

Não fazemos previsão sobre câmbio. O real tem correlação com o preço das commodities. Existe também a aversão a risco. Não podemos olhar apenas o dólar. O real não é o ator principal, mas, neste caso, o euro e de certa maneira o dólar, como moeda de reserva do mundo.

A crise terá efeito sobre o crescimento brasileiro?

Depende da dimensão da crise, que não está clara. Em 2008, o canal de transmissão foi o crédito e a confiança.

Mas a situação se agravou?

Ficou mais clara a preocupação com os países além da Grécia. Por outro lado, avançou-se muito na solução, exatamente porque o problema se agravou. A situação ainda é muito instável, não temos ainda os detalhes dos programas, os mercados estão ainda muito voláteis.

A crise pode chegar no Brasil de forma mais evidente?

Uma coisa é fluxo de capitais. Outra é o investimento estrangeiro direto. No caso do Lehman Brothers, tivemos até muito além disso, tivemos remessas de capitais, uma coisa que está longe ainda de companhias europeias. Elas continuam investindo no Brasil. A terceira equação é a questão dos empréstimos, pois no pós-Lehman houve um colapso do sistema financeiro internacional.

Como vê a deterioração das contas externas brasileiras?

O Brasil está crescendo a taxas superiores à maior parte do mundo. A demanda doméstica e o crescimento são bastante fortes. É normal o aumento das importações e a queda das exportações. Por outro lado, nós já tivemos algum ajuste da taxa de câmbio nesse período, por outras razões, particularmente de aversão ao risco. A taxa de câmbio flutuante, com reservas elevadas, existe exatamente para corrigir quaisquer desequilíbrios que venham a se configurar agora e no futuro.

No limite, o BC poderá usar as reservas para fechar a conta?

As contas correntes são fechadas pelas contas de capitais. Atualmente, apenas os investimentos estrangeiros diretos equivalem-se aproximadamente ao resultado das contas correntes, independentemente das contas de capitais. Problemas de fechamento de contas são parte do nosso passado, o Brasil hoje é "investment grade". Qualquer déficit de conta corrente, que possa ser não sustentável ao longo do tempo, ocasionaria um ajuste das taxas de câmbio, pois o câmbio é flutuante. As reservas são usadas quando existem problemas de liquidez nos mercados: baixa liquidez, como em 2008, quando vendemos, ou excesso de liquidez, quando compramos como nos últimos anos.

Um reajuste de 7,7% para os aposentados teria impacto?

Do ponto de vista de contas públicas teria impacto e já se discute quais seriam as outras medidas para contrabalançar isso.

Como está a visão do investidor externo sobre o Brasil?

Continua muito otimista. Hoje fiquei até preocupado. Excesso de pessimismo é ruim e excesso de otimismo também. Um investidor mostrava na televisão os novos portos seguros e o primeiro que estava lá era a nota do real com uma bandeira do Brasil em cima. Então, eu acho que deve se conter um pouco o exagero. Mas não há dúvida de que o Brasil é destinação prioritária de investimentos.

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