FHC não vê sinal para criação da Alca em 2005

Em nova crítica ao protecionismo dos países ricos, o presidente Fernando Henrique Cardoso disse não acreditar que a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) venha a ser criada em 2005, prazo previsto na negociação entre os 34 países do continente, menos Cuba. "Não vejo sinal para isso", declarou FHC ontem à noite, em entrevista a uma emissora de TV do Equador, antes de o Congresso dos Estados Unidos aprovar, na madrugada de sábado, o fast-track. Fernando Henrique também classificou de "mesquinhas" as propostas de integração da União Européia com o Mercosul, especialmente na área agrícola. Segundo o presidente, é "bom" que o Congresso americano tenha aprovado o fast-track. Mas ele ressalvou que antes é preciso verificar eventuais restrições que possam constar no texto. "Temos que ver as condicionalidades, eu não li ainda", disse. "Às vezes aprovam e põem tanta restrição que não adianta muito."O fast-track (autoridade para a promoção comercial) é uma autorização para que acordos comerciais negociados pela Casa Branca com outros países sejam aprovados ou rejeitados pelo Congresso, sem emendas. Isso dá segurança aos demais países de que, caso o acordo seja firmado, ele não sofrerá alterações no Legislativo. "Os sinais que saíram da política econômica americana nos últimos anos têm sido mais protecionistas", disse Fernando Henrique à emissora Canal 1, em Guaiaquil - a entrevista deverá ir ao ar na segunda-feira. Ele citou as restrições dos EUA ao comércio na área de siderurgia e enfatizou que o ceticismo em relação à futura zona de livre comércio não significa falta de interesse do governo brasileiro. "Não que não queiramos, mas eles (EUA) não estão fazendo ofertas nesse sentido."Fernando Henrique também condenou a postura da União Européia, que considera "fechada" no que diz respeito ao mercado agrícola. Comissários de negócios europeus e ministros de Comércio dos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) reuniram-se no Rio, na última terça-feira. "As propostas da Europa foram muito pequenas, muito mesquinhas", disse o presidente. "Queria muito a relação entre Europa e Mercosul, mas os europeus são muito fechados na questão agrícola."EconomiaFernando Henrique disse que, diante do protecionismo dos países ricos, o caminho para a América do Sul é ampliar a sua integração. "Será melhor acelerar a integração sul-americana, porque com isso teremos mais força para a negociação na Alca."Ele admitiu que os países da região enfrentam problemas econômicos e têm dificuldades de investimentos. "Sempre temos alguma dificuldade. Não se pode negar que a situação financeira, não a econômica, mas a financeira do Brasil, não é a melhor do mundo", declarou Fernando Henrique. Ele destacou, no entanto, que a postura do governo brasileiro em favor da aproximação com os países vizinhos é compartilhada por todos os presidenciáveis, de modo que será mantida no ano que vem, quando deixar o Palácio do Planalto. Ao responder uma pergunta sobre o eventual temor, nesse sentido, em relação a um governo do PT, Fernando Henrique foi categórico: "Não temo Lula da Silva nesse aspecto de integração. Nisso estamos totalmente de acordo, não apenas eu e Lula, mas todos os candidatos que estão no Brasil. Todos são favoráveis ao Mercosul e à integração com o mercado andino", disse. "Pode-se ter outros conflitos de opinião, mas não isso."

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