Fiat diz 'ciao' para a Itália para sobreviver

Menos de 10% dos carros vendidosatualmente pela Fiat são feitos na Itália

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL A POMIGLIANO, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2015 | 02h09

Símbolo por décadas do capitalismo industrial da Itália, a Fiat é obrigada a deixar o país e se internacionalizar para sobreviver. Passados 115 anos de sua criação, a empresa tem base na Holanda, residência fiscal no Reino Unido, e uma produção espalhada pelo mundo. Sua principal cotação de ações foi transferida da Bolsa de Milão para Nova York. Além disso, consolidou uma aliança com a americana Chrysler para ganhar os mercados da China e da Índia. E como se não bastasse, o Banco Central chinês passou a ser um de seus acionistas, com participação de 2%.

Nem o nome foi mantido: a Fabbrica Italiana di Automobili Torino, que por anos mostrou seu orgulho por uma relação com uma cidade e um país, hoje é a Fiat Chrysler Automobiles, ou simplesmente FCA.

Sem escolha. A internacionalização não foi uma escolha. A empresa passou perto da falência e viu suas vendas despencarem. Com o início da crise financeira de 2008, ficou claro que não teria como competir com a GM, Volkswagen ou Toyota. Membros da direção da Fiat na Itália revelaram ao Estado como as reuniões entre 2007 e 2009 flertavam com a depressão.

A produção da empresa havia atingido um pico nos anos 70, quando empregava mais de 100 mil pessoas na Itália. Dados da Associação Internacional de Fabricantes de Veículos apontam que, em 1998, a Fiat era a sexta maior fabricante do mundo, com 2,6 milhões de unidades por ano. Só na Itália, a produção chegava a 1,8 milhão de unidades. Dez anos depois, a Fiat produzia apenas 1 milhão de veículos na Itália e era a décima do mundo. Enquanto as concorrentes ganhavam mercados emergentes, principalmente asiáticos, a Fiat viu uma queda na produção mundial, para 2,5 milhões de unidades.

Cinco anos depois da eclosão da crise mundial, os resultados eram catastróficos. As fábricas na Itália produziam apenas 658 mil unidades em 2013, 1,2 milhão a menos que 15 anos antes.

A situação da Fiat era reflexo de um país em decadência. A Itália não crescia há 14 anos. Com desemprego recorde, 43% dos jovens não tinham trabalho. Milhares de jovens deixaram o país em busca de novos mercados. A Fiat decidiu que também seguiria esse caminho.

Ciao. O arquiteto da transformação é o ítalo-canadense Sergio Marchionne. Ao assumir a Fiat, sua meta foi reduzir a dependência do mercado europeu, que em 2004 representava 90% da renda da montadora.

Marchionne saiu em busca de um aliado e uma oportunidade surgiu, ironicamente, por causa da própria crise internacional. Nos EUA, a Chrysler estava falida e vivia praticamente uma intervenção do Estado.

Mas qual o interesse em se aliar a uma empresa falida de Michigan? O acesso ao mercado americano, até então fechado para a Fiat, além de um trampolim para China e Índia.

A histórica sede de Lingotto, em Turim, é o espelho da transformação. O local serviu de linha de montagem entre os anos 20 e 80, chegando a ser destacada pelo arquiteto Le Corbusier como "um dos sítios industriais mais impressionantes". Nos últimos 30 anos, passou a ser a sede da empresa, função que foi em grande parte esvaziada. "O escritório de registro está na Holanda", admitiu a assessoria de imprensa. "Já os escritórios de gestão estão em Londres, pois a empresa tem seu domicílio fiscal no Reino Unido."

Na família Agnelli, que criou a Fiat, as resistências às mudanças foram substituídas por um apoio à aposta. "O nascimento da FCA marca o fim de uma vida precária para a Fiat", disse no ano passado o presidente do conselho, John Elkann, neto do patriarca Gianni Agnelli.

Resultado. A aposta começa a dar os primeiros sinais de que está funcionando. Cinco anos depois, menos de 10% dos carros vendidos pela Fiat são fabricados na Itália. Fábricas na Polônia, Turquia, Sérvia, Brasil e EUA ganharam posição mais relevante. O alvo do marketing mudou. A empresa fechou um acordo de 20 milhões para colocar o nome da Jeep nas camisas do time da Juventus, de Turim. Com exposição global, a esperança é de que o clube ajude a vender carros na Ásia.

As operações na América do Norte, que até 2009 eram deficitárias para a Fiat, passaram a representar 62% dos lucros com a incorporação da Chrysler. Em 2013, sem a divisão americana, a Fiat teria acumulado prejuízos.

"Marchionne não quer abandonar a Itália. Ele quer ser um ator global e, para isso, mudou o centro de gravidade da empresa", disse Erik Gordon, professor da Escola de Comércio da Universidade de Michigan.

Mas, se a Fiat se desgrudou da Itália, a realidade é que, em cinco anos, sua produção saltou e chegou a 4,8 milhões de unidades em 2014. Em outubro de 2014, Marchionne revelou planos de venda de ações da Ferrari. Desde então, o valor de mercado da empresa cresceu 85%.

No ano, o faturamento subiu 11%, apesar de o lucro cair para US$ 650 milhões - redução de 68% em relação a 2013 - por causa de pagamentos pela aquisição da Chrysler. Até na Europa a empresa começou a ter lucros, ainda que pequenos - uma reviravolta depois de 30 trimestres de perdas consecutivas.

"Marchionne conseguiu transformar um fabricante local em um ator global, ainda que isso tenha significado tirar as raízes da Itália", diz Ugo Arrigo, economista da Universidade Bicocca, de Milão.

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