Fiesp teme sobra de energia em 2002 e paralisação de projetos

Depois de ter passado o último ano economizando energia, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) está preocupada agora com a possibilidade de sobrar eletricidade no mercado neste ano, o que afetaria negativamente a disposição de investidores de levarem à frente projetos de usinas térmicas."As usinas termelétricas continuam mergulhadas em um impasse", lembrou o diretor de Infra-Estrutura da Fiesp, Pio Gavazzi, referindo-se às dificuldades de os projetos de centrais térmicas saírem do papel. Gavazzi lembrou que, com o racionamento, os níveis de consumo retroagiram aos índices registrados em 1998.Ao mesmo tempo, foram agregados ao sistema elétrico nestes últimos quatro anos 15 mil megawatts (MW) de capacidade de geração, o equivalente a 25% da potência instalada total em 1998. De acordo com os cálculos de um consultor especializado, deverão sobrar neste ano 2 mil a 2,5 mil MW. "O consumo não acompanhou o crescimento da demanda e não há, portanto, mercado para essa energia", disse o consultor.Prejuízos do racionamentoPio Gavazzi, um dos debatedores do seminário de abertura da 21ª edição da Feira Internacional da Indústria Elétrica, Energia e Automação (FIEE Elétrica 2002), realizado hoje em São Paulo, deixou claro que a indústria ainda não absorveu a idéia de ter de pagar pelos prejuízos resultantes do racionamento de energia elétrica. "A indústria ainda não consegue entender porque tem de pagar o prejuízo das distribuidoras e arcar com os custos da geração emergencial de energia elétrica", disse ele.Pelo acordo fechado entre o governo federal e as distribuidoras de energia elétrica, as indústrias terão suas contas de luz reajustadas em 7,9%, enquanto os consumidores residenciais, por exemplo, deverão pagar reajustes de 2,9%. A decisão foi justificada por fontes oficiais pela existência de subsídios cruzados na política tarifária, que faziam com que as residências pagassem muito mais pela energia que as indústrias, e pelo enorme esforço realizado pelo consumidor residencial para cumprir as metas do racionamento.O diretor da Fiesp acrescentou que a Fiesp havia alertado aos associados, no final de 2000, "sobre a possibilidade de o País ser submetido a um déficit de energia elétrica e recebemos censura por isso". Mas acrescentou que, a revolta da indústria cedeu lugar ao espírito de colaboração, o que acabou contribuindo para que a crise fosse superada.CeticismoEle mostrou-se cético em relação a algumas medidas adotadas pelo governo visando à revitalização do setor elétrico. Sobre a reestruturação do Ministério das Minas e Energia, com a criação de novas secretarias para fazer frente às necessidades do setor energético, ele acrescentou que a indústria tem dúvidas sobre a capacidade do governo de atrair a mão-de-obra qualificada necessária para o ministério. O diretor da Fiesp lembrou que os salários pagos pelo governo são baixos e que este mercado, pela pulverização dos agentes, é muito competitivo.Na opinião de Gavazzi, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), órgão consultivo ligado à Presidência da República encarregado de definir política energética, deveria contar com a participação da iniciativa privada. "O CNPE é chapa-branca", disse ele, referindo-se aos assentos de vários ministérios no conselho.Ele considera ainda que o blecaute registrado em janeiro deixou clara a fragilidade do setor elétrico. "Chegamos à conclusão de que muito terá que ser feito e que São Pedro terá muito trabalho a fazer", disse ele.

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