CEZAR MAGALHÃES/ESTADÃO
CEZAR MAGALHÃES/ESTADÃO

Festival de inovação nos EUA vai ter destaque brasileiro

Banco social e projetos criados por Embraer, Ambev e Natura representam o País em evento que ocorre de 9 a 13 deste mês

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

Quatro projetos de origem e orçamentos distintos, que vão de um banco social criado com R$ 15 mil ao desenvolvimento de uma tecnologia bilionária de “carros voadores”, vão subir ao palco da seção do festival South by Southwest um dos maiores eventos de inovação do mundo.

Depois da formação de uma parceria local para aumentar a participação brasileira no SXSW, o País deverá ter este ano maior visibilidade em debates sobre soluções para grandes temas globais – como mobilidade, redução da pobreza e desenvolvimento sustentável – no festival.

A agência Lynx, que pertence à Holding Clube, de José Victor Oliva, comprou, no fim do ano passado, os direitos de organizar quatro painéis no SXSW – que acontece em Austin, nos Estados Unidos. Para garantir a relevância dos conteúdos, diz a sócia-diretora da Lynx, Wal Flor, a opção foi selecionar projetos de grandes empresas que tinham resultados concretos para mostrar. 

Apesar de os espaços de conteúdo do festival serem comercializados – estratégia comum em grandes eventos globais –, Flor conta que a seleção passou pelo crivo da organização do SXSW. Antes de fechar os painéis com Natura, Embraer e Ambev, outras propostas foram descartadas. A executiva diz que, para empresas brasileiras, o festival também poderá ser uma ferramenta de visibilidade no mercado americano.

Dos projetos selecionados, o mais antigo – e com mais resultados a apresentar – é a Ekos, da Natura. Embora a linha de produtos tenha sido lançada em 2000, o desenvolvimento começou dois anos antes – ou seja, há duas décadas. Para fazer a extração sustentável de princípios ativos da Amazônia, a empresa teve de desenvolver um sistema de produção e remuneração das comunidades locais. 

“Faremos questão de mostrar que se trata de um projeto que usa a floresta de forma sustentável, que faz parte de um negócio de escala global”, diz Andréa Alvares, vice-presidente de marketing da fabricante de cosméticos. A Natura, que teve receita de R$ 11 bilhões em 2016, comprou a britânica The Body Shop no ano passado.

Inovação comunitária. A Natura abrirá espaço, em seu painel, para a história de uma de suas consultoras, Maria Ivoneide Vale, da Ilha do Mosqueiro, em Belém. Ela começou a atuar como revendedora da marca em 1988, mas vai a Austin para falar de uma iniciativa própria: o Banco Tupinambá, criado em 2009 para atender à comunidade Baía do Sol, com 8 mil habitantes. 

Com um patrimônio de R$ 15 mil, o banco mantém uma moeda social para conceder pequenos empréstimos aos moradores. Os valores giram de R$ 30 a R$ 100 e ajudam famílias em necessidades básicas. Como o valor é pago na moeda social – o moqueio –, o dinheiro só pode ser usado na Baía do Sol. 

O resultado, segundo Maria Ivoneide, foi o aumento da renda circulando na comunidade. “Antes, 2% da renda era gasta em negócios locais. Hoje, o índice é de 94%.” Além dos recursos para o moqueio, o Banco Tupinambá também mantém convênio com a Caixa Econômica Federal para liberar crédito a empreendedores.

Também no âmbito social, a Ambev vai apresentar uma inovação que deu origem a projetos de acesso à água no semiárido brasileiro. Para garantir recursos, a gigante brasileira das bebidas criou um novo produto, a água mineral Ama. Lançado há um ano, o produto já angariou cerca de R$ 1,4 milhão para beneficiar quatro Estados até o fim deste ano: Ceará, Pernambuco, Bahia e Piauí.

Carros voadores. A Embraer vai mostrar no festival americano um projeto de tecnologia de ponta que ainda está em fase de desenvolvimento. A fabricante brasileira aceitou o desafio do Uber para desenvolver uma aeronave elétrica urbana capaz de fazer viagens curtas a preços acessíveis – um protótipo é esperado para 2020. O desafio de longo prazo é ambicioso: viabilizar viagens de 100 quilômetros – distância aproximada entre São Paulo e Campinas – por cerca de R$ 75. 


TRÊS PROJETOS

Saiba mais sobre os projetos de inovação das empresas brasileiras


Embraer

A fabricante de aeronaves Embraer está mobilizando equipes de engenheiros em sua matriz – em São José dos Campos (SP) – e em suas unidades no Vale do Silício, na Flórida, e em Massachusetts, nos Estados Unidos, para pensar o futuro da mobilidade urbana. Esses profissionais trabalham para viabilizar o desafio que a brasileira aceitou do Uber: a criação de um protótipo de uma aeronave elétrica leve para transporte em curtas distâncias.

O desenvolvimento do projeto, que deverá ter os primeiros testes comerciais em 2023 – nas cidades americanas de Austin e Los Angeles e em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos –, é sigiloso. No entanto, segundo uma fonte, a fabricante trabalharia em um “carro voador” de quatro lugares, e não de dois, como sugeriu o Uber inicialmente. Procurada, a empresa não quis dar entrevista.

Há vários parceiros trabalhando com o app de transporte no projeto, mas a Embraer – que atualmente negocia uma união com a gigante americana Boeing – é o maior deles. A intenção da brasileira, apurou o Estado, é incentivar sua equipe de 6 mil engenheiros para pensar não só as aeronaves em si, mas os sistemas de tráfego aéreo e outras necessidades de infraestrutura para permitir que os veículos possam sobrevoar as cidades com segurança. 


Ambev

Uma máquina de marketing e vendas, a gigante das bebidas Ambev usou uma de suas maiores habilidades corporativas – a de pôr em prática rapidamente as ideias consideradas inovadoras – para um fim social: garantir o acesso da população das regiões mais secas do País à água. E foi com a criação de um novo produto, a água mineral Ama, que a Ambev está financiando projetos de captação e fornecimento de água no Nordeste brasileiro.

Segundo Carla Crippa, diretora de sustentabilidade da companhia, da ideia inicial ao lançamento da Ama, em fevereiro do ano passado, não se passaram mais de seis meses. O produto, que está completando um ano, já captou cerca de R$ 1,4 milhão referente a lucros – dos quais quase R$ 940 mil foram utilizados em projetos. Um site foi criado para informar os consumidores sobre o faturamento e a destinação dos lucros. Todo o processo é auditado pela KPMG.

Como acontece com todo o portfólio de produtos, a Ambev está colocando o pé no acelerador para garantir a expansão mais rápida da Ama. Inicialmente vendida apenas em supermercados, a água mineral agora entrou no “circuito” de entregas para bares e restaurantes no início de 2018 – o que deve colaborar para aumentar significativamente as vendas e ampliar os valores distribuídos. 


Natura

O projeto Ekos precisou definir valor para produtos que não são negociados em bolsa de mercadorias, mas que sempre foram usados pelas comunidades que vivem na região amazônica. Em paralelo, a empresa precisou estudar essas espécies do ponto de vista científico para garantir que elas tivessem eficácia dentro dos exigentes padrões da indústria global de cosméticos.

Lançados originalmente em 2000, os produtos Ekos são hoje a segunda mais importante linha de cuidados com a pele para a Natura. Para que a proposta de sustentabilidade não se perca, a empresa precisa respeitar o ciclo natural de produtos como ucuuba e murumuru. “Se as árvores estiverem produzindo, a linha estará disponível para a venda. Se não estiverem, é necessário esperar o próximo ano ou escolher outro produto. Esse é o conceito”, diz Andréa Alvares, diretora de marketing da empresa de cosméticos.

No painel em Austin, a Natura vai se concentrar especialmente na ucuuba, espécie que corria risco de extinção na região amazônica antes de começar a ser usada em cosméticos. Para a fabricação do sabonete de ucuuba – que será lançado em 2018 –, a empresa montou um esquema de produção agroflorestal de outro ingrediente da composição do produto, o óleo de palma.

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