FHC diz que atual "turbulência parece que vai ficar"

O presidente Fernando Henrique Cardoso disse na noite desta sexta-feira, em seminário no Rio, ter a impressão de que as turbulências atuais na economia mundial vieram para ficar. Ele lembrou ter enfrentado cinco crises financeiras no governo, mas afirmou que "essa turbulência agora parece que vai ficar, parece que não é passageira". De acordo com ele, muitas vezes a economia real está sadia e "vem uma crise, cujo epicentro não vem da economia real". "Não sei bem de onde vem, só sei dos efeitos que vêm sempre sobre a nossa cabeça." O presidente contou que ouviu o seguinte de um economista de um banco de desenvolvimento: "Estávamos acostumados a calcular o risco. Mas o que está acontecendo é o inesperado". De acordo como o presidente, em seguida o economista lhe disse que não há teoria que explique o que está acontecendo, "talvez a Teoria do Caos". A conversa se deu depois dos ataques terroristas de 11 de setembro do ano passado aos EUA. "Então, está tendo dificuldade de calcular o risco e por isso seca as fontes de financiamento?", questionou o presidente. "Esse é o mundo em que vivemos. Adianta pouco chorar por ele. Temos é que construir caminhos", afirmou. Globalização, Bush, ONU ...O presidente afirmou que houve uma mudança de qualidade na sociedade. "Vivemos hoje um outro momento do capitalismo que se chama globalização. A globalização que mais irrita é a financeira", disse o presidente, lembrando que esse é o tipo de globalização mais recente.O presidente Fernando Henrique Cardoso, referindo-se à necessidade de crédito dos países emergentes, disse que alguma forma de liquidez tem que ser criada. "A Argentina está queimando viva. É possível que se deixe a África do jeito que está? É possível que a Europa se encastele e fique como está por medo de imigrantes?"Segundo ele, o mundo deve voltar a discutir os grandes temas e procurar uma sociedade simétrica e solidária. Ele afirmou também que, "do jeito que as coisas vão, não poderão continuar por muito tempo, com essas turbulências". Disse ainda que o presidente dos EUA, George W. Bush, disse uma coisa verdadeira sobre a ONU: "Ou assume sua responsabilidade ou não é nada."Privatização toscaFernando Henrique Cardoso admitiu que no início do seu governo houve formas "um pouco toscas de privatização". Mas que o País conseguiu ter capacidade competitiva em vários setores. Nas áreas onde não houve privatizações, "a intervenção clientelística tradicional desapareceu", disse. Para ele, a Petrobras, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil são corporações com transparência. "Essa foi uma área de transformação do Estado. Não é de destruição do Estado. É de reconstrução do Estado", afirmou. Segundo o presidente, esse tipo de mudança no papel do Estado foi necessário porque, após anos de hiperinflação, "o Estado estava paralisado pela burocracia, pela falta de recursos, pela corrupção".FHC disse também que um grande braço da atuação do Estado foi na área social, através da centralização e da articulação entre União, Estados e municípios. Segundo FHC, a articulação entre diferentes níveis é difícil porque no País há "caudilhismo, clientelismo, muitos partidos e brigas por vezes inconciliáveis". No entanto, disse, foram conseguidos resultados importantes como a queda da mortalidade infantil.Idéias antigasO presidente afirmou que "essas idéias de que o Estado é que vai fazer, que o partido é que vai fazer, são idéias antigas". De acordo com ele, com todas as dificuldades, entraram US$ 150 bilhões em investimentos diretos no Brasil e, na América Latina, apenas o México e o Chile também tiveram ingressos de investimentos. Ele disse achar ruim que nos outros países isso não tenha acontecido.Fernando Henrique mencionou as diversas recomendações de que é preciso aumentar a poupança interna e lembrou também que o Brasil aumentou a carga tributária. De acordo com ele, isso foi feito para fazer frente ao gasto social, que cresceu de pouco mais de R$ 100 bilhões para cerca de R$ 160 bilhões (não citou o período).O presidente afirmou que não há greve no Brasil e que também não há mal-estar social. Observou também que o endividamento externo que cresceu foi o do setor privado. "O desafio que temos aqui para mudar o processo de desenvolvimento não é simples", afirmou. "A resposta óbvia é aumentar o saldo da balança comercial."Fernando Henrique disse que este ano o saldo comercial deve ser de US$ 8 bilhões, ante US$ 2,6 bilhões no ano passado. "Mas leva tempo. Este é um processo e não se deve cobrar de cada conjuntura o resultado de um processo." Mercado e o EstadoO presidente disse que ouve críticas de que o mercado não vai resolver nada. "Não vai mesmo. Nunca acreditamos nisso", afirmou. De acordo com FHC, houve um reconhecimento de que o Estado partiu de uma profunda crise fiscal. "Hoje, dada a crise fiscal do Estado, é preciso buscar uma espécie de parceria com recursos privados", disse.Segundo o presidente, de certa forma o investimento estrangeiro direto substituiu os recursos que o Estado não tinha. O presidente afirmou que, depois do Plano Real, entraram US$ 150 bilhões de investimento direto estrangeiro e apenas a China recebeu mais do que isso.Fernando Henrique frisou que não houve "aceitação passiva das idéias que podem estar sendo prevalecentes pelo mundo afora". E que o que ocorreu é que era necessário adaptar o Estado a dificuldades de falta de recurso e de outros efeitos dos anos de hiperinflação que, de acordo com ele, desorganizaram profundamente a estrutura fiscal. "A reconstrução do Estado passou a ser necessária para ter alguma definição de objetivos", disse.O papel do Estado, que no passado era de investidor direto, segundo FHC, passou a ser de regulamentador. Ele lembrou, por exemplo, a criação de várias agências regulatórias, como a Anatel e a Aneel, entre outras.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.