Feijão sobe 150% no ano e vira o vilão da inflação

Aumento assusta consumidor e faz produto encalhar nos supermercados; com isso, preços já começam a recuar

José Maria Tomazela, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

No supermercado Carolina, no centro de Taquarituba, a 315 km de São Paulo, a dona de casa Carla Bérgamo, 29 anos, hesita alguns segundos antes de pôr no carrinho o saquinho com um quilo de feijão por R$ 4,90. Ela observa que o preço baixou: na semana anterior estava a R$ 6. O preço equivalia ao do pacote com 5 quilos de arroz em oferta na mesma gôndola. "Feijão em casa virou luxo: é uma colherzinha por pessoa." Carla é uma das poucas donas de casa que saíram do supermercado levando o alimento que mais subiu de preço nos últimos meses. Acumulando cerca de 150% em menos de um ano, foi o produto que mais pressionou o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), medido pela Fipe, em dezembro. Com alta de 30,45% em uma semana, o popular feijão foi acusado de alimentar a inflação. A fama cobrou seu preço: o consumidor se assustou e, na semana passada, nos campos do sudoeste paulista, a cotação da saca de 60 quilos, que chegou a R$ 280, tinha despencado para R$ 110, ou R$ 1,83 o quilo. Ali mesmo em Taquarituba, na fazenda Cateto, a 5 km do supermercado, o produtor Valmir Sérgio Mendes, de 44 anos, não conseguia desovar um estoque de quase 200 sacas recém-colhidas. "O preço subiu demais e o feijão encalhou nas prateleiras." Para não perder seu ganho, o comerciante não baixa o preço, mas também não vende e deixa de fazer encomendas.Além do produto paulista, entrou no mercado o feijão do norte de Minas Gerais e logo chega a produção paranaense. A nova oferta também ajudou a baixar a cotação. Nos últimos dias, a queda no valor da saca tem sido de R$ 10 por dia. "O grão de ouro era só folheado", comparou. A família de Mendes é produtora tradicional - o pai plantava e três irmãos cultivam - e já se acostumou com o risco do feijão. "É uma loteria, pois a lavoura depende do humor de São Pedro." Depende, ainda, de muitos cuidados sanitários para evitar um grande número de pragas e doenças. Se tudo vai bem no campo, aí o risco é não ter preço. No ano passado, Mendes vendeu feijão a R$ 60 a saca. Este ano, o preço menor que ele conseguiu foi o dobro. O produto é vendido a intermediários que o repassam ao distribuidor. Só então chega ao comércio. Nessa andança, o preço dobra. "Só de ICMS são 18%", calcula Mendes. Depois tem a quebra na secagem e na escolha, a embalagem e, claro, o lucro de cada elo dessa cadeia. "Quem banca o risco e menos ganha é o produtor." Mendes gosta de correr o risco, por isso recusou propostas para arrendar as terras para a cana. E também porque investiu em tecnologia e irrigação e não quer ver máquinas paradas. "Somos agricultores, não usineiros." Segundo o agrônomo Vandir Daniel da Silva, da Secretaria da Agricultura do Estado em Itapeva, o que explica a alta no preço do feijão é a estiagem de 90 dias entre julho e outubro. Na região, nesse período, se caiu um chuvisco foi muito.Só os produtores mais tecnificados e com sistemas de irrigação, como os Mendes, conseguiram plantar e colher. Na região de Itapeva, a maior produtora do Estado, a área cultivada caiu de 9 mil para 6 mil hectares. O rigor da estiagem afetou os mananciais e alguns produtores ficaram sem água para irrigar a lavoura. Mesmo com irrigação, a produtividade foi baixa. Eurides Dognani, de Taquarituba, colheu apenas 45 sacas por hectare - seria normal colher de 60 a 65. O custo de produção também subiu para R$ 2,4 mil por hectare. Por isso, segundo Silva, o recorde no preço do feijão teve pouco efeito sobre a renda dos agricultores. "Quem se beneficiou foi uma minoria."Há casos de produtores que ganharam pequenas fortunas. Em Itaberá, um desses sortudos vendeu 600 sacas à média de R$ 240, o que rendeu bruto, numa semana, R$ 144 mil. O agrônomo Jarde Ramos Júnior, de Capão Bonito, vendeu sua produção a uma média de R$ 190 a saca, "um bom preço". Por causa da cotação alta, muitos produtores anteciparam o plantio da segunda safra, que ocorre entre janeiro e fevereiro, para o fim de dezembro. A manobra é de altíssimo risco, segundo Ramos. "Se o clima continuar assim, o calor vai abortar a florada." Nos restaurantes de rodovias, os caminhoneiros reclamam: o tradicional carioquinha foi substituído pelo feijão-preto, mais barato. "Feijão claro, só quando o preço baixar", diz a atendente Regina Célio, de uma churrascaria na Rodovia Raposo Tavares, em Itapetininga. Nos supermercados da região de Sorocaba, o preço do feijão novo, carioca, oscilava entre R$ 5,60 e R$ 6. Já o feijão preto estava entre R$ 3 e R$ 3,50. FIM DE UM CICLO A instabilidade dos preços para o produtor, que em algumas semanas oscilaram mais de 200%, é uma das causas da queda no plantio do feijão em São Paulo, segundo o agrônomo Vandir Daniel da Silva, da Secretaria de Agricultura. Há seis anos, o Estado de São Paulo cultivava 180 mil hectares nas duas safras anuais.Este ano, a área plantada não chegou a 140 mil hectares. Só para comparar, a cana-de-açúcar ocupa 3 milhões de hectares paulistas. "Os custos da agricultura subiram muito, por isso o agricultor busca as opções de menor risco", diz Silva. No caso dos grãos, a preferência recai sobre os produtos que são commodities, com preços regulados pelo mercado mundial, como soja, milho e trigo.

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