Figueiredo diz que nível do dólar é exagerado

O dólar acima de R$ 3,60 está num nível muito exagerado, afirma o diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Luiz Fernando Figueiredo. "O regime é flutuante e o BC não define a taxa de câmbio, mas ela está muito mais desvalorizada do que o minimamente razoável." Para Figueiredo, um dos principais fatores que impedem a queda do dólar é que boa parte dos agentes econômicos, como bancos e empresas, por exemplo, não se deu conta de quanto encolheu de fato a necessidade de financiamento externo do País, além de não ter percebido que um dólar nos atuais níveis não só mantém como aprofunda o ajuste das contas externas. "O déficit em contas correntes neste ano, que o BC projeta em US$ 5 bilhões, algo como 1,3% ou 1,4% do PIB, pode ser ainda menor se a taxa real de câmbio seguir nesse patamar". E, prossegue ele, o volume de investimentos estrangeiros diretos deve ficar em US$ 15 bilhões em 2003, ou seja, três vezes mais do que o buraco em contas correntes (que inclui a balança comercial, a de serviços e as transferências unilaterais). "O Brasil nunca teve uma situação externa tão tranqüila." Para Figueiredo, o dólar não cai também porque as pessoas "se acostumaram com uma taxa de câmbio mais alta e acabam achando que esse é o nível de equilíbrio". O temor quanto aos efeitos de uma guerra entre os EUA e o Iraque também ajuda a explicar a resistência da moeda nos atuais níveis. Mas, diz ele, um dos problemas é que muitas análises são feitas como se o Brasil fosse enfrentar essa turbulência internacional com "um déficit em contas correntes de 4,5% do PIB, e não de 1,3% ou 1,4%." Para Figueiredo, o País também não deve ter grandes dificuldades para rolar os US$ 27 bilhões referentes às amortizações de dívidas públicas e privadas com mais de um ano de prazo, que vencem em 2003. Desses US$ 27 bilhões, US$ 10 bilhões podem ser cobertos pelo volume de investimentos diretos que excede o déficit em contas correntes. Além disso, ele estima "conservadoramente" que as amortizações devem ser pelo menos US$ 5 bilhões inferiores a esses US$ 27 bilhões, porque em 2002 o BC e muitas empresas recompraram títulos negociados no exterior que vencem neste ano. Com tudo isso, o País teria de rolar cerca de US$ 12 bilhões das amortizações inicialmente previstas, um número confortável, segundo Figueiredo. Para ele, à medida que os investidores notarem a magnitude real do ajuste externo, o dólar tende a cair. O que pode impedir uma queda mais rápida é o cenário internacional. No entanto, mesmo com um quadro de elevada aversão global ao risco, Figueiredo entende que o Brasil deve sofrer menos do que em crises anteriores . Como esperado, ele não disse qual é o nível de câmbio de equilíbrio na visão do BC. Segundo analistas, uma queda do câmbio seria crucial para aliviar a pressão sobre a inflação, hoje a principal dor de cabeça do BC. Mas, como a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que elevou os juros básicos de 25,5% para 26,5% ao ano e elevou o compulsório sobre os depósitos à vista só será divulgada na quarta-feira, Figueiredo preferiu não falar sobre inflação. No cargo desde 1999 , Figueiredo está saindo do BC, a seu pedido. Ele será substituído por Luiz Augusto Candiota. Mesmo depois de o Senado aprovar o nome de Candiota, Figueiredo deve ficar no BC por mais uma ou duas semanas, para fazer a transição. Depois disso, Figueiredo vai ficar quatro meses de quarentena, durante os quais pretende "descansar muito" e eventualmente dar aulas. Seu futuro profissional, de acordo com ele, ainda não está definido. A seguir, os principais trechos da entrevista. Estado - Um dólar a R$ 3,60 é um nível exagerado ? Luiz Fernando Figueiredo - É, sem dúvida, um overshooting (exagero nas cotações). O regime de câmbio é flutuante, o BC não define e nem tenta interferir na taxa de câmbio, mas sem dúvida é um overshooting. Ela está muito mais desvalorizada do que o minimamente razoável. Com esse nível de taxa real de câmbio, você não apenas mudou o nível de necessidade de financiamento externo, mas continua fazendo um ajuste muito forte. Isso quer dizer que, se a taxa de câmbio real continuar nesse nível, o déficit em contas correntes vai ser muito mais baixo do que se imagina. Esse câmbio não diminuiu para um patamar novo as necessidades de financiamento. Ele continua o ajuste. Estado - Isso quer dizer que um déficit em contas correntes de US$ 5 bilhões, como o BC projeta para este ano, já seria confortável? Não seria necessário reduzi-lo ainda mais? Figueiredo - Não existe país na História que tenha quebrado com um déficit em contas correntes de 1,3% a 1,4% do PIB. Um déficit de US$ 5 bilhões equivale a isso. Além disso, vamos comparar com o volume de investimentos diretos projetados para este ano, de US$ 15 bilhões. Supondo um déficit em contas correntes de US$ 5 bilhões, sobram US$ 10 bilhões. Isso significa que você está sobrefinanciado nas contas correntes. O volume de investimentos diretos é três vezes superior a esse déficit. Estado - Mas, além do buraco em contas correntes, há US$ 27 bilhões em amortizações de dívidas públicas e privadas com mais de um ano de prazo. E como fica isso? Figueiredo - Veja, você tem US$ 10 bilhões de investimentos diretos sobrando, porque está financiando com muita folga as contas correntes. Esses US$ 10 bilhões cobrem parte dos US$ 27 bilhões de amortizações. Ficam faltando US$ 17 bilhões. Mas há outro detalhe importante. Esses US$ 27 bilhões são o valor bruto. Eu vou dar dois exemplos que mostram que o valor efetivo deve ser bem menor. Primeiro, por causa da recompra de títulos da dívida externa feita pelo BC no ano passado. A recompra total foi de US$ 3 bilhões, mas, levando em conta o valor de face dos títulos, o BC abateu mais de US$ 4 bilhões de papéis que vencem os próximos anos (a instituição não divulga, no entanto, o quanto do valor abatido se refere ao vencimento deste ano). Além disso, há um outro fator, ainda mais significativo, que foram as recompras de títulos privados por empresas brasileiras, também em 2002, por meio do envio de dinheiro pelas contas de não-residentes, conhecidas como CC-5 (No ano passado, muitas companhias adquiriram seus papéis no exterior porque os títulos eram negociados com grandes descontos). Acho que, fazendo uma estimativa conservadora, a recompra de dívida externa pelo BC e pelas empresas que vencem neste ano deve atingir pelo menos US$ 5 bilhões. Com isso, em vez de US$ 17 bilhões, o País vai precisar rolar apenas US$ 12 bilhões dos US$ 27 bilhões inicialmente previstos. E, se a taxa real de câmbio continuar nos níveis atuais, a necessidade de financiamento externo do País vai ser mais baixa. O déficit em contas correntes pode cair de US$ 5 bilhões para US$ 2 bilhões, por exemplo. O Brasil nunca teve uma situação externa tão tranqüila. Estado - Por que então o câmbio não cai? Figueiredo - Primeiro, as pessoas se acostumam com uma taxa de câmbio mais alta e acham que esse é o nível de equilíbrio. Segundo, porque muitas pessoas ainda não têm a noção da baixíssima necessidade de financiamento externo neste ano e da capacidade de ajuste que essa taxa de câmbio já produz. Elas continuam a raciocinar como se o País tivesse um déficit em contas correntes de 4,5% do PIB, e não de 1,3%, 1,4%, como no momento. Além disso, os agentes têm esperado o pior em relação ao risco de uma guerra entre os EUA e o Iraque e com uma lógica de que o País que necessita de muito dinheiro. O fluxo não é um problema, porque está bastante positivo, devido às captações de empresas e bancos brasileiros no exterior. A demanda por proteção cambial (hedge), que poderia anular parte do efeito do fluxo, não é das maiores. E não há problemas de oferta de linhas de curto prazo. Estado - Se os agentes econômicos perceberem isso, o câmbio cai imediatamente? Figueiredo - Conforme as pessoas notarem que o fluxo de dólares é positivo, que a demanda por hedge é baixa, que, por mais que o País sinta os efeitos de uma turbulência externa, não vai sofrer tanto quanto sofreu em situações anteriores, não há dúvida que o dólar cai. E vale ressaltar que a moeda quase não tem subido. Nas últimas semanas, o cenário externo piorou bastante, mas o câmbio, o C-Bond e o risco país ficaram relativamente estáveis. A questão é que, enquanto houver uma aversão ao risco muito grande e tudo isso que eu falei ainda não estiver claro na cabeça das pessoas, o processo de melhora é mais lento. Se o cenário externo estivesse razoável, a melhora seria muito mais rápida. Estado - O elevado volume de vencimentos de títulos cambiais não explica também o motivo de o dólar ficar nesse nível? De março a julho, vencem US$ 19,2 bilhões de papéis cambiais. Figueiredo - Não. O que temos hoje é uma sensação de total normalidade. Há demanda para as rolagens, que têm sido feitas sem grandes problemas . Há uma discussão sobre que taxa deve ser paga, mas isso é normal. A situação é diferente do que ocorreu no ano passado, quando houve um overshooting da taxa de câmbio e não havia demanda por hedge, o que causava um círculo vicioso, do qual nós conseguimos sair. Estado - O ex-presidente do BC, Gustavo Franco, disse recentemente que o País tem uma "flutuação tola" do câmbio, com pouca intervenção. O que o senhor acha dessas críticas? Figueiredo - Primeiro, se o BC tivesse feito mais intervenção no câmbio no ano passado, o ajuste em contas correntes não teria ocorrido. O que ocorreu com o Brasil é muito raro. O País saiu de um déficit em contas correntes de 4,5% do PIB para 1,3%, 1,4%, mas sem recessão. Há países que fizeram ajustes dessa magnitude, de três pontos porcentuais do PIB, mas com a economia caindo 6%, 7%, 10%. Isso mostrou uma flexibilidade, uma força da economia muito grande. Com mais intervenção do BC, isso não teria ocorrido. Qual foi o grande erro dos analistas no ano passado? Eles pensaram que, como havia expectativa de que as fontes de financiamento externo secariam, o País poderia quebrar, já que necessitava de muito capital externo. A questão é que, com o câmbio flutuante, embora as fontes de financiamento tenham diminuído, as necessidades também diminuíram. A flutuação não é tola, pelo contrário. Ela é muito saudável, vai sempre equilibrando o fluxo. Nenhum BC do mundo tem capacidade de mudar a trajetória da taxa de câmbio. Há um consenso sobre isso em todos os BCs do mundo . O que o BC pode fazer é, em momentos de grande volatilidade e falta de liquidez, ajudar o mercado a operar dentro de uma situação de normalidade. Foi o que nós fizemos no ano passado (quando a instituição vendeu dólares, linhas externas e linhas para exportação), mas sem intenção de interferir na taxa de câmbio, até porque sabemos que isso não é eficiente. Estado - O aumento do compulsório dos depósitos à vista de 45% para 60%, anunciado pelo Copom na quarta-feira, que vai retirar R$ 8 bilhões da economia, visou a reduzir o poder de fogo dos bancos para comprar dólares? Figueiredo - Quanto ao compulsório, só posso dizer é mais um dos instrumentos de política monetária que o BC pode usar além da taxa de juros. Mas a ata da reunião do Copom que sai na quarta-feira vai tratar detalhadamente desse assunto. Estado - O câmbio acima de R$ 3,60 é o principal obstáculo à queda da inflação? Figueiredo - Esse é outro assunto que eu não vou comentar antes da divulgação da ata do Copom.

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