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‘Fies falhou em direcionar alunos para as necessidades do País’

Para presidente de polo de inovação do Nordeste, não houve planejamento e estímulo à formação em áreas carentes de mão de obra

Entrevista com

Pierre Lucena

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

05 de maio de 2019 | 05h00

Principal polo de inovação do Nordeste, o Porto Digital, do Recife, trabalha com uma perspectiva ousada: dobrar o número de empregos em suas startups ao longo dos próximos cinco anos, para um total de 20 mil vagas. Como esperar que as universidades deem conta desse contingente é impossível, o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, diz que vai lançar mão de programas feitos em parcerias com universidades como a PUC – para acelerar a formação de técnicos em até dois anos. 

 Além disso, o Porto Digital, que hoje abriga um centro de inovação da multinacional Accenture, espera também conseguir apoio do governo para criar um curso de reciclagem de seis meses para engenheiros atraídos a Pernambuco por grandes obras do governo hoje encerradas e “que agora trabalham como Uber”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que falta mão de obra para o setor de tecnologia?

Veja o exemplo do Nordeste: a região como um todo tem 13.117 alunos de Ciência da Computação. E tem 191.325 de Direito. Formamos muito pouca gente na área de tecnologia. O governo utilizou de maneira desenfreada o Fies (programa de financiamento estudantil), mas não planejou ou direcionou os incentivos para as necessidades do País. Na época, como os concursos públicos estavam em alta, houve um incentivo natural para a área de Direito. Mas foi um desvirtuamento de mão de obra e, agora, vamos ter um monte de bacharéis para os quais não haverá necessariamente emprego. As pessoas foram atraídas pelos cargos iniciais do setor público que oferecem R$ 30 mil por mês. Claro que as pessoas preferiam isso a começar como programador por R$ 4 mil. 

Como vai ser viabilizada essa previsão de crescimento?

Apesar de o Porto Digital estar sediado em Pernambuco, há 6.296 alunos na área de tecnologia, ao todo. Então, vamos ter convênios com a Universidade Tiradentes e com a PUC para lançar o curso do Porto Digital, que vai formar pessoas em dois anos. Além disso, vamos montar uma central de pessoas aqui. Hoje, temos 328 empresas. A ideia é facilitar a união entre o profissional que busca a oportunidade e todo o nosso ecossistema. Vamos também atrás de talentos em outros polos nordestinos, como Campina Grande (PB) e Natal (RN). 

Reciclar engenheiros de outras áreas é uma tarefa possível?

A gente está preparando um treinamento de seis meses para engenheiros, pois eles já têm raciocínio lógico para fazer a virada para a área de tecnologia. Mas precisamos de fomento do governo porque esse tipo de curso intensivo é muito caro. O complexo de Suape fez Pernambuco virar um canteiro de obras e chegou a empregar 50 mil pessoas. Atraiu engenheiros civis de todo o Brasil, que agora trabalham como Uber.

Que outro tipo de público pode ser mais bem aproveitado para reduzir o déficit de mão de obra do setor?

As mulheres, definitivamente. Hoje, elas são só 15% do curso de Ciências da Computação na Universidade Federal de Pernambuco. É preciso desmistificar esses estereótipos. A participação feminina pode ser muito maior do que é hoje. 

 

Quantas vagas estão abertas atualmente no Porto Digital? 

Imagine isso: existem 900 vagas abertas em uma região que tem 17% de desemprego. 

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