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Felicidade Nacional Bruta

Crescimento econômico virou imperativo, mas não há aí nenhuma novidade histórica

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2019 | 05h00

Crescimento econômico virou imperativo. Falta de crescimento do PIB derruba governo ou impede a reeleição, tornou-se necessidade e pressuposto de qualquer política. Não passa pela cabeça de ninguém que um país possa renunciar ao aumento persistente da renda e do emprego.

E, no entanto, essa exigência é uma novidade histórica. Nenhum imperador chinês da dinastia Ming, nenhum faraó do antigo Egito, nenhum rei da Pérsia, nenhum imperador romano, nenhum sultão otomano, nem mesmo os reis absolutistas do Ocidente pensaram em política centrada no crescimento econômico. 

Naqueles tempos, a riqueza ou já existia, como minas de ouro e de prata, ou era produzida de maneira limitada, como rebanhos e colheitas de grãos. A maneira mais conhecida como os grandes chefes empilhavam riquezas era ou pela pilhagem ou pela arrecadação de impostos. Na Idade Média, a cobrança de juros era monstruosidade punida severamente pela Igreja, porque equivalia a roubar o endividado. Ninguém imaginava que a concessão de créditos pudesse pôr em marcha investimentos que, por sua vez, produzissem empregos e riquezas.

Apenas a partir do Iluminismo (séculos 17 e 18), economistas e dirigentes passaram a entender que o crescimento econômico é consequência do emprego maciço de capital, trabalho e tecnologia, como sistematizou depois a teoria neoclássica.

O grande salto de crescimento econômico aconteceu no século 18 com a Revolução Industrial, graças ao aumento da produtividade proporcionada pela invenção da máquina a vapor e das estradas de ferro. Logo depois, no final do século 19, veio a segunda explosão gerada pelo largo emprego de energia elétrica, da água encanada e do motor movido a combustíveis fósseis. Hoje, fala-se da terceira onda tecnológica, puxada pelo computador, pela digitação, pela telefonia móvel e pela internet. Mas nenhum estudioso entende que essa nova fase tenha o mesmo dinamismo das anteriores.

As economias mais ricas vão convergindo em direção à inexorável estagnação. Enquanto isso, as economias atrasadas (ou subdesenvolvidas) já não podem contar, como antes, com a arrancada proporcionada pelas economias maduras. A nova percepção é a de que há limites para o crescimento econômico, mesmo que novos desenvolvimentos tecnológicos sobrevenham para garantir avanços de produtividade.

A crença em crescimento econômico perene não encontra nem justificativas históricas nem filosóficas. Na década de 60, o Clube de Roma advertia para a limitação da oferta de matérias-primas. O aumento da produção esbarra nas fronteiras do que é ecologicamente sustentável. No entanto, mesmo que não seja uma impossibilidade física, crescer indefinidamente para quê? Vale a pena continuar a perseguir o progresso para além do Bojador e dos eventuais abismos que oculta? Ou não seria melhor prosseguir sem pressa, aceitando os limites que a natureza impõe ao ser humano e a si própria?

Num primeiro momento, talvez a compulsão do crescimento econômico sirva como instrumento destinado a derrotar a pobreza. Mas e depois disso? Essa pergunta pode parecer prematura em países que estão longe de acabar com a miséria e se desenvolver, como o Brasil. Mesmo assim, é preciso olhar além, para que não se perca o ponto de chegada.

Em todo o mundo crescem as pressões para que as Contas Nacionais deixem a obsessão materialista de medir apenas a riqueza nacional bruta (PIB), mas se voltem para acompanhar a Felicidade Nacional Bruta, ou seja, o grau de satisfação de uma sociedade, este, sim, objetivo de corações e mentes.

Pode-se avançar nesse caminho, mas essa questão puxa outra, a de saber o que seja essa tal felicidade social que se quer medir. O objetivo do homem e da sociedade em que vive, tal como o entendemos, não é propriamente ser feliz, mas estar feliz quando existem razões para isso, coisa que o crescimento e a melhor distribuição da renda, por si sós, não garantem.

Quando acontece, seja no âmbito individual seja no coletivo, a felicidade nem sempre é percebida: “Eu era feliz e não sabia”, cantava Ataulfo Alves. Ou chega quando não se espera: “Felicidade se acha em horinhas de descuido”, escreveu Guimarães Rosa.

E, como relatam Heródoto e Plutarco, no século 6.º antes de Cristo o legislador ateniense Sólon advertiu Creso, rei da Lídia, o homem mais rico em seu tempo, que, em vida, ninguém pode ser considerado feliz.

Diante de conceitos como esses, como promover e como medir a felicidade de um povo? E, no entanto, muitos economistas vêm tentando.

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