Fiesp quer união com argentinos contra a China

A China tornou-se o inimigo comum dos empresários brasileiros e argentinos que temem uma avalanche de produtos chineses em ambos mercados. Pela primeira vez, desde a criação do Mercosul, os empresários dos dois países deixaram de lado suas rusgas internas sobre o comércio bilateral para unir forças contra os acordos assinados por seus governos com a China. Essa foi a proposta que o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, levou debaixo do braço para a reunião, ontem à noite, na sede da embaixada brasileira em Buenos Aires, com o chanceler Celso Amorim, e depois, na chancelaria argentina, com os empresários da União Industrial Argentina (UIA) e o chanceler Rafael Bielsa, no âmbito da Coalizão Empresarial Argentina-Brasil"Não devemos bater cabeça entre a gente. A ameaça está lá fora, na China", apelou Skaf, antes de entrar para a reunião. Ele afirmou que no atual cenário, a Argentina e o Brasil precisam deixar de lado os conflitos internos. "Nosso problema não é Brasil e Argentina mas terceiros países. Então temos de deixar nossos problemas de lado porque o foco tem de ser diferente para o bem do Mercosul, do Brasil e da Argentina", destacou o empresário, quem mostrou-se bastante preocupado com os acordos comerciais entre o Brasil e a China. "Essa questão da China merece luz vermelha porque as importações brasileiras da China vão aumentar e não serão de manufaturados porque a China quer exportar produto de valor agregado", advertiu."A China não é economia de mercado porque sua economia é toda estatizada"O presidente da Fiesp atirou contra o reconhecimento da China como economia de mercado por parte dos governos do Brasil e da Argentina. "A China não é economia de mercado porque sua economia é toda estatizada e os preços são artificiais e bastante baixos", opinou, qualificando a decisão como "um grande erro que vai trazer problemas" para a indústria local. Paulo Skaf argumenta que o reconhecimento "vai prejudicar o mecanismo de antidumping porque será muito mais difícil provar o dumping, já que não se poderá mais tomar por base preços de outros mercados mas os da China".Skaf também criticou o governo argentino: "Temos a informação de que a Argentina não vai discriminar nenhum produto chinês mas discrimina produto brasileiro, e isso não dá pra entender", reclamou. Ele propôs ao presidente da UIA, Alberto Álvarez Gaiani, uma frente de batalha para defender as indústrias de ambos países de uma suposta invasão de produtos chineses. Para concluir, Skaf filosofou: "a união vem pelo amor ou pela dor. Creio que esse passo que nossos governos deram vai trazer uma união maior" dos empresários brasileiros com os argentinos. A UIA vinha pedindo e impondo barreiras contra produtos brasileiros, alegando que as importações argentinas do Brasil prejudicam a indústria local. A inédita união empresarial de ambos países mereceu uma ironia e uma advertência do chanceler Celso Amorim: "sempre vejo positivamente os gestos amorosos, mas neste caso, se desenvolvermos uma política comum de defesa comercial, terá de ser para todos, não só para a China".

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