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Ficou mais difícil

Na estagnação, fica tudo mais difícil. O crescimento econômico de 2015, se houver, será muito baixo, inferior a 0,5%.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2014 | 03h41

Na última Pesquisa Focus, levantamento semanal feito pelo Banco Central com 100 instituições do mercado, a média projetada é de um avanço de apenas 0,13%. No seu último Relatório de Inflação, o Banco Central ficou com um avanço do PIB em 2014 de apenas 0,2%.

Isso é como no trânsito. Nos congestionamentos fica difícil mudar de faixa na pista; se houver enchente, não dá para escapar; se for para corrigir um roteiro, as manobras ficam complicadas.

O ano de 2015 será dedicado a ajustes - é o que se espera. E isso implica correção nas contas públicas, recomposição dos preços administrados, manobras para reconversão da inflação para a meta e redução do déficit nas contas externas.

Não está claro ainda até que ponto a nova equipe econômica estará em condições de recuperar a indústria. E há as reformas hoje malparadas: a do sistema político, a da Previdência Social, a do sistema tributário, a das leis trabalhistas. O governo terá, ainda, de repensar o sistema elétrico e o marco regulatório do petróleo, agora sob novas condições de preços.

Enfim, o primeiro mandato do governo Dilma foi de lambanças na economia que produziram distorções. Chegou a hora do pagamento da conta e isso dói. E será mais difícil remar contra a corrente. Esgotou-se a temporada de alta dos preços das matérias-primas (mais de 50% das exportações brasileiras). Os preços do minério de ferro, que se aproximaram dos US$ 200 por tonelada em fevereiro de 2011, estão na faixa dos US$ 65. Soja, milho, açúcar, celulose e tantas outras matérias-primas são negociadas a uma fração dos preços de há alguns anos. Exportações mais baixas implicam redução da capacidade de importar, o que, por sua vez, também restringe o crescimento da renda. Também não cabem mais expedientes contracíclicos: o Tesouro deu o que tinha de dar.

Como atenuante, há a perspectiva de certa recuperação da economia mundial graças, em boa parte, à forte derrubada das cotações do petróleo. É o fator que deverá ajudar a recuperação econômica dos Estados Unidos, da Europa, do Japão e da China.

O primeiro passo para a recuperação foi dado. A equipe escolhida não se presta aos experimentos amadores que prevaleceram no primeiro mandato da presidente Dilma. Mas isso é pouco.

Para conduzir a economia em tempos substancialmente mais difíceis, a equipe econômica teria sua vida facilitada se garantisse a recuperação da confiança do empresário, do consumidor e do investidor externo. Para isso, teria de apresentar um plano previsível e convincente, de pelo menos dois anos e meio, que assegurasse condições para o investimento.

Não há divergência substancial quando se trata de encontrar as saídas. As opções técnicas são conhecidas. O único problema decisivo são as condições políticas, também adversas. A presidente Dilma assume o comando bem mais enfraquecida, em tempo de enchente produzida pelas denúncias de corrupção que solapa sua base política.

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