Adriano Machado/ Reuters
Tereza Cristina, ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro; com guerra entre Rússia e Ucrânia, governo brasileiro tenta buscar alternativas de importação de fertilizantes Adriano Machado/ Reuters

Acordo com Canadá prevê aumento de importação de fertilizantes em 400 mil toneladas

Tratativas não envolvem acordos comerciais entre os dois países, mas sim contratos diretos entre empresas privadas; coube à ministra Tereza Cristina a garantia de que irá reduzir ao máximo a burocracia alfandegária

André Borges, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2022 | 15h15

BRASÍLIA - As negociações com o Canadá para ampliar a importação de fertilizantes ao Brasil devem resultar na entrada de aproximadamente 400 mil toneladas do insumo no Brasil, um volume 10% superior ao que os canadenses já exportam para o País, algo em torno de 4 milhões de toneladas por ano.

O Estadão apurou que essa é a projeção que foi apresentada à ministra da Agricultura, Tereza Cristina, na viagem que fez ao Canadá, nesta semana. O governo brasileiro tenta buscar alternativas de importação do insumo, devido às dificuldades impostas pela guerra entre Rússia e Ucrânia. A Rússia é o maior vendedor de fertilizantes para o Brasil, que agora busca alternativas para evitar o eventual desabastecimento deste insumo fundamental para a produção agrícola.

As tratativas do Brasil com o Canadá não envolvem acordos comerciais entre os dois países, mas sim contratos diretos entre empresas privadas. Do lado do governo, o que coube à ministra Tereza Cristina, além da sinalização política e diplomática, foi a garantia de que irá reduzir ao máximo a burocracia alfandegária nos portos brasileiros, acelerando a entrada dos navios canadenses no Brasil, com prioridade nas filas de entrega. Sobre impostos, não há mais o que fazer, porque todos os tributos brasileiros já foram retirados.

O porto de Paranaguá é a principal porta de entrada dos fertilizantes. Em 2021, 11 milhões toneladas do insumo entraram no Brasil pelo porto paranaense, um crescimento de 14,5% em relação a 2020. Sozinho, Paranaguá respondeu por 28% do total importado por todos os portos nacionais.

As empresas canadenses Mosaic e Nutrien, que já atuam no Brasil, controlam praticamente 85% da produção de fertilizantes naquele país. Juntas, elas também são donas da empresa Canpotex, que faz toda parte de negociação e logística dos insumos, desde a saída das minas, até seu embarque em navios e entrega em outros países, como o Brasil. Tereza Cristina se encontrou com os executivos dessas empresas, em sua passagem pelo Canadá.

Do lado das empresas, há interesse em ampliar as exportações, mas as companhias também pedem um acordo de médio e longo prazo, porque a ampliação de produção implica em investimentos pesados para mineração e transporte. Na prática, querem a garantia de que terão demanda, mesmo que a situação internacional com a Rússia se resolva mais rapidamente.

“A visita da ministra foi bem-sucedida. Há um enorme respeito no Canadá por ela. A visita foi em cima de questões técnicas", disse ao Estadão o embaixador do Brasil no Canadá, Pedro Borio.

Produção nacional. O governo brasileiro reforçou seu interesse em projetos de produção nacional de potássio, projetos que também interessam aos canadenses, que já são donos da maior parte dos pedidos de pesquisa de potássio no Brasil. A Mosaic, por exemplo, é dona de mina de potássio em Sergipe.

Aministra Tereza Cristina destacou que a necessidade de produção nacional já era uma prioridade há mais de um ano. “Essa super dependência das importações tem que mudar. Nós não queremos ter autossuficiência, mas temos que produzir 40%, 50% das nossas necessidades, para estarmos mais calçados se isso acontecer de novo”, disse Cristina.

Os dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) apontam que, em 2021, o Brasil importou um total de 39,2 milhões de toneladas do insumo, um crescimento de 19,3% em relação a 2020, quando 32,8 milhões de toneladas entraram no País. A produção nacional de fertilizantes chegou a quase 7 milhões de toneladas, o equivalente a 15% do total consumido.

O Brasil adquire no exterior aproximadamente 85% do volume aplicado anualmente nas lavouras. A Rússia é uma das principais exportadoras do insumo para o Brasil e, em janeiro, respondeu por 30,1% dos adubos e fertilizantes que entraram em território nacional, segundo informações do Ministério da Economia. Durante os 12 meses do ano passado, os russos foram responsáveis por 23,3% de todo fertilizante que entrou no Brasil. Mesmo com o conflito, embarques de fertilizantes da Rússia continuam a chegar no Brasil.

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Brasil vai importar picanha do Canadá e vender carne 'magra'

Brasil deve exportar carne do gado zebu, mais magra e que costuma ser utilizada no mercado internacional; do lado canadense, porém, o que predomina são raças de origem europeia, como o angus, que é mais entremeada de gordura

André Borges, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2022 | 15h15

BRASÍLIA - O consumidor brasileiro vai passar a comer picanha de gado canadense – ao menos, o consumidor que puder pagar por isso. O acordo comercial de carnes firmado nesta semana entre o Brasil e o Canadá vai incluir, como contrapartida, a entrada de cortes canadenses “mais gordos” em território nacional.

A carne brasileira que será exportada, majoritariamente, é a do gado zebu, uma carne mais magra e que costuma ser utilizada no mercado internacional para produção de alimentos industrializados. Do lado canadense, porém, o que predomina são raças de origem europeia, como o angus, que tem a característica de ser uma carne mais entremeada de gordura.

A JBS Foods, que já tem unidade no Canadá, deve centralizar boa parte dessas transações, levando cortes brasileiros até os canadenses e, paralelamente, despachando picanha e demais cortes para o consumidor brasileiro a partir de sua base em Calgary.

Pelas regras atuais de comércio internacional, o Canadá administra uma cota de importação de até 76 mil toneladas de carne por ano. O Brasil vai entrar na disputa de parte dessa cota e deve disputar espaço com o Uruguai, que hoje exporta cerca de 15 mil toneladas de carne aos canadenses.

Na segunda-feira, 14, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, estava no Canadá, quando anunciou a abertura do mercado e o fato de que o Brasil ultrapassou a marca de 200 novos mercados externos para produtos agropecuários abertos desde o início de 2019.

Para a carne bovina, a exportação está liberada para todos os Estados que ainda fazem a vacinação de rebanhos contra a febre aftosa. No caso da carne suína, por enquanto a exportação só está autorizada para os frigoríficos de Santa Catarina, único Estado que já é reconhecido como livre de febre aftosa, peste suína clássica e peste suína africana. O ministério entrou com um pedido de reconhecimento do Paraná e do Rio Grande do Sul como estados livres dessas três doenças.

Hoje o maior vendedor de carne e demais alimentos para o Canadá são os Estados Unidos, país que tem relação de livre comércio com os canadenses e que, portanto, não disputa cotas de importação. O Brasil passaria a ter esse mesmo tratamento, caso o acordo Mercosul-Canadá seja consumado, o que ainda não aconteceu.

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Governo Bolsonaro quer produzir alga exótica no mar do Nordeste para substituir potássio

Medida teria como objetivo reduzir a dependência do Brasil na importação de fertilizantes

André Borges, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2022 | 15h48

BRASÍLIA - Uma das alternativas avaliadas pelo governo Jair Bolsonaro para reduzir a dependência do Brasil na importação de fertilizantes passa pela criação de algas exóticas em áreas do litoral do Nordeste. O biofertilizante feito a partir dessas plantas já é utilizado por alguns produtores rurais e teria potencial de ser expandido com a criação de "fazendas marinhas". Especialistas no setor, porém, alertam para o risco dessas algas, que têm origem nas Filipinas, se espalharem e comprometerem regiões de recifes e espécies de peixes. 

Por meio de um tipo de rede de contenção, mudas dessas macroalgas são amarradas e permanecem boiando na água, onde se reproduzem rapidamente, chegando a ter seu tamanho ampliado em até 10% a cada dia. O secretário da Pesca, Jorge Seif Júnior, afirma que as macroalgas usadas como fertilizantes (espécie conhecida pelo nome científico Kappaphycus alvarezii) já são produzidas há anos em determinadas regiões do litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. O potencial na Região Nordeste, porém, seria muito maior, por causa da maior incidência de luz e calor, além da salinidade superior nesta região. 

"Estamos atuando junto ao Ibama para que essa produção possa ser estendida ao Nordeste brasileiro. Lá no Nordeste, graças à incidência solar e temperatura, podemos produzir dez vezes mais do que produzimos no Sul do Brasil", disse Seif Júnior, em vídeo publicado em redes sociais. "A nossa secretaria não é só tilápia, camarão e atum. Nós também regulamentamos a produção de macroalgas, que podem contribuir com a independência brasileira desses insumos."

Para especialistas em flora e fauna marinhas, a reprodução de algas de outros países exige profunda cautela, sob riscos dessas espécies não nativas se transformarem em uma ameaça às espécies locais. Estudos técnicos internacionais apontam que o tipo de alga que o governo brasileiro pretende cultivar no Nordeste já causou problemas de invasão em países como Índia, Venezuela e Tanzânia, na África Oriental.

"Uma das principais causas de perda de biodiversidade no planeta é a introdução de espécies invasoras. O Brasil é dono de uma das maiores biodiversidades do planeta. Não se trata de ser contra o cultivo de algas, mas do fato de termos espécies nativas que podem ser usadas para isso", diz Ana Paula Prates, especialista em Biodiversidade Marinha do Instituto Talanoa.

No Ceará, por exemplo, afirma Prates, há anos é realizado pela comunidade local o projeto 'Mulheres de Corpo e Alga', que produz plantas marinhas da região que abastecem a indústria do agronegócio, além de gerar renda para famílias da comunidade de Barrinha, no município de Icapuí. "É um ótimo projeto que reintroduziu a espécie local e aumentou o cultivo dessa alga nativa da região".

O especialista Paulo Horta, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirma que o cultivo da espécie exótica no Estado não apresentou problemas, porque a alga originária das Filipinas não tem grande resistência à baixa salinidade e à temperatura da região. No Nordeste, porém, diz Horta, a situação seria outra.

"O cultivo da alga em si é importante e relevante, mas o risco deve ser profundamente avaliado. Quando falamos de levar essa espécie para o Nordeste, podemos favorecer uma invasão, porque as condições da região se aproximam muito das condições comumente encontradas em sua área de origem, o que acelera muito a proliferação", explica Horta.

Quando espécies se espalham como monoculturas, diz o professor, tendem a consumir todos os recursos locais. "A espécie passa a competir com substratos de algas nativas e que são importantes para o ecossistema da região. Ela também passa a crescer sobre os corais, o que prejudica os sistemas recifais, produzindo mortalidade e branqueamento."

Por meio de nota, a Secretaria de Aquicultura e Pesca (SAP) declarou que as linhagens dessas algas das Filipinas (Kappaphycus alvaresii) produzidas no Brasil "não se reproduzem de forma espontânea, (não esporulam, ou seja, não tem reprodução assexuada), sendo que sua propagação acontece a partir de mudas, que não se fixam naturalmente, como em rochas, navios, lixo entre outros".

Segundo a SAP, essas mudas, quando soltas no ambiente marinho, "são carregadas para praia, onde perdem água e morrem em poucos dias por desidratação".

A secretaria afirmou que o Ibama, órgão responsável por autorizar o cultivo da espécie, emite licenças baseadas em "estudos biológicos que avaliam, entre outros aspectos, o potencial invasivo da espécie, dando segurança e fazendo proteção ao ambiente natural e às espécies nativas".

"Só após a liberação do cultivo pelo Ibama e o ordenamento realizado pela Secretaria de Aquicultura e Pesca é que os cultivos poderão ser implantados, de forma responsável, trazendo diversificação aos produtores, incremento na sua renda, aumento de oferta do produto e também auxiliarão na fixação da comunidade tradicional nos seus territórios, oportunizando ainda a entrada de novas pessoas na atividade", declarou. 

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