Feitiço a desativar
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Feitiço a desativar

A economia mundial parece viciada em juros baixos e entraria em convulsão com uma temporada de desintoxicação

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2016 | 21h00

Bem mais do que um simples buraco, como diz o nome, Jackson Hole é aprazível cidade ao pé de cordilheiras, no Estado de Wyoming, Estados Unidos.

Lá começou nesta quinta-feira o encontro anual de presidentes de bancos centrais e de especialistas em Política Monetária. Desta vez, a reunião ganha especial importância não propriamente porque pode arrancar da presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos), Janet Yellen, alguma informação sobre a retomada do processo de alta de juros, mas porque pode aprofundar o diagnóstico sobre o esgotamento das políticas de juros dos grandes bancos centrais.

Desde o início da crise de 2008, as autoridades que administram as grandes economias se recusam a salvar o sistema, seja porque não disponham de recursos fiscais para uma vasta intervenção keynesiana de investimentos ou porque evitam a adoção de programas dolorosos de austeridade. Nessas condições, os grandes bancos centrais foram induzidos a injetar profusões de moeda com o objetivo de lubrificar a economia e impedir a depressão que se desenhava.

Embora não estejam equipados para impulsionar crescimento e emprego, como vem lembrando o vice-presidente do Fed, Stanley Fischer, um a um, os grandes bancos centrais assumiram essa megatarefa supostamente salvadora.

O despejo de moeda empurrou os juros globais a níveis próximos de zero (ao ano) ou, em alguns casos, a juros negativos, situação inédita cujas consequências não estão nem um pouco claras.

Essa enorme expansão de moeda parece ter evitado depressão tão profunda quanto a dos anos 30. A inflação vem se mantendo muito próxima de zero tendendo para a deflação, mas o crescimento das economias maduras é raquítico. E os bancos centrais já não sabem o que fazer para desativar o feitiço.

Há hoje mais de US$ 10 trilhões zanzando pelos mercados, bancos e grandes instituições já têm de pagar para manter seus depósitos e, no entanto, a economia mundial enfrenta pasmaceira enervante.

Há três anos, autoridades e especialistas discutem se o Fed deve reverter a operação realizada e a que velocidade. Não se trata de sugar dólares com canudinho, como Coca-Cola. As injeções de moeda foram feitas por meio de compra de títulos, que, em consequência da crise, estavam largados. Perfazem os mesmos US$ 10 trilhões em ativos, hoje nos balanços dos bancos centrais. O enxugamento dessa dinheirama de volta aos bancos centrais terá de ser feita por meio da revenda de títulos. O principal efeito tende a ser a superoferta desses ativos e sua desvalorização. Como o comprador desses títulos gastaria menos para obtê-los, o rendimento (yield) sobre os juros preestabelecidos em contrato ficaria proporcionalmente mais alto. Daí a alta dos juros, que será tanto maior quanto mais intensa for essa reversão de liquidez.

Não há criação de riquezas (aumento do PIB global) em volume suficiente que fosse capaz de absorver a nova oferta de títulos que se seguisse ao saneamento dos balanços dos bancos centrais. Enquanto isso, a economia mundial parece viciada em juros baixos e entraria em convulsão se fosse obrigada a uma temporada de desintoxicação e abstinência da droga.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução dos segmentos do crédito livre e direcionado.

Devagar

O crédito vai evoluindo muito lentamente. No período de 12 meses terminado em julho, cresceu apenas 0,2%, mas nos 7 primeiros meses do ano caiu 3,2%. Essa pasmaceira não se deve à baixa oferta de crédito, mas à redução da demanda que, por sua vez, tem a ver com a recessão e o excessivo endividamento. Esse ponto é importante porque grande número de políticos entende que falta crédito e, por isso, defende políticas de incentivo à maior oferta de financiamentos.

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