Fabio Motta/Estadão
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'Fed está inseguro para sinalizar um caminho'

Na avaliação do economista, banco central dos EUA dá sinais de ansiedade para elevar os juros

Entrevista com

José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2015 | 02h04

O chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, José Júlio Senna, diz que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) está inseguro para definir os rumos da política monetária e consequentemente elevar os juros. Senna elaborou um estudo sobre a política monetária dos Estados Unidos e vê dois caminhos para o Fed.

O primeiro é considerado uma saída mais clássica, com a alta dos juros numa economia plenamente aquecida incorporada pelo mercado. O segundo, o mais provável na avaliação dele, é fruto da ansiedade do Fed em tirar a taxa de juros do zero. "Para o Brasil, a opção de deixar para subir quando a economia estiver mais aquecida é disparada a melhor", diz.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Quais são as opções do Fed para dar início ao aumento dos juros?

A maneira clássica de elevar os juros é perceber os sinais da macroeconomia e aguardar a incorporação desses sinais nos preços de mercado. Quando os preços de mercado incorporam um possível movimento do Fed e ele confirma a expectativa, tudo se passa de maneira muito suave. Não existe um tranco. O risco de abortar a recuperação econômica também fica muito baixo. Se não fosse assim, a experiência não reuniria vários episódios de retirada de acomodação monetária e de ingresso em longos ciclos de alta de taxa de juros.

Em algum episódio recente as coisas saíram da maneira errada?

Um exemplo no qual as coisas não ocorreram dessa maneira foi em maio de 2013, e os efeitos adversos se estenderam por quatro meses. Ao término de uma reunião do Fomc (Federal Open Market Committee), o presidente do Fed da época, Ben Bernanke, deu uma entrevista dizendo que o banco central estava contemplando a possibilidade de diminuir a compra de papéis (quantitative easing, o relaxamento quantitativo). Na época da reunião do comitê, o Fed dava sinais dúbios. O banco central americano dizia que tanto podia aumentar como diminuir a compra de ativos.

E quais foram os efeitos?

Um dos efeitos desagradáveis foi observado nas taxas de financiamento hipotecário. As taxas mais longas, de 30 anos, saíram de 3,40% para 4,40%, mostrando que era algo não esperado. Esse efeito desagradável retardou a recuperação econômica, principalmente do setor imobiliário.

E como esse efeito pode causar impacto no debate atual?

Os membros do Fomc discutem essa possibilidade de retirar o juro, mas estão sendo muito cautelosos. Agora, como eu comentei, existe uma maneira tradicional de se conduzir esse processo, mas o Fed está aparentemente criando uma alternativa.

Qual seria essa alternativa?

Hoje, o Federal Reserve não tem condições de sinalizar um caminho porque está inseguro. Ele não está deixando o caso mais clássico fluir naturalmente. O banco central americano está excessivamente ansioso e sabe que essa maneira que está sinalizando não é a melhor para se fazer política monetária.

Por que existe essa ansiedade do Fed?

O que o juro zero quer dizer? Quer dizer que a economia está doente. É um sinal de patologia. Se a economia está doente, os membros do Fed se sentem responsáveis. Fica um ônus pesado nas costas do banco central. E, se eles conseguem tirar o juro do zero, é um alívio. Os membros do Fed não estão sendo acusados de coisas desse tipo, mas é como o formulador de política monetária se sente.

E quais são os riscos de cada estratégia?

Toda decisão de política monetária tem risco. Qual é o risco envolvido na estratégia mais tradicional? É o Fed demorar muito e ficar atrás da curva como se diz. O aquecimento da economia pode se mostrar robusto e a taxa de inflação subir rapidamente. O risco da estratégia alternativa - pela qual aparentemente ele está optando - é fazer o primeiro movimento sem o mercado estar esperando e provocar um desarranjo na economia. Existe aí um trade-off (troca): ou o Fed se arrisca a ficar atrás da curva ou se arrisca a abortar a recuperação econômica. Na minha opinião, é melhor ficar atrás da curva.

Por quê?

Não existe risco hoje de a gente ir dormir e a inflação estar caminhando para 3% ao ano. A taxa de inflação está muito fraca no mundo todo.

Ou seja, o ideal é o Fed passar dezembro sem elevar os juros?

É a melhor opção. Se a economia der uma enfraquecida e a probabilidade (vista pelos participantes de mercado) de aumento dos juros ficar baixa, eu fico me perguntando se o Fed vai ter coragem de seguir a estratégia que está pensando. O que vale a pena mesmo é ficar de olho nessa probabilidade. A vontade do Fed de tirar o juro do zero é tão grande que ele vai para essa opção se a probabilidade for boa, mais de 50%. Mas se for baixa, de 25%, por exemplo, ele pode deixar a alta dos juros só para 2016.

E qual será o impacto para a economia brasileira?

Para o Brasil, a opção de deixar para subir quando a economia estiver mais aquecida é disparada a melhor. Nós temos hoje uma crise política, um desequilíbrio fiscal colossal e o Banco Central ameaçado de estar perdendo liberdade para fazer a sua política monetária. O que nos falta em termos de má notícia é o Fed começar a retirar a sua acomodação monetária.

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