Samuel Corum/Bloomberg via The Washington Post
Prédio do Federal Reserve, nos EUA; dirigentes já não tratam mais a inflação persistente como 'transitória'. Samuel Corum/Bloomberg via The Washington Post

Fed sinaliza que pode aumentar juros antes do previsto e a um ritmo mais rápido

Ata da reunião de política monetária indica que os dirigentes do banco central americano avaliam a possibilidade de fazer um aperto maior para combater a inflação

Matheus Andrade, Letícia Simionato, Gabriel Bueno, Gabriel Caldeira e Francine De Lorenzo, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2022 | 18h47

Os dirigentes do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, avaliaram que pode ser necessário elevar os juros mais cedo e de forma mais rápida do que o esperado, levando em conta as perspectivas para a inflação e para o emprego nos Estados Unidos. A informação faz parte da ata da última reunião da autoridade monetária americana, divulgada nesta quarta-feira, 5. 

O sinal do Fed indica a possibilidade de um aperto maior na política monetária, com efeitos sobre o crescimento da economia americana, o que teria consequências para empresas e economias ao redor do mundo.

A inflação mais elevada e mais persistente nos Estados Unidos levou os dirigentes do Fed a mudar a sua posição. O termo “transitória” foi retirado da avaliação sobre a alta dos preços em 2021. Para a consultoria Capital Economics, a ata do Fed revela uma mudança para uma postura de aperto monetário notavelmente maior da parte dos dirigentes da instituição. O banco de investimentos BMO Capital avalia que a ata confirma os planos do banco central dos Estados Unidos de "seguir adiante com altas" nos juros em 2022. 

Segundo a ata, os dirigentes observaram que os desequilíbrios de oferta e demanda relacionados à pandemia e à reabertura da economia continuaram a contribuir para níveis elevados de aumentos de preços. Outro problema são os gargalos na cadeia e emprego, que também limitam a oferta de produtos. 

Vários dirigentes do Fed julgam que as condições atuais do mercado de trabalho americano estão consistentes com a meta de pleno emprego da autoridade monetária, segundo a ata.  A avaliação reforça a perspectiva de aperto monetário no país, já que a meta de pleno emprego é, junto com a de inflação, determinante para a política monetária.

Além disso, alguns dirigentes que participaram do encontro afirmaram que talvez seja necessário subir a taxa básica de juros nos EUA antes da economia atingir a meta de emprego, caso a inflação e as expectativas para os preços se movam de modo substancial e persistente para cima.

O documento diz que, para alguns dirigentes, pode ser apropriado reduzir o balanço patrimonial do Fed logo após a alta de juros.

Redução do programa de estímulos

Os dirigentes do Fed concordaram na última reunião em reduzir o programa de compra de títulos (uma medida de estímulo econômico) num ritmo maior à luz da evolução da inflação e da melhoria no mercado de trabalho, destaca a ata. O valor das compras foi reduzido a US$ 30 bilhões por mês, sendo US$ 20 bilhões para títulos do Tesouro e US$ 10 bilhões para aqueles ligados a hipotecas. 

Segundo o documento, os participantes do encontro também avaliaram que reduções no ritmo de compras provavelmente seriam apropriadas nos próximos meses, para que o programa de estímulo se encerre em março.

O documento lembra que o fim dessas medidas ocorreria alguns meses antes do que o cronograma previsto na reunião anterior. 

Além disso, os membros da reunião observaram que a autoridade estava preparada para ajustar o ritmo das compras em caso de mudanças na perspectiva econômica, e que era importante manter a "flexibilidade para ajustar a postura da política conforme apropriado", segundo o documento.

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Bolsa recua 2,42% após Fed falar em alta antecipada dos juros nos EUA; dólar sobe

Em ata, autoridades do banco central dos Estados Unidos disseram que pode ser preciso 'elevar os juros mais cedo e a ritmo mais rápido', para segurar a inflação; em Nova York, Nasdaq cedeu mais de 3%

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2022 | 14h30
Atualizado 05 de janeiro de 2022 | 21h29

A sinalização dada por autoridades do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de que pode ser preciso elevar a taxa de juros dos Estados Unidos mais cedo, para conter a inflação, azedou o humor dos investidores nesta quarta-feira, 5. Em Nova York, foi registrada queda superior a 3% para o Nasdaq, enquanto aqui, a Bolsa brasileira (B3) caiu 2,42%, aos 101.005,64 pontos - menor nível desde 1º de dezembro. No câmbio, o dólar subiu 0,39%, a R$ 5,7121, maior patamar desde 21 de dezembro.

No mínima intradia, o Ibovespa bateu nos 100.784,58 pontos, menor nível desde 2 de dezembro passado, então a 100.784,58. Na semana, no mês e no ano, o índice cai agora 3,64%. Em Nova York, Dow Jones cedeu 1,07%, o S&P 500 tombou 1,94% e o Nasdaq teve forte recuo de 3,34%

Em ata divulgada hoje, dirigentes do Fed foram claros sobre a possibilidade de iniciar em breve a alta de juros nos EUA. "Pode ser preciso elevar juros mais cedo e a ritmo mais rápido", afirmaram. A ata cita ainda que desequilíbrios entre a oferta e a demanda continuaram a contribuir para a inflação elevada.

Os sinais mais restritivos sobre a orientação da política monetária americana ainda no começo de 2022 eram um fator aguardado pelos investidores, mas a confirmação, no documento, contribuiu para reforçar a cautela. Desde a manhã, a leitura bem acima do esperado para a geração de vagas no setor privado dos EUA mantinha os investidores em guarda.

Depois da publicação da ata da reunião de dezembro do Federal Reserve, aumentaram as apostas de elevação de juros nos EUA, de acordo com o monitoramento do CME Group: 67,5% delas eram de uma alta de 25 pontos-base em março na taxa de juros e 3,9%, de um avanço de 50 pontos-base; apenas 28,6% das apostas eram de manutenção da política monetária no mês citado. As apostas somadas em ao menos uma elevação de juros em março já superavam 70%, nesta tarde. Ontem, 40,3% delas eram por manutenção; 57,5% de alta de 25 pontos-base e 2,2%, de avanço de 50 pontos em março.

"A ata de hoje nos parece muito mais 'dura' do que o comunicado sugeriu, principalmente no tocante as discussões de política monetária", diz em nota Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos. "Após a surpresa altista observada no ADP hoje", e "caso o payroll (relatório oficial sobre o mercado de trabalho nos EUA, a ser divulgado nesta sexta-feira) confirme tal perspectiva, fica cada vez mais provável a chance de (o Fed) encerrar o tapering (o processo de retirada de estímulos monetários) com a elevação imediata dos juros", acrescenta o economista.

Com o dobro da geração de empregos esperada para dezembro, o forte relatório privado sobre vagas de trabalho nos Estados Unidos em dezembro já reforçava, desde cedo, a perspectiva mais restritiva para a política monetária americana em 2022, o que se conjuga, no Brasil, a crescentes pressões por reajuste de salário para o funcionalismo federal, resultando em aumento da aversão a risco e redução de exposição à Bolsa em meio a persistentes dúvidas sobre a situação fiscal doméstica.

A piora observada na B3 ao longo da tarde desta quarta-feira colocou as ações e setores de maior peso no Ibovespa no negativo, mesmo aqueles que demonstravam desempenho melhor pela manhã, como bancos - com Itaú PN em queda de 1,90%, e BB ON, de 1,66%, e siderurgia, com Usiminas PNA recuando 5,79%, CSN ON, 2,25%, e Gerdau PN, 1,66%.

A exceção positiva foi Vale ON, que conseguiu fechar a sessão em alta de 0,95%. Mesmo com o dia positivo para o petróleo - embora moderado após a ata do Fed -, Petrobras ON e PN encerraram a sessão em queda, respectivamente, de 4,10% e 3,87%.

Câmbio          

O tom duro da ata do Fed e a cautela diante do temor de piora das contas públicas, em meio à onda de reivindicação de reajuste salarial por servidores públicos federais, não apenas jogaram o dólar para cima como fizeram o real amargar um dos piores desempenhos entre as divisas emergentes na sessão desta quarta, atrás apenas do rublo e da lira turca. 

Pela manhã, o mercado até ensaiou um movimento de realização parcial de lucros, após a alta de 2,05% da divisa nos dois primeiros pregões do ano. Em sintonia com o movimento expressivo de queda da moeda americana lá fora, a taxa de câmbio rompeu a linha de R$ 5,65 e desceu até a mínima de R$ 5,6428. Na máxima, a moeda atingiu R$ 5,7131.

Mesmo antes da divulgação da ata do Fed, contudo, o dólar já ganhava força por aqui, embora ainda se mantivesse em leve queda, na casa de R$ 5,68. Segundo operadores, após movimentos de ajustes e realização de lucros pela manhã, investidores remontavam posições defensivas, à espera do BC americano e de olho na movimentação do funcionalismo público. Pesou no mercado a notícia de que 150 auditores-fiscais do Trabalho já deixaram postos de chefia ou coordenação, seguindo a toada de servidores da Receita Federal e do Banco Central, que entregaram cargos de chefia. Categorias diversas pressionam por reajustes após o governo reservar espaço de R$ 1,7 bilhão no Orçamento de 2022 contemplar apenas polícias federais.

Após a ata, o índice DXY - que mede a variação do desempenho do dólar frente a seis moedas fortes - diminuiu rapidamente o ritmo de queda e voltou a trabalhar acima da linha dos 96,100 pontos. A moeda americana também reduziu a baixa em relação à maioria das divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com leve alta frente ao peso mexicano, o principal par do real. O  dólar subiu mais de 2% em relação a lira turca e ao rublo, que já vinham apanhando mesmo antes da ata do Fed.

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