Egberto Nogueira/Divulgação
Egberto Nogueira/Divulgação

'Inflação é persistente, mas não está fora de controle', diz economista-chefe do Bradesco

Fernando Honorato Barbosa prevê o pico da inflação no País em 12 meses em abril, a 11,83%

Renata Pedini e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2022 | 10h00

A inflação no País deve ser mais persistente, avalia o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, que prevê o pico em 12 meses em abril, a 11,83%. O câmbio apreciado, a desaceleração das commodities e a recomposição dos reservatórios das hidrelétricas  aumentam a probabilidade de uma desaceleração no ano. Ainda assim, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) fecha 2022 bem acima da meta, de 3,5% (tolerância de 2% a 5%). "Nem o teto parece plausível", diz, em entrevista ao Estadão/Broadcast, dada na Cidade de Deus, sede do Bradesco.

Hoje, o banco estima 6,9% de IPCA para este ano, com viés de alta por causa da inflação de março divulgado na sexta-feira, 8, com avanço de 1,62%. Segundo Honorato, "não vai ser sem esforço" voltar a ter inflação consistente com o centro da meta. "E o esforço tem de vir de uma sinalização muito clara de uma política fiscal consistente", afirma, independente de quem for o próximo presidente da República. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

O Bradesco revisou recentemente as expectativas de inflação para cima, mas manteve a Selic ao fim do ciclo em 12,75%. Qual é a explicação, já que muitas instituições já veem até 14,25%?

O Relatório Trimestral de Inflação e o (presidente do Banco Central) Roberto Campos Neto foram contundentes em reafirmar a intenção de parar em 12,75%. Isso no contexto da ata do Copom, quando o petróleo estava mais ou menos a US$ 110,00 e o dólar, perto de R$ 5,00. De lá para cá, as commodities caíram bastante, o câmbio apreciou para R$ 4,70, R$ 4,60, o IC-Br (Índice de Comodities do BC) devolveu a guerra (os ganhos acumulados no início do conflito) e o cenário foi todo para o lado do que o BC acredita, de menos inflação. Mas um pedaço da inflação de 3,9% que projetamos para 2023 tem a ver com os fertilizantes, que estão subindo 40% em dólar. Combinando tudo, entendemos que o BC vai parar em 12,75% e só começará a cortar (os juros) mais lá na frente. Após o IPCA e a fala do Campos Neto (na manhã de segunda, 11), esse call está sob avaliação, mas os dados até a reunião de junho é que definirão se o BC irá elevar os juros acima de 12,75% ou se de fato irá parar neste nível.

Não haveria alguma Selic entre 12,75% e 14,25% que pudesse ser adotada para o BC entrar no ano que vem, de novo governo, já cortando juro?

Certamente existe uma Selic que garanta a inflação no centro da meta em 2023. Não sei dizer em quanto. Mas o que temos são os trade-offs (a escolha entre as políticas e seus efeitos). Com o tamanho do choque que vivemos em função da guerra, não sei se é uma boa política monetária lutar contra esse choque a qualquer preço. Os BCs estão acomodando um pouco da inflação. Isso também deve estar no radar do nosso Banco Central. É um cálculo de overkill (exagero) de trade-off. É claro que o BC pode elevar a Selic a 14,25%, mas compensa, para ganhar 0,5 ponto porcentual, se há um choque de fertilizantes e petróleo, perder algo entre 0,5 e 0,8 ponto de PIB? Há incertezas gigantescas que têm a ver com as commodities, em particular petróleo, e câmbio, que podem mudar muito esse cenário.

Se o BC tivesse começado a subir o juro antes, não estaríamos mais preparados para os problemas que chegaram?

Tenho de dar uma resposta consistente com o que eu mesmo achava. Eu achava que ele não devia ter subido o juro tão cedo. Eu errei no diagnóstico de inflação. Então, aos olhos de hoje, sim. Ele demorou. Ele cortou demais a taxa de juro.

Ele cortou demais ou demorou a retomar o processo de subida?

As duas coisas. Cortou demais, mas essa eu tinha reconhecido. Quando chegou em 2% ao ano, escrevi em artigo (no Broadcast) que o juro não devia ter caído tanto. Mas é fácil a gente criticar com os olhos de hoje. Era um momento de pandemia, não se sabia se o mundo ia colapsar ou não, se teria uma crise financeira ou não. Ele fez um teste, eu discordava do nível, mas é vida que segue. Na volta, não só eu, mas os economistas, de modo geral, erraram no processo inflacionário e meu erro foi não ver aquela desvalorização cambial gigantesca, com o dólar indo a R$ 5,70. Pensamos: vai dar inflação. Só que, em seis meses de IPCA, de março a agosto de 2020, o IPCA colapsou e o acumulado no período foi de 0,24%. Nosso diagnóstico à época foi o de que o câmbio veio, mas o hiato (do produto, a diferença entre o que está sendo efetivamente produzido e o potencial de produção da economia)  estava segurando a inflação.

Mesmo porque o juro era suficiente para trazer a inflação, que fechou 2021 em 10%, para 4% em 2022...

Exatamente! Nossa primeira revisão de diagnóstico mostrou que não foi o hiato (segurando a inflação) e sim a pandemia. Foram os lockdowns. As famílias estavam em casa, as empresas, paralisadas e os serviços, fechados. Não tem repasse de preços num ambiente em que as coisas não estão funcionando. Esse foi o grande erro de diagnóstico que eu, pelo menos, cometi. Quando reabriu, começamos a ficar preocupados com a inflação. O segundo erro foi por causa do tamanho do estímulo produzido no País. O governo despejou quase R$ 800 bilhões na economia. A recessão foi mais rasa porque o mundo se provou mais eficiente para combater a pandemia. Quando se despeja o dinheiro, a economia faz um "V shaped" (crescimento em V) real. Daí, para encher a inflação, vêm os gargalos de oferta, falta de semicondutores, problemas de suprimento de várias matérias-primas, e o resto todo mundo conhece. Se eu estivesse lá no BC, teria errado com eles.

O BC diz que espera o pico da inflação em abril. Há alguma chance de bater 14% em 12 meses, como alguns falam no mercado, prolongar esse período de inflação pressionada e o BC incorrer em erro se parar de subir a Selic?

Como o IC-Br devolveu a guerra, o que sobrou deste fenômeno todo é a piora que a gente já vinha observando no IPCA, piora dos núcleos e piora dos serviços. Isso não me parece suficiente para chegar a 14%. Esse não é o nosso número. Nosso pico é em abril, 11,83%, e volta a ceder. Em paralelo, a recomposição dos reservatórios (das hidrelétricas) leva à bandeira verde. Por isso, acho muito difícil um pico de 14% de IPCA.

De qualquer forma não deixa de ser uma inflação persistente, não é?

É uma inflação persistente sim, mas não acho que é uma inflação que esteja fora de controle e que o passo dela seja acelerar. A política monetária está apertada, a política fiscal meio neutra, não é propriamente contracionista, e o câmbio está apreciando. Então, não espero que a gente erre de novo nesta proporção.

O ano de 2022 está dado ou perdido?

Não tem mais o que fazer. 2022 terá uma apreciação gigantesca do câmbio e, mesmo assim, para a meta não dá. Sobre o nosso 6,9%, nós pensamos muito antes de publicá-lo porque o nosso tracking (monitoramento) diário estava até um pouco acima dos 6,9%. Decidimos por dar um pouco de crédito para a apreciação cambial. Então, ainda que 2022 não tenha como atingir o centro da meta, nem o teto parece plausível, acho que aquele movimento do 7,5%, 8% do IPCA que a gente viu logo que eclodiu a guerra pode refluir. Vai depender do câmbio e do petróleo.

Ainda no campo da inflação, caberia uma mudança de meta?

Eu acho inapropriado, porque tem um choque global e isso leva a um grau maior de tolerância com a inflação no mundo. E, no Brasil, as bandas existem para acomodar um pedaço deste choque. Dito isso, eu entendo que nossas metas precisam de um reforço, que é qual política fiscal vai prevalecer no Brasil nos próximos anos. Eu quero crer que vamos ter um arcabouço fiscal apropriado no próximo mandato, qualquer que seja.

Sem uma política fiscal consistente, teremos dificuldades para colocar a inflação na meta?

Não vai ser sem esforço para o Brasil daqui para a frente voltar a ter inflação consistente com o centro da meta. E o esforço tem de vir de uma sinalização muito clara de uma política fiscal consistente. Não precisa ser necessariamente o teto de gastos. Pode haver alternativas, mas tem de parar de pé. Se parar de pé, vamos discutir em qual nível a inflação se estabiliza. Se não parar de pé, eu não sei qual será essa equação. Porque, se tem um BC autônomo, vamos ter uma meta ambiciosa se não tiver política fiscal, e aí vamos ter uma discussão sobre um nível de juro bem mais elevado. Para mim, esse é um dilema que poderá aparecer em 2023.

O que levou vocês a aumentarem de 0,50% para 1% a projeção de crescimento do PIB este ano?

Quatro fatores de resiliência da nossa economia. O primeiro são as contas externas. Nossa estimativa para este ano é de um déficit perto de zero. Isso tem valor em momento de guerra e ano eleitoral, é um baita ativo importante. Nas contas externas, a dívida é de US$ 80 bilhões, mas temos reservas de US$ 360 bilhões. Não há risco de solvência aqui. O segundo ponto é a solvência corporativa. As empresas listadas na B3 têm o menor nível de endividamento em quase 20 anos. Estão pouco alavancadas e não precisam demitir. Tem o caixa do Tesouro, que pode atravessar um ano inteiro sem precisar fazer rolagens de dívidas. Por último, no mercado de trabalho, 3 milhões de empregos foram gerados este ano, dos quais 1,2 milhão formais, o que dá um certo conforto de que a economia terá um mínimo de crescimento. Ainda que 1% seja pouco, em um ano de guerra, ajuda.

Essa ausência de risco de solvência está por trás de todo esse capital que vimos entrar no País?

Acho que isso conta muito para a nossa taxa de câmbio de R$ 4,70, R$ 4,60.

E nisso o aumento de juro nos Estados Unidos não está influenciando muito?

Até o estágio de juro neutro nos EUA, de fed funds (títulos do Tesouro americano) até 2,50%, não muda nada. Agora, se for para 4,5%, vamos discutir uma aversão maior ao risco.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.