Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Fila de IPOs começa a andar, mas prova de fogo do mercado vem nas próximas semanas

Oferta de ações iniciais na área farmacêutica pode ser impactada com o agravamento da pandemia; entre investidores, já há temor que onda de desistências se torne uma realidade

Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 20h00

A fila de ofertas de ações iniciais (IPO, na sigla em inglês) começou a andar na semana passada, com a farmacêutica Blau e a fabricante de medicamentos Viveo colocando suas ofertas na rua. Considerando o preço médio da faixa indicada por cada uma delas, as duas companhias poderiam levantar mais de R$ 4 bilhões, abrindo a onda prevista de lançamentos do setor de saúde, que é considerado um dos favoritos por investidores na atual conjuntura.

Nesta semana, deve ser anunciada ao mercado a oferta subsequente da Dasa Diagnósticos, que pode variar de R$ 5 bilhões a R$ 7 bilhões. Esta é uma operação aguardada, não só por causa do setor ao qual pertence, mas pelo tamanho da companhia, grande o bastante para atrair investidores estrangeiros. Também em saúde, deve ser colocada na rua na semana que vem a oferta do hospital Mater Dei.

Com a população envelhecendo, o acesso restrito da grande maioria da população a serviços médicos privados e a pandemia, que aumenta a percepção de demanda para o segmento como um todo, saúde é um dos setores considerados resilientes à turbulência macroeconômica e política. Nesse sentido, os estruturadores de operações também apontam para outros setores, como de tecnologia e áreas disruptivas, ou que ganham espaço na pandemia.

Mas será de fato nas próximas semanas, quando essas e outras ofertas chegarem ao mercado, que se saberá quão forte será o impacto do agravamento da crise sobre a fila de empresas que almejam captar recursos, com a listagem em bolsa. Mas, começa a se formar uma percepção geral de que esta próxima janela não será tão escancarada quanto a primeira que se abriu neste ano.

Muitos daqueles que estão próximos às empresas nessa trajetória rumo à bolsa já começam a dizer que uma parte das que aguardam a chancela da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ou mesmo entre as que nem chegaram a esse estágio do processo, podem ficar no meio do caminho. As projeções que os bancos de investimento vinham fazendo de captações em torno de R$ 50 bilhões ou até R$ 60 bilhões podem ter de ser refeitas.

A nova onda da covid-19 e o colapso do sistema de saúde em vários estados e municípios colocam em xeque a recuperação econômica e ressaltam as divergências do Planalto com interlocutores políticos. Ontem, o anúncio da saída de André Brandão da presidência do Banco do Brasil ressuscitou os temores de interferência do governo nas estatais. E esse receio já fez bastante estrago no mercado, recentemente, com a substituição inesperada no comando da Petrobrás.

Some-se a isso o aumento em 0,75 ponto porcentual da Selic nesta semana, para 2,75% ao ano, acompanhada da elevação das projeções para o juro no final do ano, para entre 5% e 6%, e está pintado um quadro com o céu carregado de nuvens ameaçadoras. O juro mais elevado altera os fluxos dos investimentos e, eventualmente, pode diminuir a atratividade das ações.

Uma fonte de um banco estrangeiro que preferiu não se identificar afirma que já se percebe certa tensão nos processos de definição da margem de preço das ofertas, feitas antes do anúncio oficial das ofertas, com conversas mais longas e os investidores mais cautelosos. De toda forma, os especialistas ouvidos dizem que ainda não se ouve sobre desistências, mas que, certamente, as chances de operações serem mais bem sucedidas estão entre as empresas de segmentos resilientes e capazes de exibir estratégia e resultado consistentes. Também afirmam não perceber desinteresse dos estrangeiros, embora esse grupo tenda a estar presente somente nas ofertas de sucesso mais óbvio.

Próximas

A Viveo, distribuidora de produtos médicos, lançou sua oferta de ações (IPO, na sigla em inglês) ao mercado, podendo levantar até R$ 1,996 bilhão, considerando o preço médio da faixa indicativa da oferta, que vai de R$ 19,92 a R$ 25,81 por ação. A precificação da oferta está prevista para o dia 8 de abril.

A Blau Farmacêutica estabeleceu a faixa de preço em sua oferta pública de ações entre R$ 44,60 e R$ 50,60. No topo da faixa, a oferta - que é primária e secundária, pode girar em torno de R$ 2,269 bilhões e, considerando o preço médio de R$ 47,60, R$ 2,134 bilhões. A precificação está marcada para 6 de abril.

Em análise na CVM, estão mais de 40 ofertas. Dessas, sete são de saúde e oito de tecnologia.

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