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Prever o desempenho do PIB é uma incógnita enquanto houver dúvidas sobre auxílio

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2020 | 04h00

A dispersão das estimativas do mercado financeiro para o crescimento da economia brasileira em 2021 impressiona, uma vez que o desempenho do PIB no primeiro trimestre ainda é uma incógnita enquanto permanecer a dúvida entre analistas se o auxílio emergencial será prorrogado ou não para os três primeiros meses do ano que vem.

É bom lembrar que, quando o valor do auxílio era de R$ 600, o governo socorria os brasileiros mais vulneráveis aos impactos da pandemia do coronavírus injetando na economia R$ 50 bilhões ao mês. Esse estímulo caiu para R$ 25 bilhões mensais quando o benefício foi prorrogado em mais quatro parcelas até o fim deste ano.

“O primeiro trimestre de 2021 será chave para o resultado final do ano”, diz o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale. Ele estima um crescimento de 0,8% no primeiro trimestre e 3,4% para o ano de 2021.

“Um resultado positivo no primeiro trimestre torna praticamente certo um avanço acima de 3% no ano e mostra que a economia ganha dinâmica própria, para além dos suportes governamentais”, explica. “Se for negativo, parte do carrego se perde e sugere que a economia não vai ter forças para crescimento robusto no restante do ano.”

Megale calcula que o carrego estatístico, isto é, a herança do PIB de 2020 para 2021, é de quase 2,5%. Mas há economistas que estimam que esse carrego de 2020 será de 3,5%, o que implicaria crescimento orgânico zero ou muito tímido da economia no ano que vem. Para 2021, as estimativas de expansão do PIB vão de 2,0% até 5,30%.

Foi em razão, em grande parte, do auxílio emergencial que a economia brasileira se recuperou mais rapidamente do tombo provocado pela paralisia súbita com as medidas de distanciamento social adotadas no auge da pandemia para conter o avanço da covid.

Vários analistas e integrantes do governo chegaram a falar em recuperação em “V” da economia com o resultado recente de alguns indicadores de atividade, como vendas do varejo, que, em outubro, subiram 0,9% ante setembro, acima do consenso das projeções do mercado, de alta de 0,20%. Muitos dizem que esse resultado ainda refletiu o valor de R$ 600 do auxílio emergencial. Não à toa, a dúvida é: o que acontecerá com a economia quando o impulso fiscal do auxílio for retirado?

Em vez de um estímulo mensal de R$ 25 bilhões, como tem sido com o valor de R$ 300, a injeção de recursos na economia a partir do mês que vem seria de apenas R$ 2,9 bilhões, ao se dividir por 12 o orçamento de R$ 34,8 bilhões do programa Bolsa Família, proposto na lei orçamentária de 2021.

Megale não trabalha com a hipótese de extensão do auxílio emergencial. “O impacto de uma eventual prorrogação tem efeitos secundários”, ressalta. “Se, por um lado, recompõe a renda de grande parte dos brasileiros no curto prazo, por outro, a elevação do risco fiscal pode ter, como impacto, uma depreciação cambial e, consequentemente, algum choque de inflação, corroendo o poder de compra das famílias mais pobres e piorando as perspectivas de emprego e renda.”

Para ele, a mediana das projeções para o crescimento de 3,50% do PIB em 2021 na pesquisa Focus, do Banco Central, já incorpora o fim do auxílio emergencial.

“Ainda assim, a projeção tem um grau particularmente elevado de incerteza, dado que é difícil estimar o impacto do fim do auxílio sobre o consumo”, diz Megale. “Além disso, não sabemos a extensão da atual onda de contaminação da covid-19 e seu impacto na economia.”

Na semana passada, uma pesquisa do Ranking Broadcast Projeções, com estimativas de 61 analistas, mostrou desde contração de 3,55% a crescimento de 1,63% do PIB do primeiro trimestre de 2021.

“Com a política fiscal se tornando contracionista, o peso de sustentar a retomada recairá sobre a política monetária”, diz Megale.

Para ele, o BC manterá os juros básicos inalterados em 2,0% até o fim do primeiro semestre de 2021, o que sustentará o crédito.

Apesar do otimismo recente dos mercados globais com as notícias sobre vacinas contra o coronavírus, a imunização de boa parte da população brasileira provavelmente não acontecerá no primeiro trimestre, compensando o potencial fim do auxílio.

*É COLUNISTA DO BROADCAST 

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