FGV não vê perigo de descontrole inflacionário

Apesar dos recentes dados mostrando alta nos preços, os riscos de um descontrole inflacionário estão descartados, acredita o coordenador de análises econômicas da FGV-RJ, Salomão Quadros. Defendendo a tese de que o caráter recente da inflação é sazonal, o economista afirmou que não têm sido observados aumentos generalizados nos componentes inflacionários. Segundo ele, o tom "alarmista" da ata do Copom tem seu lado positivo e responsável em relação às sinalizações de cautela com a inflação. "Mas daí a dizer que o País não cumprirá a meta inflacionária é uma conclusão apressada", avalia. Ele lembra que ainda estamos no primeiro mês do ano e que, em breve, haverá a safra agrícola, que garantirá queda de preço de diversas commodities. "A ata trouxe um convite a reflexões novas, levando a crer que a meta de inflação (5,5%) não será cumprida com os pés nas costas", afirmou. "O que parecia fato consumado, vai dar mais trabalho do que se esperava", mas, pondera, "o Brasil tem tudo para atingir seu objetivo e, mesmo que o IPCA do ano fique em 8%, não significa que estará configurado um descontrole inflacionário, até porque este porcentual será inferior ao do ano passado. Os temores do mercado e do governo com os reajustes industriais estão sendo superdimensionados, avalia ele. "A alta neste setor não é tão generalizada como parece à primeira vista. Apesar da dimensão toda que este assunto tem ganho, a discussão, na verdade, resume-se a alguns grupos isolados", acredita. Ele cita, especialmente, o grupo de metais e siderurgia, que estaria trabalhando com a capacidade estourada. "Siderurgia está a pleno vapor, exportando imensamente, já que a demanda externa está superaquecida. E ainda temos que levar em conta que a matéria-prima (minério de ferro) vem subindo há dois anos, o que explica os reajustes". Segundo o economista, o setor de siderurgia tem motivos de sobra para aumentar preços, mas a tendência não é a mesma para os demais grupos. Além disso, destaca, mesmo o movimento de reajuste promovido pelas siderúrgicas deve se esgotar. "Não posso dizer o dia, nem a hora, mas este movimento vai acabar, já que não há razões para ter alta seguidamente, todo mês", pondera. Ontem, a FGV divulgou o resultado do IGP-M em janeiro, que subiu a 0,88% na comparação com dezembro. O IPA industrial, que responde por 60% da composição do índice, subiu de 0,64% para 0,98%. Questionado sobre se os reajustes do setor de metal e siderurgia chegarão ao varejo, o economista respondeu que este processo ocorrerá de forma diluída. "Apenas uma parcela atingirá os consumidores, já que existe um afunilamento natural, considerando que a matéria-prima é só um dos componentes dos custos", explica. Além disso, há um outro fator envolvido na questão. "Existe uma queda-de-braço entre os empresários e o mercado consumidor, porque, apesar da elevação dos preços, muitas vezes não há renda do outro lado para comprar, já que a demanda não está suficientemente aquecida para comportar os aumentos." Apesar da análise do mercado de que o IPCA-15 de janeiro computou pressões dos bens não-comercializáveis - os chamados non tradeables -, ele discorda da avaliação de que estes itens podem sinalizar que a inflação está chegando ao varejo. "Os não-comercia lizáveis, compostos em sua maioria por serviços, esbarram na questão da demanda, mas eu não veria nisso uma preocupação que possa se reproduzir." Ele sustenta que todos os índices inflacionários virão maiores em janeiro, devido a questões sazonais. Mas, posteriormente, esta pressão deve se aliviada. O IPCA-15 de janeiro ficou em 0,68%, acima da taxa de 0,46% de dezembro. O IPA industrial subiu 1,13%, variação recorde desde abril. Os combustíveis, que são preços administrados, subiram apenas 0,16%, mostrando que a fatia correspondente aos preços livres é que está apresentando altas fortes.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.