Federações de indústrias montam caravanas para fazer compras na China

Organizações que combatem a 'invasão chinesa' levam empresários brasileiros para importar máquinas, insumos e até produtos acabados

Raquel Landim, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

Marcelo Nunes, diretor comercial da Corel Pinceis, esteve na China em outubro. Em visita à feira de Cantão, ele tinha dois objetivos: verificar as novidades e encontrar um novo fornecedor de matérias-primas. A Corel fabrica pincéis e esponjas de maquiagem.

O empresário conheceu na feira um fornecedor de cerdas sintéticas para os pincéis. A Corel está importando a cabeça dos pincéis, que representa 40% do valor final do produto. No Brasil, o principal concorrente da Corel são justamente os pincéis que chegam prontos da China. Ou seja, para sobreviver, o empresário abre mão de insumos nacionais.

Marcelo é apenas um dos empresários que decidiram fazer negócios com o "inimigo". As indústrias aproveitam o dólar barato, que fechou a R$ 1,55 sexta-feira, para importar máquinas, insumos e até produtos acabados.

Conforme a Embaixada da China no Brasil, a concessão de vistos de negócios a brasileiros cresceu 57%, de 7.467 em 2009 para 11.724 de janeiro a outubro de 2010 (últimos dados disponíveis). Muitos empresários embarcam com visto de turista, cuja demanda avançou 37%, de 18.450 para 25.223.

Pequenos e médios empresários vão em "caravanas", já que a China não é um país fácil de visitar, por causa das barreiras de idioma e cultura. Essas missões comerciais se alastram pelo País e são organizadas pelas próprias federações de indústrias, que combatem a "invasão chinesa".

Três entidades se destacam nas viagens: a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e a Câmara Brasil-China e de Desenvolvimento Econômico (CBCDE). E o destino é o mesmo: Cantão, no sul da China.

A feira de Cantão tem duas edições por ano - abril e outubro -, cada uma com três fases. A primeira fase é a mais procurada pelos brasileiros, porque concentra os fabricantes de máquinas. A feira é gigante. Na edição de outubro, serão 1,13 milhão de metros quadrados com 57.136 estandes e 23.559 exibidores.

A CNI dá apoio institucional a uma missão organizada pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), oferecida a todos os Estados. Na próxima viagem, em outubro, 120 empresas de 15 Estados devem acompanhar a "caravana" a Cantão e a feiras em Macau e Hong Kong.

"Tentamos estimular a ida não só de empresas interessadas em comprar, mas de companhias que queiram vender produtos brasileiros. O objetivo é promover a exportação", diz Tatiana Porto, gerente de comércio exterior da CNI. "É importante o empresário entender como as indústrias chinesas funcionam."

Pioneira. A Fiesc foi pioneira e organiza essa missão há oito anos - nos últimos cinco, em parceria com a CNI, a iniciativa se tornou nacional. "O câmbio desestimula a exportação, mas é uma oportunidade para renovar o maquinário", diz o diretor de relações industriais e institucionais da Fiesc, Henry Quaresma. "Não estimulamos a importação de bens finais, mas insumos podem trazer competitividade."

De acordo com Jandir José Milan, presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt), os empresários também visitam fábricas e participam de bate-papos com autoridades locais. "Precisamos entender como a China funciona." A Fiemt organiza missões para a China desde 2007.

Outra iniciativa que atrai a atenção é da Associação Comercial de São Paulo, com duas missões por ano que levam cerca de 140 pessoas. A ACSP é multissetorial, mas a maior parte dos viajantes é da indústria.

"Quando começamos, achei que ia atrair o pessoal da 25 de Março, mas não foi o que aconteceu", diz Sidnei Doca, gerente do departamento de comércio exterior da ACSP. "A indústria está em busca de máquina e insumos para ganhar competitividade."

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