Ficar ou partir

Na Venezuela, multinacionais têm de lidar com controles de preços, restrições cambiais e ameaças de expropriação

The Economist, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2016 | 05h00

Até alguns anos atrás, a venezuelana Eira, de 38 anos, gostava de fazer compras. Agora, num supermercado em Caracas, tudo o que ela vê a sua volta são gôndolas vazias. Ao longo do mês, os venezuelanos passam, em média, 35 horas de seu tempo em filas para comprar alimentos. Entre os poucos produtos disponíveis no supermercado frequentado por Eira estão alguns pacotes de Zucaritas, cereal matinal da Kellog’s, comercializado no Brasil com o nome de Sucrilhos. As cores do musculoso tigre Tony parecem desbotadas. Oficialmente, foi uma modificação adotada para tornar a embalagem mais “ecológica”. Muitos venezuelanos acham que a causa mais provável é a falta de tinta.

A escassez generalizada é reflexo da queda livre em que a Venezuela entrou no governo de Nicolás Maduro. O Fundo Monetário Internacional prevê uma contração de 10% do PIB este ano. A inflação deve superar os 700%. O setor privado está de joelhos. O país nunca foi rico, mas, com as maiores reservas de petróleo do mundo, muitos de seus cidadãos podiam comprar produtos de marcas estrangeiras. Não podem mais. Há anos as empresas têm de se haver com controles de preços, leis trabalhistas estapafúrdias e ameaças de expropriação. De 2003 para cá, sofrem também com restrições cambiais. E a queda dos preços do petróleo expôs ainda mais a fragilidade do sistema. Com a acentuada desvalorização do bolívar, as multinacionais que operam no país amargaram grandes prejuízos. A farmacêutica americana Merck, por exemplo, registrou em 2015 perdas cambiais de US$ 876 milhões na Venezuela.

Para a maioria das empresas não há solução fácil. Há dois anos, a fabricante de produtos de limpeza Clorox resolveu arrumar as malas e partir. Mas, além das vendas que tinha no país latino-americano, a decisão também custou à empresa de Oakland, na Califórnia, alguns ativos: o governo venezuelano se apossou de suas fábricas. Uma estratégia que vem sendo mais utilizada é a “desconsolidação” das subsidiárias. Quando, em determinado país, a situação jurídica se torna demasiadamente restritiva, a ponto de impedir que as multinacionais controlem suas operações locais, a legislação contábil americana permite às empresas registrar suas subsidiárias a valor justo (“mark to fair value”) e classificá-las investimento. Os resultados da holding deixam de considerar os lucros retidos no país problemático, mas a subsidiária continua a existir. A Goodyear e a Ford procederam assim com suas respectivas subsidiárias venezuelanas. É bem verdade que o custo da baixa contábil pode ser salgado: para a Procter & Gamble chegou a US$ 2,1 bilhões. Mas a modificação permite às multinacionais manter alguma presença na Venezuela, na esperança de que o país um dia se recupere.

As que decidem ficar, operam em condições precárias. O governo determina onde os produtos devem ser vendidos, com frequência destinando-os às áreas em que pretende reforçar seu apoio político, explica Risa Grais-Targow, da consultoria Eurasia. Com a escassez atingindo os fornecedores, muitas empresas têm de partir para a criatividade. Exemplo: como não consegue comprar quantidade suficiente de açúcar, a engarrafadora mexicana Coca-Cola Femsa, que pertence em parte à gigante de bebidas americana, concentrou a produção nos refrigerantes diet.

Para os funcionários a coisa também não está fácil. Volta e meia são ameaçados de prisão, já que Maduro atribui a falta de produtos essenciais à “guerra econômica” que empresas estrangeiras e locais estariam promovendo para provocar insatisfação e revolta na população. As empresas não têm como conceder reajustes salariais que acompanhem a inflação. Algumas pelos menos tentam prover uma necessidade básica ou outra: muitos funcionários levam para casa os lanches fornecidos no refeitório da firma, a fim de dividi-los com os familiares. Na opinião de um antigo executivo de uma multinacional, que vive em Caracas, as empresas estrangeiras já deveriam ter ido embora. Mas elas certamente apostam que a perseverança será proveitosa quando, e se, um novo regime assumir o poder.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.