Filhos de fundador da Samsung brigam na Justiça

Irmãos querem parte da fortuna herdada pelo presidente da Samsung, Lee Kun-hee, de seu pai, fundador do grupo

CHOE SANG-HUN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h08

O homem mais rico da Coreia do Sul, Lee Kun-hee, presidente do grupo Samsung, um dos maiores conglomerados industriais do país, não é famoso por suas declarações públicas. Em parte por causa de sua reticência, seus poucos comentários públicos são estudados pelos devotados funcionários com o mesmo zelo dos cristãos ao estudar as passagens da Bíblia.

Talvez o líder empresarial mais conhecido do país, Lee, de 70 anos, está revelando atualmente um lado completamente diferente, deixando-se envolver numa troca pública de farpas com o irmão mais velho e a irmã, herdeiros da fortuna acumulada pelo fundador da Samsung, Lee Byung-chull.

Na segunda-feira, Lee Maeng-hee, o irmão mais velho, chamou Kun-hee de "infantil" e "ganancioso". Na terça-feira, o presidente da Samsung disse do irmão: "Ele próprio diz ser o primogênito da família, mas nenhum dos familiares, nem mesmo eu, o consideram o filho mais velho. Na verdade, nunca o vi no ritual anual que celebra o aniversário da morte de nosso pai."

Trata-se da pior acusação que se pode fazer publicamente a um filho coreano, principalmente no caso do primogênito, nesta sociedade confucionista, para a qual o rito anual em homenagem aos ancestrais mortos é considerado o dever mais sagrado dos filhos. "Esses sujeitos são melhores que as novelas coreanas", disse Thomas L. Coyner, consultor administrativo que mora em Seul e autor de Doing Business in Korea (algo parecido com Como fazer negócios na Coreia), a respeito das fofocas inspiradas pela briga entre os irmãos.

A disputa se tornou uma grande sensação num país em que a elite financeira enfrenta o crescente escrutínio do público num ano de eleição e, como disse Coyner, as pessoas ainda parecem ter "uma impressão tradicional segundo a qual os muito ricos acumulam sua riqueza necessariamente por meios ilegais".

Mas Chung Sun-sup, diretor do Chaebul.com, site especializado em acompanhar os conglomerados coreanos controlados por famílias (conhecidos como "chaebol"), disse que Lee Kun-hee tinha motivos para temer: os irmãos estão exigindo parte das ações controladas por ele na Samsung Life, a maior seguradora da Coreia do Sul, que é também a maior detentora de ações da Samsung Electronics, verdadeira joia da coroa do conglomerado.

"Dependendo da decisão do tribunal ou de um possível acordo extrajudicial entre os irmãos, isso poderia ameaçar o controle de Lee sobre o grupo inteiro", disse Chung. "Ele deve se sentir como alguém que está à beira do precipício. Não surpreende que se mostre tão sensível ao reagir." A troca de acusações de ganância entre os membros de famílias ricas tem mantido os fofoqueiros ocupados há semanas.

Expansão. Lee Byunh-chull fundou a Samsung em 1938 e teve três filhos e cinco filhas, sendo que a maioria deles administra hoje os próprios empreendimentos. Ele morreu em 1987, depois de romper com a tradição confuciana de entregar o controle dos negócios da família ao filho mais velho.

Sob o comando de Lee Kun-hee, a Samsung cresceu e se tornou a marca sul-coreana mais conhecida em todo o mundo, produzindo navios, edifícios residenciais, chips de computador e celulares. O valor das ações que Lee possui nas subsidiárias da Samsung foi avaliado em US$ 8,7 bilhões no mês passado.

Tanto a Samsung quanto o CJ Group - conglomerado do setor de alimentos, entretenimento e logística presidido por Lee Jae-hyun, filho de Lee Maeng-hee - sustentam que não estão envolvidos na batalha legal entre os irmãos, descrita pelas empresas como assunto particular. Mas, em fevereiro, a CJ exigiu um pedido de desculpas da Samsung depois de descobrir que funcionários da empresa teriam espionado seu presidente. Os promotores públicos estão investigando o caso.

A disputa envolvendo as ações de Lee Kun-hee, presidente da Samsung, começou em 2007, quando um informante revelou a existência de bilhões de dólares em ações que Lee mantinha ilegalmente sob seu controle por meio de terceiros. Depois de pagar uma taxa punitiva, Lee transferiu a propriedade dessas ações para o próprio nome, transformando-se no maior acionista da Samsung Life.

Lee disse ter herdado as ações do pai. Mas, em fevereiro, o irmão mais velho e uma das irmãs mais velhas, Lee Sook-hee, bem como os filhos de outro irmão, abriram processos alegando que teriam direito a uma fatia da herança e exigindo o equivalente a quase US$ 875 milhões das ações de Lee.

Se a decisão do tribunal for contrária a Lee, ele poderia perder boa parte dos 36% da Samsung Life, que controla com a Everland, uma subsidiária da Samsung, de acordo com Chung, diretor do site que acompanha os "chaebol".

Outros irmãos que não estão envolvidos no processo podem vir a exigir sua parte. "Não tenho a intenção de entregar-lhes nem um centavo", disse Lee na semana passada. "Lutarei até o fim, recorrendo à Suprema Corte e à Corte Constitucional, se necessário."

Na segunda-feira, Lee Maeng-hee, de 80 anos, acusou o irmão mais novo de "agir de maneira infantil". "Kun-hee sempre buscou satisfazer os próprios desejos gananciosos", acrescentou ele, num comunicado divulgado por seus advogados.

Disputa. Nos chaebol sul-coreanos, os herdeiros costumam lutar pela rica herança deixada por patriarcas mortos. Disputas semelhantes abalaram conglomerados como os grupos Hyundai, Kumho Asiana e Doosan.

Como no caso da Samsung, tais disputas geralmente envolvem grandes quantias que os fundadores guardavam e que eram mantidas com objetivos que podem incluir o pagamento de subornos e a sonegação de tributos incidentes sobre heranças, depois de deixarem testamentos legando suas fortunas aos filhos.

"Além do ressentimento entre os irmãos, o episódio chama atenção para a falta de transparência nos procedimentos de sucessão que ocorrem nos conglomerados", disse Chung. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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