Sarahbeth Maney/The New York Times - 30/11/2021
Sarahbeth Maney/The New York Times - 30/11/2021

Fed tem reunião decisiva nesta quarta; saiba o que esperar da política de juros nos EUA

Federal Reserve, o banco central americano, é pressionado a retirar estímulos econômicos e a subir a taxa de juros por causa da alta da inflação e da situação mais confortável no mercado de trabalho

Jeanna Smialek, The New York Times

15 de dezembro de 2021 | 05h00

Em meio à alta da inflação e à recuperação no mercado de trabalho nos Estados Unidos, as autoridades do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) estão revendo a sua posição. Em vez de apoiar medidas de estímulos econômicos, os diretores do banco central americano passaram agora a considerar uma retirada mais rápida das medidas que impulsionam a economia desde que a pandemia começou. 

Em reunião de política monetária que se encerra nesta quarta-feira, 15, é esperado que o Fed anuncie uma redução mais rápida do seu programa de compras de títulos e dê indicações sobre o quão agressivo pode ser o próximo ciclo de alta de juros no país no ano que vem. Atualmente, as taxas estão no patamar de 0% a 0,25%. 

O potencial da decisão do Fed para a política monetária faz dessa reunião, que deve terminar às 16h (horário de Brasília), uma das mais vigiadas desde o início da pandemia. 

O Fed deu o primeiro passo para retirar a ajuda à economia em novembro, quando anunciou uma desaceleração do programa de compra de títulos que estava em vigor desde o começo da pandemia. Nas semanas desde a última reunião de política monetária, novos dados mostraram que os preços ao consumidor estão subindo no ritmo mais rápido em quase 40 anos e a taxa de desemprego caiu para 4,2%, muito abaixo de seu pico. 

Dadas as tendências de inflação e crescimento da economia, as autoridades do Fed sinalizaram que discutiriam a retirada do estímulo econômico mais rapidamente neste encontro, e os economistas acham que as autoridades devem sinalizar um plano para reduzir as compras de títulos para que a compra seja interrompida totalmente em março (a previsão inicial era junho). 

O banco central americano também deve indicar sua visão mais recente para as taxas de juros em suas projeções econômicas trimestrais atualizadas e pode incluir dois ou três aumentos de juros no ano que vem. 

Economia em recuperação

Quando o Fed divulgou as projeções pela última vez em setembro, as autoridades estavam divididas sobre se iriam aumentar as taxas em 2022. 

Aumentar a taxa básica de juros é a ferramenta mais poderosa do Fed para conter a inflação, porque desaceleraria a demanda e o crescimento econômico, elevando os custos de empréstimos imobiliários, financiamentos a empresas e crédito para compra de veículos.

No final de novembro, Jerome Powell, o presidente do Fed, preparou o terreno para adotar uma postura mais focada em manter a inflação sob controle do que em estimular a economia. 

“Neste momento, a economia está muito forte e as pressões inflacionárias estão altas e, portanto, é apropriado, em minha opinião, considerar encerrar a redução de nossas compras de ativos, que de fato anunciamos em nossa reunião de novembro, talvez alguns meses antes” disse Powell disse durante depoimento no Congresso em 30 de novembro. 

O presidente do Fed deve explicar melhor durante uma coletiva de imprensa após a reunião na quarta-feira como ele está pensando sobre a política do banco central para enfrentar a inflação rápida, em um momento em que o vírus não mostra sinais de enfraquecimento e uma nova variante, a Ômicron, complica as perspectivas. 

Inflação persistente

O Fed passou grande parte de 2021 pisando em ovos, na esperança de remover o estímulo econômico em um ritmo gradual o suficiente para que o mercado de trabalho se recuperasse completamente. 

Mas o gradualismo deu lugar à cautela nas últimas semanas, em parte graças a uma nova série de dados mostrando que a inflação ainda está alta e pode permanecer elevada por algum tempo. 

A autoridade monetária sabia que os preços subiriam no início de 2021, à medida que a economia se recuperasse do tombo da pandemia, mas os aumentos foram surpreendentemente amplos e duradouros. 

A alta de preços está se ampliando para além dos bens sensíveis à pandemia e para o aluguel e alguns serviços, e os salários e as expectativas de inflação estão aumentando. “Eles estão percebendo que precisam parar de jogar gasolina no fogo”, disse Gennadiy Goldberg, estrategista de taxas da corretora T.D. Securities

Mercado de trabalho

O Fed tem duas funções principais: manter os preços estáveis e promover o emprego no nível máximo. O progresso na segunda área foi notável nos últimos meses. A taxa de desemprego caiu drasticamente, chegando a 4,2% em novembro e melhorando mais rapidamente do que as autoridades do Fed ou a maioria dos economistas esperavam. 

Mesmo assim, ainda há uma diferença de 4 milhões de empregos em comparação com o nível antes da pandemia. Algumas dessas pessoas podem ter se aposentado, mas espera-se que outras voltem à procura de emprego assim que diminuam as preocupações com a saúde e as dificuldades para cuidar dos filhos no horário de trabalho. 

Os diretores do Fed esperavam manter suas políticas de estímulo quando essas pessoas voltassem. Mas a inflação está forçando a equilibrar sua visão para o mercado de trabalho com o objetivo de manter os preços sob controle. 

Embora seja ruim para as famílias americanas ter um mercado de trabalho ainda parcialmente recuperado, também o são os aumentos de preços altos e imprevisíveis, que prejudicam os salários e dificultam o planejamento das empresas. 

Além disso, se o Fed esperar muito tempo para reagir à inflação, o temor é que eles possam ter que aumentar drasticamente as taxas de juros mais para frente para contê-la, deflagrando uma recessão. 

“Temos que equilibrar essas duas metas quando elas estão em conflito como estão agora”, disse Powell em depoimento em 1º de dezembro. “Mas garanto que usaremos nossas ferramentas para garantir que essa alta inflação que estamos experimentando não se torne entrincheirada. ”

Salários e preços mais altos

Embora muitos diretores do Fed digam que a inflação deve diminuir, muitos sinais sugerem que ela corre o risco de permanecer alta por muito tempo. As empresas relatam que estão aumentando os salários ou guardando dinheiro enquanto se preparam para elevar os pagamentos aos funcionários. 

As empresas - de lojas a pizzarias - estão aumentando os preços e descobrindo que os consumidores aceitam a mudança. Mesmo as empresas que adotam uma abordagem cautelosa para elevar os preços expressam incerteza sobre quanto tempo levará para normalizar o fornecimento de peças e insumos que estão empurrando para cima os preços. Diretores do Fed reconhecem que os problemas de fornecimento devem durar até o próximo ano. 

Enquanto isso, Wall Street debate quanto e quão rápido o Fed pode aumentar as taxas de juros, e observa de perto quantos aumentos a autoridade monetária deve projetar. “Achamos que é deve ficar entre dois ou três aumentos estimados”, escreveram economistas do banco JP Morgan em um relatório, observando que o mais provável são três aumentos. Eles esperam que o Fed aumente as taxas a partir de junho de 2022 e, em seguida, aumente novamente a cada três meses.

O plano não será necessariamente frear a economia, retirando os estímulos econômicos rapidamente. Em vez disso, será parar de ajudar tanto a economia, disse Diane Swonk, economista-chefe da corretora Grant Thornton. “O Fed vai tirar o pé do acelerador”, disse ela. A novidade nesta reunião é que a desaceleração do estímulo estará acontecendo "ainda mais rápido".

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