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Fed não tem razão para cortar juros, diz Delfim

Segundo ex-ministro da Fazenda, Banco Central dos EUA não vai reduzir taxa para atender aos bancos

Luciana Xavier e Milton da Rocha Filho, da Agência Estado,

27 de agosto de 2007 | 14h47

O ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, Antônio Delfim Netto, disse nesta segunda-feira, 27, que não acredita que haja motivo para que o Federal Reserve corte os juros na reunião de setembro, aposta que ganha um coro cada vez mais forte nos mercados. Atualmente os juros dos Fed Funds estão em 5,25% e estão sendo mantidos nesse patamar desde junho do ano passado.   Veja também: A cronologia da crise financeira  Como enfrentar os riscos e prejuízos da crise  Entenda a crise e veja a opinião do governo e de especialistas    "Os bancos estão desesperados para que o Bernanke (Ben Bernanke, presidente do Fed) reduza os juros. Mas o Fed não é o Banco Central do Brasil. Não é para atender aos bancos que ele vai mexer nos juros. E não me parece que tem uma razão para cortar os juros", avaliou, em entrevista à Agência Estado.   Para Delfim, a economia dos Estados Unidos deve continuar desacelerando, mas não a ponto de beirar a recessão. Além do mais, Delfim acredita que o Fed já fez o que tinha que fazer para acalmar os investidores ao reduzir a taxa de redesconto de 6,25% para 5,75%.   Segundo o ex-ministro, foi "um jogo para tranqüilizar todo mundo" e, por isso, Delfim acha que foi positivo quatro grandes bancos - o Citi, JP Morgan, Bank of America e Wachovia - terem usado o redesconto do Fed na semana passada, alegando que isso serviria para assumir o papel de liderança e estimular outros bancos a fazerem o mesmo. Até então, havia um grande estigma em torno de se usar o redesconto. "Se os grandes não recorressem (ao redesconto), nenhum pequeno ousaria fazer isso".   A redução da taxa de redesconto e também a atuação dos vários Bancos Centrais, que injetaram recursos no mercado aberto nos dias mais nervosos da crise, como o próprio Fed, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão devem ajudar a manter uma calmaria maior entre os investidores, já verificada na semana passada.   Delfim ressaltou que não fosse a atuação dos BCs nas últimas semanas, a dúvida dos investidores em relação ao tamanho dos problemas do mercado de hipotecas de alto risco nos EUA, o subprime, poderia ter produzido uma "catástrofe mundial".   "As pessoas tentam fazer um resgate antecipado e como nenhum banco é capaz de agüentar um resgate antecipado, você pode produzir uma contração de crédito que pode gerar um efeito dramático na economia real. Mas não aconteceu isso", disse.   Fusões   Para Delfim, a crise no mercado subprime americano deverá levar a punições e fusões de bancos. Ele acredita que a lei americana Sarbanes-Oxley (Sarbox), que diminui o risco de fraude contábil, deverá ser muito dura com os administradores dos títulos lastreados em hipotecas do setor.   "Uma coisa é certa: não vai haver nenhuma piedade pelos portadores desses papéis. Os bancos vão acabar manobrando e os que cometeram imprudência vão ser fundidos a outros bancos, mas seus administradores não vão se livrar das punições, principalmente nos Estados Unidos", disse. "Quem vai pagar no final e deve pagar porque aplicou mal são os que compraram os papéis", acrescentou.   Segundo ele, as manobras dos bancos podem ter levado à crise atual. "Suspeito que uma boa parte da alavancagem desses mercados foram feitas pelos próprios bancos por meio de organismos paralelos, os conduits (intermediários). É uma coisa mágica: você transforma a porcaria do subprime em AAA. De forma que o cidadão não sabe o que está comprando direito. O tamanho dessa patifaria contábil ainda não é conhecido, mas suspeito que seja grande", afirmou.   O "AAA" é uma nota dada pelas agências de classificação de risco que significa baixo risco ou grau de investimento. Nesse caso, os títulos lastreados em hipotecas do subprime eram de alto risco mas tinham essa nota.   Para Delfim, a festa dos bancos, que nos últimos quatro anos tem sido celebrada com lucros e crescimento recordes só irá terminar com o Basiléia 2. O Basiléia 2 se refere a regras, que de um modo geral, servem para proteger os bancos do mundo de crises e que ainda estão sendo implementadas. Segundo o ex-ministro, o Basiléia 2 servirá de filtro e evitará que crises como a do subprime.   Segundo Delfim, a crise atual nada tem a ver com a gerada com a moratória do México, em 1982, também chamada de a crise da dívida externa por ter levado a uma crise de liquidez toda América Latina. "Hoje a crise é de crédito do setor privado, não tem crédito soberano envolvido nisso", comentou.   Selic   Ao comentar a taxa de juros no Brasil, o ex-ministro foi contraboa parte do mercado doméstico e afirmou que não acredita que seja preciso o Copom reduzir o ritmo de queda dos juros na reunião de setembro. "Para meu gosto, um corte de 0,50 ponto percentual é até insuficiente, mas se fizer 0,50pp está de bom tamanho", avaliou. A maioria dos analistas e economistas espera um corte de 0,25 ponto na próxima semana.   Delfim disse ainda que houve recuperação do crescimento do Brasil graças ao crescimento do crédito e que "é bastante razoável" que o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresça 5% este ano e em 2008.

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